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Convívio com a diversidade humana dentro da SPS

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão da SPS

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São 28 anos incluindo pessoas com deficiência, negros e afrodescendentes, homoafetivos e vulnerabilidades sociais, dentro deste espaço funcional, antes Febemce, SAS, SETAS, STDS e agora SPS – Muitas derrotas, muitas vitórias, mas a certeza de ter tentado transformar vidas humanas excluídas, em destinos humanos dignos de direito. Uma luta que parece não ter fim, porque os preconceitos não dão trégua, como se a vida tivesse de ser uma eterna luta entre o bem e o mal. Entre consciência humana e ódio as minorias. Entre regressão e evolução dos relacionamentos humanos.

Republico um texto escrito em 2015 para uma reflexão: Evoluímos ou regredimos?

Em 2003 realizamos uma pesquisa, na Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) e em todas as suas unidades, onde foi constatado que um dos maiores problemas da secretaria eram os conflitos gerados pelo baixo nível dos relacionamentos interpessoais. Na prática, os preconceitos estavam presentes das gestões aos funcionários em geral; um resultado desanimador, uma vez que, na época, a meta era incluir 70 pessoas com deficiência na STDS, entre técnicos terceirizados, apoio administrativo, estudantes universitários e adolescentes em iniciação profissional. Mesmo com os resultados negativos, conseguimos ultrapassar a meta, incluindo assim mais de 100 pessoas.

Crescemos ou regredimos como público interno e como educadores sociais de uma secretaria que tem como missão “contribuir com a elevação da qualidade de vida da população cearense, sobretudo dos segmentos socialmente vulnerabilizados”? Estamos praticando políticas públicas consistentes ou trabalhando em vão? Temos que ter ciência de que sem avaliações reais não vamos conseguir fazer políticas públicas. Depois de 24 anos de vivências, inclusões, projetos, grupos de estudos e oficinas, é preocupante o aumento do nível de preconceitos praticados na STDS, perceptíveis através de relatos e avaliações de pessoas incluídas pelo Laboratório de Inclusão.

A Ouvidoria da STDS recebeu em julho uma manifestação anônima, onde a pessoa questionava o porquê de funcionários e colaboradores com deficiência ficarem isentos de registrar o ponto eletrônico. “Por que tantos privilégios para os deficientes?”, perguntaram. Não são privilégios, são direitos conquistados através da Lei da Acessibilidade (Lei 10.098) e da nova Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/15), sancionada pela presidente da República Dilma Rousseff no início do mês de julho de 2015. De acordo com a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Decreto nº 3.298/99), o respeito às limitações das pessoas com deficiência, que devem receber igualdade de oportunidades, não pode ser confundido com paternalismo ou privilégios.

Uma funcionária da STDS, ainda não identificada, aproximou-se do carro de um tetraplégico com deficiência respiratória, indagando ao seu motorista e cuidador: “Por que você parou aí entre as vagas? Não já têm as vagas para os deficientes?”. O cuidador respondeu: “Foi apenas pra ele descer, não vou estacionar, já estou saindo. A vaga para deficientes está no sol.”. Ela continuou: “Ora! Se eu posso descer no sol, por que ele não pode? Já existem as vagas marcadas pra isso.”. Seria essa uma atitude de cidadania ou de indelicadeza? “O João está lá com um bando de cegos e aleijados”, disse outra funcionária da STDS, em 2007, durante uma ligação telefônica onde a interlocutora esqueceu de tampar a entrada de voz. Um colaborador com síndrome de Down sofreu assédio moral de uma gestora, sendo necessário um ano de tratamento para ele voltar ao estado normal. Uma técnica da STDS comentou “tenho medo de entrar na sala do João, ele trabalha com uma diversidade humana muito grande”. Medo ou preconceito?

São muitos exemplos lamentáveis que, se não tivessem acontecido, estaríamos em uma posição de evolução bem maior do que a atual. A prática dos preconceitos se transforma numa grande barreira para o desenvolvimento de políticas públicas de inclusão social. É inaceitável que o trabalho do Laboratório de Inclusão tenha adversários dentro da própria STDS. É como se a inclusão social fosse uma missão contraditória e utópica.

Nesses 24 anos, mais de cinco mil pessoas foram atendidas e incluídas; temos uma memória rica de inclusão social dentro e fora da STDS. Erramos e acertamos, ultrapassamos barreiras, ajudamos a transformar vidas humanas e destinos em outras possibilidades. A STDS é a única secretaria pública do Ceará a incluir todos os tipos de deficiência em seu quadro funcional exercendo diversas atividades, desde o técnico de nível superior até o apoio às atividades auxiliares. Somos pioneiros na empregabilidade de pessoas com deficiência e doença mental.

Em 2015 já perdemos a nossa capacidade de inclusão em 65% devido os cortes sucessivos de verbas públicas, principalmente de bolsas para estágio universitário e para adolescentes do projeto Primeiro Passo, destinadas também a estudantes com deficiência e vulnerabilidade social. Muitos desses estudantes, que deixaram de ser incluídos pela STDS, dificilmente terão outra oportunidade de inclusão na vida, devido a falta de estrutura e experiência de outras entidades e empresas na condução da inclusão de pessoas com deficiência. O corte de verbas públicas atinge em cheio a inclusão social; os prejuízos são incalculáveis.

“Você está louco em colocar uma estudante de serviço social cega para estagiar? Como ela vai fazer estudo de caso ou visita domiciliar?”; “Além de negro é aleijado”; “Como colocar um lesado para trabalhar na cozinha?”; “Ainda bem que aquela cadeirante é bonitinha”; “Esses deficientes só chegaram para atrapalhar”; “Mande apenas pessoas com deficiência leve, não pode ser cadeirante, cego ou surdo. Temos apenas que cumprir a cota”; “Aquele aleijado pensa que é gente”; e “Liguei pro Laboratório de Inclusão e uma pessoa com voz de mongol atendeu” foram algumas das diversas frases pronunciadas por funcionários de variados cargos e funções da STDS, desde o período de criação do Laboratório de Inclusão. Frases como essas serviram para diagnosticar focos de resistência à inclusão de pessoas com deficiência dentro da própria STDS, Secretaria esta com atividades voltadas para a área do trabalho e do desenvolvimento social.

Questionamos diariamente sobre as possíveis formas de enfrentar os preconceitos, que se estabelecem como sentimentos ou práticas rotineiras. Pessoas preconceituosas tendem a pensar que as pessoas com deficiência são inferiorizadas. Todavia, entre ser inferiorizado e ser inferior existe uma diferença de interpretação e significado. De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a empresa deve manter em seu ordenamento interno normas sobre o tratamento a ser dispensado aos empregados com deficiência, com o objetivo de coibir e reprimir qualquer tipo de discriminação, bem como as respectivas sanções pelo descumprimento dessas normas.

Enfrentar os preconceitos não é fácil, mas os resultados são gratificantes. Várias pessoas incluídas conseguiram vencer os preconceitos e entraram no mercado de trabalho. Hoje, depois de todos esses anos de luta contra os preconceitos e pela inclusão de pessoas com deficiência e vulnerabilidade social, o Laboratório de Inclusão teve mais conquistas do que derrotas. Mas ainda existe um longo caminho pela frente pleno de superações, desafios e novas inclusões.

Ser preconceituoso pode ser algo irreparável em alguns casos, mesmo com a ajuda da ciência, mas temos que pensar em outro tipo de homem, de sociedade, começando por nós mesmos; multiplicando a ideia de um mundo onde a diversidade humana possa conviver em harmonia. Isto seria possível um dia? É bom começarmos sendo coerentes com a própria missão da STDS. Somos – ou pelo menos deveríamos ser – educadores sociais em uma sociedade desigual, desumana, violenta e preconceituosa. É possível reverter isso? O que estamos fazendo para melhorar esta sociedade que tanto condenamos ou que mundo podemos imaginar e realizar como forma de sobrevivência digna aos próximos que virão?

João Monteiro Vasconcelos
Coordenador do Laboratório de Inclusão da SPS
30/7/2015

A nudez dos preconceitos: O que aprendemos e evoluímos entre STDS e SPS?

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Diante de tantos redesenhos, mudanças de gestões e governos, o Laboratório de Inclusão sobrevive e resiste, nesses 28 anos, enfrentando o seu maior vilão: o preconceito. Este texto foi escrito e publicado em 2011, com o título original, “A nudez dos preconceitos. ‘O João está lá, com um bando de cegos e aleijados’”. Agora republicamos, como outra reflexão, de memórias e conquistas, em um momento de crise política e ideológica no Brasil.

Os estudos referentes às origens e consequências dos preconceitos humanos reforçam a ideia de uma sociedade doente, incoerente, desigual, violenta e preconceituosa. Pensando na diversidade dos preconceitos, desde o deficientismo, racismo, xenofobia, homofobia… Observa-se que as expressões humanas vêm dos próprios sentimentos, das sensações, das atitudes, das escolhas, dos modelos criados e propagados ao longo da nossa História.

O preconceito se estabelece como forma de sentimento ou prática rotineira. Pessoas preconceituosas têm a convicção de que as pessoas com deficiência são espécie inferiorizada. Entre ser inferiorizada e ser inferior existe uma diferença de interpretação e significado, mas consequências das desigualdades sociais. Pelo preconceito, as pessoas com deficiência devem ser tratadas como inferiores e inferiorizadas. Este tratamento, promovido pelo sentimento do preconceito, retrata uma condição de comportamento de não aceitar as diferenças como características humanas, ou a aceitação dos modelos pré-estabelecidos de ser humano perfeito. As teorias de perfeição já causaram grandes estragos na humanidade. O modelo de ser humano perfeito envolve um corpo perfeito, beleza facial, que podem também serem anexados a outras exigências como as condições financeiras ou status social.

A vulgarização da dita perfeição humana, como apoio de sustentação dos preconceitos, torna possível a teoria de que a sociedade precisa de mais equilíbrio do que de perfeição. Promovemos a inclusão de uma pessoa com deficiência pelo equilíbrio, pelo combate às desigualdades sociais, às deturpações de valores. É o equilíbrio que pode promover a aceitação das diferenças humanas como essenciais evolução e não a perfeição.

Com a formação do Grupo de estudos e Apoio à Acessibilidade Humana, em 2004, não foi difícil detectar os focos de preconceitos dentro e fora da ex-Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social – STDS (atual Secretaria de Proteção Social, Justiça, Mulheres e Direitos Humanos – SPS). Ficou claro também, nas avaliações das pesquisas, que nenhuma pessoa observada e entrevistada admitiu ter preconceito, mas nas atitudes do dia a dia não tiveram dificuldades de expressar essa ação.

As expressões humanas envolvem também a dualidade de atitudes. Quando deparamos com atitudes de preconceito, essa dualidade é claramente visível. Em 28 anos estudando e combatendo preconceitos, muitos exemplos de atitudes preconceituosas foram colhidas pelo Laboratório e serviram de material de estudos. Um dos casos mais famosos aconteceu em 2007. Em uma das reuniões do Grupo de Acessibilidade foram convidados alguns gestores para participarem de uma discussão sobre empregabilidade de pessoas com deficiência. Marcamos a reunião com um mês de antecedência, com horário de início para às 13h. Esperamos até 14:30h e nenhum dos convidados apareceu. Resolvemos ligar para saber o motivo das ausências, quando uma das secretárias comunicou que os gestores estavam em um evento muito importante. Reclamei que deveriam ter avisado e que muita gente estava esperando aquela reunião, pessoas com todas as deficiências e tiveram dificuldades de se deslocar até a Secretaria. Foi quando a secretária, que displicentemente não tampou a entrada de voz do telefone, proferiu a seguinte frase: “O João está lá, com um bando de cegos e aleijados”. Aproveitamos o momento da reunião e a ausência dos gestores e colocamos a referida frase como objeto de estudos do Grupo de Acessibilidade.

Passaram-se sete anos desde o lançamento do Projeto de Acessibilidade em 2004, que antecedeu a criação do Laboratório de Inclusão da STDS (atual SPS). Todas as deficiências foram incluídas, em todas as funções, como previa o Projeto de Inclusão Qualitativa. Assistimos a uma apresentação de balé de cadeiras de rodas. Foi emocionante ver aquelas meninas em suas cadeiras de rodas em cenas fortes de dedicação, arte e superação. No trabalho de inclusão de pessoas com deficiência é essencial conservar e evoluir o nível de emoções dos sentimentos de simplicidade e generosidade. Naquele momento, novamente, escutamos a voz dos preconceitos: “Onde tu vê dança e arte nestas meninas aleijadas?” vindas de uma das pessoas estudadas e observadas pelo Laboratório de Inclusão, desde 2004. Mesmo com tantos momentos ricos de vivências, cursos de conscientização, apresentações, seminários e o convívio com trabalhadores com suas diferenças, não foi possível mudar aquela pessoa e tantas outras que continuam expressando em suas palavras e ações a violência dos preconceitos. Surge então a pergunta: Preconceito tem cura?

Em destaque, para reflexão, a relação de algumas frases pronunciadas no período de implantação do projeto de Inclusão Qualitativa, que serviram para diagnosticar focos de resistência à inclusão de pessoas com deficiência: “Você está louco em colocar uma estudante de serviço social cega para estagiar! Como ela vai fazer estudo de caso ou visita domiciliar?”; “Além de cego, é aleijado!”; “Como colocar um lesado para trabalhar na cozinha?”; “Como você vai conseguir trabalhar com velhos, mijados, cagados e fedorentos?”; “Ainda bem que aquela cadeirante é bonitinha.”; “Minha filha não é deficiente, é inteligente.”; “Estes deficientes só chegaram para atrapalhar.”; “Mande apenas pessoas com deficiência leve. Não pode ser cadeirante, cego, surdo… Temos que cumprir a cota”.

Quando eu chegava com o Grupo de Acessibilidade, das apresentações externas, alguém comentava: “Lá vem o aleijado com os aleijados dele”. Todos os autores destas frases foram identificados para serem estudados pelo Laboratório de Inclusão.

Lembro das palavras da ex-deputada e Juíza Denise Frossard, em 2006, ao rejeitar o projeto de lei que considera crime discriminar deficientes físicos: “A deformidade física fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana.”

O enfrentamento e o convívio com o preconceito, por parte das pessoas com deficiência, envolve um nível de aceitação e consciência de acordo com as memórias de cada um. Como somos diferentes, temos formas de expressões e reações diferentes. Alguns pontos se tornam essenciais ao enfrentamento dos preconceitos humanos: 1. Assumir a própria deficiência sem medo e vergonha. 2. Entender que a deficiência do preconceito é bem maior e pior que a sua. 3. A deficiência ou diferença é uma característica humana. 4. A aceitação de si mesmo deve ser mais forte do que o preconceito. 5. Não permita que as pessoas com preconceito impeçam você de viver. A vida é sua e você deve vivê-la com dignidade e liberdade.

Por uma pessoa ter uma deficiência não significa não ser preconceituosa. A característica de ser preconceituosa está ligada à condição do próprio comportamento, do que aprendeu como valores sociais, dentro de sua trajetória de vida. Uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, pode ser racista mesmo sem poder enxergar a cor da pele de uma outra pessoa, basta saber que aquela pessoa é negra para expressar sua condição de racista. Qualquer tipo de deficiência ou diferença pode se incorporar à uma condição de ser preconceituoso.

No processo de inclusão das pessoas com deficiência identificamos dois pontos que podem ajudar e organizar as estratégias de combate aos preconceitos, na sustentabilidade de projetos, seus parceiros e seus adversários. 1. O preconceito cresce ou se expande quando deixamos ele se expressar sem contestação. 2. Quando identificamos oficialmente o foco ou as pessoas com preconceito, ele se retrai ou se torna vulnerável.

Em um dos encontros do Grupo de Acessibilidade, foi feito uma pergunta aos participantes, todos com um tipo de deficiência: “Você é capaz de identificar nominalmente as pessoas que lhe tratam com preconceito, dentro da família, entre os amigos, na escola ou faculdade e no ambiente de trabalho?” A resposta um unânime “sim”. Tudo fica mais compreensível quando sentimos na própria pele.

A neutralização dos focos de preconceito não identifica a sua eliminação, por que é temporário, como um silêncio aparente. Muitas pessoas estudadas e pesquisadas pelo Laboratório de Inclusão tiveram vergonha de admitir serem preconceituosas, mas tiveram facilidades em expressar o preconceito, através de atitudes de indiferença e exclusão. Acham “bonitinhas” as pessoas com Síndrome Down, ou sentem pena. Outro dia incluímos um trabalhador com Síndrome de Down como auxiliar de lanchonete. Ele fazia entregas nas salas. Uma funcionária comentou com a equipe do Laboratório: “Achei lindo aquele menino com Síndrome de Down fazendo entregas nas salas”. Perguntei se ela aceitaria um adolescente com a mesma síndrome como estagiário em seu setor. Foi quando ela respondeu com rapidez: “Vixe, lá na nossa sala? É complicado, não temos tempo de acompanhar, acho melhor você procurar outro setor…”

Passei três anos me comunicando profissionalmente com uma gestora de outra secretaria por telefone. Ela sempre me tratava bem, tirando dúvidas, facilitando os trabalhos. Mas, um dia, participamos de uma mesma reunião e ela me viu andando com as sequelas de poliomielite. A partir daquele momento ela passou a me tratar com indiferença, às vezes com grosserias ou irritabilidade.

É preciso entender o que se passa na mente, no sentimento da pessoa que pratica o preconceito. As pessoas observadas pelo Laboratório, com verbalizações a atitudes de preconceito, foram relacionadas e são acompanhadas e avaliadas como objetos de estudos na elaboração de estratégias de combate aos preconceitos. Constatamos que elas não mantêm um bom relacionamento interpessoal, nem no ambiente profissional nem no familiar. Relatamos que elas expressam arrogância e autossuficiência, agressividade nas palavras e, dependendo das características e nível dos sentimentos, podem ser agressivas fisicamente, o que é mais comum na homofobia.

O Laboratório de Inclusão é rotulado pelas interpretações externas, com uma carga forte de preconceitos, por representar os níveis inversos do padrão exigido de “perfeição” humana. Estas interpretações atingem, muitas vezes, alguns projetos que poderiam ter um tempo de resultados bem mais curto. O preconceito velado, que se esconde por trás do artificialismo do comportamento, carrega uma disfuncionalidade capaz de retardar a evolução de muitos projetos, danificando, irreversivelmente, destinos humanos.

Nos estudos do Laboratório verificamos a diversidade dos preconceitos. Uma pessoa é submetida a várias avaliações: O formato de seu corpo, a maneira de andar, o tom da voz, a textura da pele, o tipo de cabelo, a fisionomia do rosto, a maneira de se vestir, a maneira com que fala, se perdeu algum sentido (visão, audição, mobilidade, cognitivo)… são as existências do padrão do ser humano perfeito. A valorização da aparência ou mobilidade de um corpo humano reflete as simbologias criadas como modelos de perfeição.

Ter preconceito é também uma característica humana neste modelo de sociedade que vivemos, como também ter uma deficiência. Como são opostos, ter uma deficiência não impede nem o homem nem o mundo de evoluírem, mas o preconceito retarda a evolução da vida, como elemento destruidor e desnecessário. Assim, dentro da ideia do surgimento e desenvolvimento de um novo modelo de sociedade, poderiam considerar “deficiências humanas” apenas de comportamentos preconceituosos e violentos.

Na inclusão de pessoas com deficiência avaliamos as pessoas com preconceito em três categorias: Aqueles que assumem abertamente ser preconceituosos; Aqueles que não assumem ser preconceituosas, mas expressam com facilidades ter preconceito; Aqueles que têm pena de quem tem deficiência, mas mantém a convicção de que eles são inferiores.

Ser preconceituoso pode até não ter cura, em alguns casos, mesmo com a ajuda da ciência, mas temos que pensar em outro tipo de ser humano, de sociedade, começando por nós mesmos, multiplicando a ideia de um mundo onde a diversidade humana possa conviver em harmonia. Isto vai ser possível um dia? É bom começar não tendo medo de enfrentar os vilões que mantêm as invisibilidades humanas…

Aprendendo com as adversidades

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Os obstáculos presentes nas crises, quedas, perdas, dores, relacionamentos e demais adversidades, não são nossos adversários ou inimigos, como imaginamos, pelo contrário, são as fases ou estágios necessários para colocarmos em prática os nossos aprendizados. Afinal, se formos pensar nas competências de um líder, como vamos obter resiliência, sem nunca ter encarado ou enfrentado uma dificuldade? Como ter paciência, sem se deparar com o que ou quem nos inquiete? Como saber se você é persistente, sem nunca ter escutado um não ou encontrado uma porta fechada?

As nossas competências só são adquiridas ou fortalecidas diante dos desafios. Logo, mude a sua visão e a atitude de reclamar das dificuldades e encare-as como uma oportunidade para se desenvolver e aperfeiçoar. Quando mudamos a nossa forma de ver a vida, a vida muda de forma. O que era pesado, torna-se mais leve. O que antes gerava pesadelo, torna-se aventura.

A medida que vamos vencendo nossos medos e obstáculos, nos tornamos autoconfiantes e mais preparados para darmos os próximos passos. A vida assemelha-se a um jogo de vídeo game, em que ao passarmos de fase, tornamo-nos mais hábeis.

Viver é um eterno desafio e aprendizado, muito mais prático, do que teórico. Assim como numa escola, estamos sempre aprendendo. Porém, na escola, estudamos para fazer uma prova, já na vida, passamos por inúmeras provas, para tirarmos alguns aprendizados. Tudo vai depender de como você enxerga a situação, se é com um olhar de aprendizado ou de revolta e reclamação.

Independentemente ao que se viva, o seu olhar irá refletir nos resultados da sua vida. Assim, como na história dos irmãos gêmeos que tinham um pai alcoólatra. Ao crescerem, um manteve hábitos saudáveis e tornou-se empresário, o outro era viciado e virou mendigo. Até que um dia, ambos foram perguntados sobre o que os levou as suas respectivas condições de vida, no que responderam: “Foi o meu pai que me deu mau exemplo”.

Ou seja, embora os dois tivessem o mesmo sangue, o mesmo pai, a mesma cara, idade e educação, assim como, os mesmos exemplos e problemas, ambos tiraram aprendizados completamente diferentes. Um escolheu ser vítima das circunstâncias, o outro exemplo de superação e de possibilidades diante das adversidades.

Enfim, trajetórias que se divergem baseadas no modo de enxergarem e conduzirem suas vidas. Logo, reflita, como você tem conduzido a sua vida? Abandone suas desculpas e justificativas, encontrando uma solução para os seus problemas.

No link a seguir, seguem fotos minhas de uma viagem, em que superei várias barreiras físicas: https://www.instagram.com/p/Bsf4odMBbBP/

Minha passagem pelo Laboratório de Inclusão da STDS

por Syssa Lopes
Ex-estagiária do Laboratório de Inclusão, licenciada em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e atual professora da rede de ensino público do município de Fortaleza.

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“Gostaria de agradecer imensamente a esta equipe MARAVILHOSA que existe há 29 anos e se constitui resistência na inclusão de pessoas, com seu processo seletivo muito sério e rigoroso. Tive a oportunidade de ser a primeira mulher trans a trabalhar no laboratório e fiquei extremamente FELIZ em saber que também entrou um homem trans.

A equipe teve toda uma preocupação, cuidado e dedicação, antes e durante a minha participação. Se atentaram ao nome social em todos os documentos e respeitaram a minha identidade de gênero. Quando houveram questionamentos de alguns setores de uma trans estar trabalhando na STDS (Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social), logo eles fizeram uma ação de combate à transfobia.

No país que mais mata pessoas trans e no Estado que é o terceiro em números de assassinatos, incluir esse público num órgão estadual é um ato de resistência. A média de vida desse público é de 36 anos contra 73 anos do restante da população, 40 por cento dos assassinatos desse público ocorrem no Brasil.

Para as pessoas trans, muitos direitos são negados, como o acesso à saúde, trabalho e educação. Então, poder mostrar a nossa capacidade é uma grande oportunidade. Do que adianta resistir à escola e universidade se não seremos aceitos no mercado de trabalho? Por isso, o Laboratório de Inclusão está de parabéns por nos abrir as portas e mostrar que é possível sim convivermos com as diversas diferenças. Só tenho mesmo o que me orgulhar e levar esta experiência por toda minha vida.

Hoje estou formada em licenciatura de Filosofia, graduanda em Letras e pós graduanda em Língua Portuguesa e Literatura. Retifiquei nome e sexo, e estou trabalhando na rede municipal de educação de Fortaleza.

Agradeço a atenção, acompanhamento, carinho e feedbacks. Vocês nos dão um grande aprendizado de liderança, sabem motivar os colaboradores e estão sempre abertos a nos ouvir. Sem mais, PARABÉNS equipe.”

 

A visão de um cadeirante no Estádio Presidente Vargas – Fortaleza (CE)

Existe o Decreto nº 12.916, de 1999, do estado do Ceará, que dispõe sobre as normas de adaptação de prédios de uso público, a fim de assegurar o acesso adequado às pessoas com deficiência. O Estádio Presidente Vargas, em Fortaleza (CE), de responsabilidade da Prefeitura Municipal de Fortaleza, deveria estar dentro das normas estabelecidas por este Decreto, mas o vídeo, feito por um membro do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social, demonstra a falta de acessibilidade para o público com deficiência. Precisamos cobrar o cumprimento da Lei para dar continuidade às políticas públicas de inclusão de pessoas com deficiência, e os órgãos públicos devem dar o bom exemplo.

É preciso ampliarmos nossos conceitos acerca da inclusão. Ter acessibilidade não é simplesmente ter uma rampa ou um local reservado para pessoas com mobilidade reduzida. A acessibilidade também passa por questões práticas, funcionais e cotidianas. Um estádio ter um local reservado para cadeirantes, mas sem que esse local tenha uma visão adequada do campo ou um espaço apropriado para a locomoção com a cadeira de rodas, isso não é ser acessível. Os órgãos públicos, acima de todas as instituições, devem ser os precursores de um espaço de fato público, efetivamente acessível para todos, validando, assim, nosso espírito democrático e social.

“Lá vem o aleijado com os aleijados dele”.

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Esta frase do título deste texto foi dita por uma funcionária da STDS, quando eu ia chegando de uma apresentação externa, com o Grupo de Acessibilidade, na sede da Secretaria. Uma frase forte, mas não foi suficiente para impedir que os projetos de inclusão de pessoas com deficiência e vulnerabilidade social fossem desenvolvidos com sucesso. O preconceito pode ser forte, mas, para combatê-lo, é preciso ser mais forte do que ele.

A inclusão de pessoas com deficiência, na STDS, teve início oficialmente em 2004, com a criação do Grupo de Acessibilidade. Um projeto que preenchia as cotas de pessoas com deficiência, nas vagas de colaboradores terceirizados. Um momento de muitos estudos, principalmente na observação do público interno, para saber os níveis de preconceitos e como seriam efetuadas as inclusões.

Na época, foi formado um grupo de estudos, interdisciplinar, com a participação de técnicos da STDS, estagiários universitários e algumas universidades conveniadas. Foi um ano de muitos estudos e pesquisas. Uma preparação do ambiente interno para a inclusão de 50 trabalhadores, com todas as deficiências e em todas as funções da STDS.

Identificamos, nos estudos e observações, 50 pessoas na STDS com níveis de preconceitos elevados, suas lotações e funções. Eram funcionários e alguns gestores. Conhecer e entender o ambiente físico e humano da STDS foi fundamental para o sucesso do preenchimento das vagas. Chegamos a incluir 107 pessoas com deficiências na STDS, entre estudantes universitários, estagiários do Projeto Primeiro Passo e colaboradores. Foi um processo seletivo rigoroso, mas, com o conhecimento interno, as lotações foram realizadas com muito planejamento.

O preconceito foi, e ainda é, a maior barreira na inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Na época de 2004, concluímos que seria demorado e complexo tentar mudar a cabeça das pessoas identificadas resistentes às inclusões dentro da STDS. Então, resolvemos planejar neutralizá-las. Como foi possível?! A estratégia foi a criação de um Laboratório de Inclusão, dentro da STDS, que desenvolvesse projetos fortes e consistentes de inclusão de pessoas com deficiência e vulnerabilidade social. As pessoas identificadas como preconceituosas seriam neutralizadas com as práticas constantes de combate aos preconceitos, através de grupos de estudos, oficinas e conscientização da importância do convívio harmonioso com a diversidade humana e aumento dos níveis de relacionamentos interpessoais.

Quando neutralizamos o preconceito, ele não deixa de existir, apenas fica velado, escondido, aparentemente silencioso, principalmente dentro do ambiente de trabalho. Ninguém vai ter a coragem de oficializar ser racista, homofóbico ou ter preconceito contra pessoas com deficiência no ambiente de trabalho. Preconceito velado é difícil de combater e identificar, porque, quem tem, diz que não tem. Mas como a neutralização provoca medo em quem tem preconceito, ele se torna fraco o suficiente para que as inclusões sociais possam se realizar sem interferências relevantes.

Hoje, depois de 14 anos, uma parte destas 50 pessoas já se aposentou, mas o preconceito não acabou, nem diminuiu. Não é um problema exclusivo da STDS, mas de todo o Brasil. É visível as expressões de racismo, homofobia e sexismo nas redes sociais. O preconceito contra pessoas com deficiência carrega pena, nojo, fragilidade e inferioridade; uma cultura nociva à evolução humana. Lembro do parecer e definição preconceituosa e violenta, nas palavras da ex-deputada e juíza Denise Frossad, sobre pessoas com deficiência: “A deformidade física fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana”. Palavras fortes que definem a estrutura regressiva, forte e cruel de um preconceito.

O Laboratório de Inclusão sobrevive, dentro de uma secretaria pública, que, como tantas outras, são reflexo de um país onde as práticas de preconceitos não dão trégua. É uma luta que parece não ter fim. Sabemos que foram muitas conquistas, muitos destinos evoluídos, mas o que preocupa, é que, mesmo com tantos avanços, projetos implantados, e tantas pessoas incluídas, as práticas de preconceitos não diminuíram, como uma praga que passa de geração a geração.

Com o aumento dos preconceitos, aumentam também as dificuldades de inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, afetando diretamente, todas as práticas de políticas públicas direcionadas a inclusão social. A crise política é também uma crise de caráter, de cultura e de educação. Difícil tentar mudar uma STDS, se o país também não muda, as pessoas não melhoram, a vida não melhora. É como passar horas construindo um castelo de areia, e alguém passa e chuta destruindo, então você tem que começar tudo de novo.

Estudar a personalidade de uma pessoa que tem ódio às outras, por terem uma deficiência ou serem diferentes, é um trabalho longo e, muitas vezes, desgastante. Mas precisamos continuar fortes, sem medo e tentado não desistir. Desistir é como morrer ou matar um sonho, uma luta ou muitas vidas…

Prepotência e ego não combinam com educação

por Danielle Cardoso
estagiária de Letras do Laboratório de Inclusão

prepotência

Se tem uma coisa que aprendi na minha vida acadêmica é que você nunca saberá de tudo, nunca será detentor pleno do conhecimento. Quando você aprende algo, percebe que tem um mundo de outras coisas que você não sabe. Por mais mestrados, doutorados e pós-doutorados que você tenha, sempre haverá um mundo de conhecimentos ao qual você será ignorante. A vida é um eterno aprendizado e acredito que, para os professores, em especial, essa deve ser a lição número um de sua profissão.

É muito egoísta e prepotente você pensar que não tem mais nada a aprender, que seu aluno não é capaz de te ensinar algo novo. Sua didática pode ser perfeita na teoria, mas, na prática, é outra coisa. Sempre será preciso fazer adaptações, pois plano de aula que dá certo é aquele que sai do planejado. Professores trabalham com a formação de seres humanos, que são diferentes em tempo, compreensão, gostos, pensamentos, ações. Não é matemático, você não vai conseguir a fórmula para ser um bom professor, o segredo é ter humildade e aprender a como ser melhor a cada dia.

Neste contexto, uma “professora” universitária faz algo inaceitável: falou, em meio a toda sua turma, que não vai mudar sua didática por causa de um único aluno que tem deficiência visual. – Para quê, não é, professora? Para quê mudar sua didática por causa de um cego, que, na sua cabeça, não vai chegar a lugar nenhum? Realmente, esse papo de inclusão é muito bonito, desde que não te afete, não é?! Porque não vejo sentido mesmo em mudar sua didática, que, provavelmente, há muitos anos você a usa e nunca pensou em reformulá-la. Se não acompanha, não é seu problema, você não é culpada por ele ser cego. Absurdo mudar sua aula por ele!

Para quem não entendeu, usei de ironia no parágrafo anterior. É assim que imagino que pensa uma pessoa que faz isso, que, por ego e prepotência, quer tirar o direito de um aluno com deficiência de estudar. Professora, você pode ser processada por isso, porque discriminação é crime. Não estou expressando o que acho, a Lei Brasileira de Inclusão é que garante: DISCRIMINAÇÃO É CRIME! E não tem nada de mau evitar escrever na lousa ou descrever para o seu aluno o que você escreveu lá. Não é coisa do outro mundo disponibilizar os textos da disciplina em PDF para que seu aluno possa ter acesso igual aos outros. Na verdade, professora, isso faz parte da sua profissão.

Já passei por algo parecido no começo da minha graduação, o professor fingia não me ver, negava-se a dar aulas na sala de baixo e eu, que sou cadeirante, que me virasse para assistir a suas aulas e disse que eu não precisava fazer trabalhos, pois, no fim do semestre, ele me daria uma nota qualquer. Não denunciei esse professor, não sabia ainda quais eram meus direitos. Todavia, o que mais me chamava atenção era que, fazendo tudo isso comigo e humilhando os outros, ele reafirmava seu enorme ego e fazia valer a figura do professor todo poderoso, que todos temem. Se ele se permitisse a aprender comigo, todo o mundo de ilusão que ele criou e ao qual tanto se agarra, cairia, e ele voltaria a ser um professor normal, era isso que o amedrontava.

A vida não é, nem precisa ser, uma competição. Não deixe seu ego tomar conta de você, só porque você tem uma condição social mais elevada que os outros. Não banque o sabe-tudo, só porque você tem um título de doutor. Não seja prepotente com seus alunos, isso só mostra o quão inseguro (a) você é. Pelo contrário, aprenda com eles, seja humilde, inclua. Você será uma pessoa bem melhor assim, te garanto. Não perca tempo alimentando seu ego, é na simplicidade que a gente é feliz. Até a próxima!