Arquivo da categoria: Reflexão

Siga na direção correta

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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A vida é cíclica, tudo gira, nada é estável. Logo, se você estiver enfrentando uma dificuldade, SE ACALME, porque irá passar. Assim como, se você estiver atravessando uma boa fase, APROVEITA, porque também irá passar.

No entanto, saiba que o seu presente é fruto das suas ações passadas e que, o seu futuro, dependerá das suas ações presentes. Por isso, se você acredita na lei de causa e efeito, em que tudo volta, CUIDADO, pois o que você planta hoje irá lhe CONFORTAR ou ASSOMBRAR amanhã.

Reflita, o que você tem plantado? Faça o que precisa ser feito para que o seu sonho seja realizado. Pare de QUERER e comece a FAZER. Porém, antes de planejar o COMO você vai alcançar seu sonho, preocupe-se mais em ter clareza sobre O QUE você quer verdadeiramente para sua vida. Pois de nada adianta o AGIR se a DIREÇÃO estiver errada.

Sendo assim, ajuste seu rumo, porque uma vez na direção correta, cedo ou tarde, a vitória é certa. Afinal, na vida pessoal, o Faixa Preta é o Faixa Branca que não desistiu e continuou treinando. Já no universo corporativo, a Grande Empresa é a Pequena que persistiu e fez a coisa certa. Em ambos os casos, tudo se resume numa questão de tempo, persistência e preparo.

Enfim, o plantio é opcional, mas a colheita é inevitável. Ninguém planta feijão e colhe milho. Desse modo, empregue sua cota de sacrifício e cultive o mérito dos seus esforços. No final, todos nós iremos cruzar a nossa linha de chegada, mas só irá festejar quem percorreu a trilha certa de forma correta.

Pense nisso.

Convívio com a diversidade humana dentro da SPS

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão da SPS

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São 28 anos incluindo pessoas com deficiência, negros e afrodescendentes, homoafetivos e vulnerabilidades sociais, dentro deste espaço funcional, antes Febemce, SAS, SETAS, STDS e agora SPS – Muitas derrotas, muitas vitórias, mas a certeza de ter tentado transformar vidas humanas excluídas, em destinos humanos dignos de direito. Uma luta que parece não ter fim, porque os preconceitos não dão trégua, como se a vida tivesse de ser uma eterna luta entre o bem e o mal. Entre consciência humana e ódio as minorias. Entre regressão e evolução dos relacionamentos humanos.

Republico um texto escrito em 2015 para uma reflexão: Evoluímos ou regredimos?

Em 2003 realizamos uma pesquisa, na Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) e em todas as suas unidades, onde foi constatado que um dos maiores problemas da secretaria eram os conflitos gerados pelo baixo nível dos relacionamentos interpessoais. Na prática, os preconceitos estavam presentes das gestões aos funcionários em geral; um resultado desanimador, uma vez que, na época, a meta era incluir 70 pessoas com deficiência na STDS, entre técnicos terceirizados, apoio administrativo, estudantes universitários e adolescentes em iniciação profissional. Mesmo com os resultados negativos, conseguimos ultrapassar a meta, incluindo assim mais de 100 pessoas.

Crescemos ou regredimos como público interno e como educadores sociais de uma secretaria que tem como missão “contribuir com a elevação da qualidade de vida da população cearense, sobretudo dos segmentos socialmente vulnerabilizados”? Estamos praticando políticas públicas consistentes ou trabalhando em vão? Temos que ter ciência de que sem avaliações reais não vamos conseguir fazer políticas públicas. Depois de 24 anos de vivências, inclusões, projetos, grupos de estudos e oficinas, é preocupante o aumento do nível de preconceitos praticados na STDS, perceptíveis através de relatos e avaliações de pessoas incluídas pelo Laboratório de Inclusão.

A Ouvidoria da STDS recebeu em julho uma manifestação anônima, onde a pessoa questionava o porquê de funcionários e colaboradores com deficiência ficarem isentos de registrar o ponto eletrônico. “Por que tantos privilégios para os deficientes?”, perguntaram. Não são privilégios, são direitos conquistados através da Lei da Acessibilidade (Lei 10.098) e da nova Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/15), sancionada pela presidente da República Dilma Rousseff no início do mês de julho de 2015. De acordo com a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Decreto nº 3.298/99), o respeito às limitações das pessoas com deficiência, que devem receber igualdade de oportunidades, não pode ser confundido com paternalismo ou privilégios.

Uma funcionária da STDS, ainda não identificada, aproximou-se do carro de um tetraplégico com deficiência respiratória, indagando ao seu motorista e cuidador: “Por que você parou aí entre as vagas? Não já têm as vagas para os deficientes?”. O cuidador respondeu: “Foi apenas pra ele descer, não vou estacionar, já estou saindo. A vaga para deficientes está no sol.”. Ela continuou: “Ora! Se eu posso descer no sol, por que ele não pode? Já existem as vagas marcadas pra isso.”. Seria essa uma atitude de cidadania ou de indelicadeza? “O João está lá com um bando de cegos e aleijados”, disse outra funcionária da STDS, em 2007, durante uma ligação telefônica onde a interlocutora esqueceu de tampar a entrada de voz. Um colaborador com síndrome de Down sofreu assédio moral de uma gestora, sendo necessário um ano de tratamento para ele voltar ao estado normal. Uma técnica da STDS comentou “tenho medo de entrar na sala do João, ele trabalha com uma diversidade humana muito grande”. Medo ou preconceito?

São muitos exemplos lamentáveis que, se não tivessem acontecido, estaríamos em uma posição de evolução bem maior do que a atual. A prática dos preconceitos se transforma numa grande barreira para o desenvolvimento de políticas públicas de inclusão social. É inaceitável que o trabalho do Laboratório de Inclusão tenha adversários dentro da própria STDS. É como se a inclusão social fosse uma missão contraditória e utópica.

Nesses 24 anos, mais de cinco mil pessoas foram atendidas e incluídas; temos uma memória rica de inclusão social dentro e fora da STDS. Erramos e acertamos, ultrapassamos barreiras, ajudamos a transformar vidas humanas e destinos em outras possibilidades. A STDS é a única secretaria pública do Ceará a incluir todos os tipos de deficiência em seu quadro funcional exercendo diversas atividades, desde o técnico de nível superior até o apoio às atividades auxiliares. Somos pioneiros na empregabilidade de pessoas com deficiência e doença mental.

Em 2015 já perdemos a nossa capacidade de inclusão em 65% devido os cortes sucessivos de verbas públicas, principalmente de bolsas para estágio universitário e para adolescentes do projeto Primeiro Passo, destinadas também a estudantes com deficiência e vulnerabilidade social. Muitos desses estudantes, que deixaram de ser incluídos pela STDS, dificilmente terão outra oportunidade de inclusão na vida, devido a falta de estrutura e experiência de outras entidades e empresas na condução da inclusão de pessoas com deficiência. O corte de verbas públicas atinge em cheio a inclusão social; os prejuízos são incalculáveis.

“Você está louco em colocar uma estudante de serviço social cega para estagiar? Como ela vai fazer estudo de caso ou visita domiciliar?”; “Além de negro é aleijado”; “Como colocar um lesado para trabalhar na cozinha?”; “Ainda bem que aquela cadeirante é bonitinha”; “Esses deficientes só chegaram para atrapalhar”; “Mande apenas pessoas com deficiência leve, não pode ser cadeirante, cego ou surdo. Temos apenas que cumprir a cota”; “Aquele aleijado pensa que é gente”; e “Liguei pro Laboratório de Inclusão e uma pessoa com voz de mongol atendeu” foram algumas das diversas frases pronunciadas por funcionários de variados cargos e funções da STDS, desde o período de criação do Laboratório de Inclusão. Frases como essas serviram para diagnosticar focos de resistência à inclusão de pessoas com deficiência dentro da própria STDS, Secretaria esta com atividades voltadas para a área do trabalho e do desenvolvimento social.

Questionamos diariamente sobre as possíveis formas de enfrentar os preconceitos, que se estabelecem como sentimentos ou práticas rotineiras. Pessoas preconceituosas tendem a pensar que as pessoas com deficiência são inferiorizadas. Todavia, entre ser inferiorizado e ser inferior existe uma diferença de interpretação e significado. De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a empresa deve manter em seu ordenamento interno normas sobre o tratamento a ser dispensado aos empregados com deficiência, com o objetivo de coibir e reprimir qualquer tipo de discriminação, bem como as respectivas sanções pelo descumprimento dessas normas.

Enfrentar os preconceitos não é fácil, mas os resultados são gratificantes. Várias pessoas incluídas conseguiram vencer os preconceitos e entraram no mercado de trabalho. Hoje, depois de todos esses anos de luta contra os preconceitos e pela inclusão de pessoas com deficiência e vulnerabilidade social, o Laboratório de Inclusão teve mais conquistas do que derrotas. Mas ainda existe um longo caminho pela frente pleno de superações, desafios e novas inclusões.

Ser preconceituoso pode ser algo irreparável em alguns casos, mesmo com a ajuda da ciência, mas temos que pensar em outro tipo de homem, de sociedade, começando por nós mesmos; multiplicando a ideia de um mundo onde a diversidade humana possa conviver em harmonia. Isto seria possível um dia? É bom começarmos sendo coerentes com a própria missão da STDS. Somos – ou pelo menos deveríamos ser – educadores sociais em uma sociedade desigual, desumana, violenta e preconceituosa. É possível reverter isso? O que estamos fazendo para melhorar esta sociedade que tanto condenamos ou que mundo podemos imaginar e realizar como forma de sobrevivência digna aos próximos que virão?

João Monteiro Vasconcelos
Coordenador do Laboratório de Inclusão da SPS
30/7/2015

Afinal, o que podemos tirar do Dia do Abraço?

por Sofia Guimarães
estagiária de psicologia do Laboratório de Inclusão

Dia do abraço editado

Neste mês, tivemos no dia 22 de maio (quarta-feira) uma data conhecida por muitos como o “Dia do Abraço”. Esse destaque no calendário se deu após um australiano chamado Juan Mann iniciar, nos primórdios dos anos 2000, uma campanha com o título de Free Hugs (“Abraços Gratuitos”), escrito em um cartaz que levava consigo pelas ruas de Sidney, na Austrália. Percorrendo os espaços públicos, Juan carregava o cartaz a fim de sensibilizar os desconhecidos transeuntes à troca de abraços, de forma neutra e genuína, contemplando recusas e correspondências que surgiam dos mesmos. Nesse fluxo, o movimento foi ganhando forma internacionalmente, e os crescentes abraços gratuitos que tinham como fundo de seu cenário as avenidas, praças, shoppings e demais locais públicos, avançaram nessa missão de sensibilização e incentivo ao encontro afetuoso com o outro.

De fato, a proposta chama a atenção social para a relevância de um abraço, e vem nos lembrar que se trata de um gesto, às vezes, esquecido ou menosprezado – embora seja bom para o que abraça e o que é abraçado. Todavia, a ação de um abraço não deve se restringir à data de 22 de maio, e sim abrir a reflexão de como nos comportamos quanto a isso nos outros 364 dias do ano. Em um abraço, eu uno o(s) meu(s) braço(s) ao(s) seu(s), e assim nossos corpos se aproximam e um sentimento nos sela. Em um abraço, cabe um mundo de significados, que eu mesmo coloco e o outro completa e cria o sentido por trás: uma palavra, um desejo, uma intenção, uma energia, um agradecimento, (…). E tem mais! Quer algo mais simbólico da inclusão que ele? O abraço inclui, junta. Ele tem em seu toque físico (se feito com a concessão dos envolvidos, vale ressaltar) um quê terapêutico, possibilitando superação de diferenças, acolhimento, alívio de alguma tensão ou dor presente, e uma aproximação corporal que contribui à relação, qualquer que seja ela.

Para você, que talvez tenha experienciado muitos ou poucos abraços, que esse texto sirva como um ponto de luz a direcionar a reflexão: o que você tem feito com os abraços? Desejo que a brevidade de cada encontro seu com alguém possa beirar a eternidade com um abraço, porque abraço não tem dia nem local ideal para acontecer, e requer apenas o encontro dos braços e dos corações a se enlaçar.

Acesse o vídeo da Campanha Free Hugs.

Deus dá asa a quem não sabe voar

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Siga o fluxo natural das coisas, pois tem muita gente querendo voar antes mesmo de criar asas. Assim como uma lagarta, vivenciamos nossa metamorfose só que em diferentes fases da vida. Logo, para uma criança aprender a andar terá que primeiramente se arrastar, engatinhar, levantar e cair diversas vezes, até tornar a sua metamorfose literalmente ambulante.

Portanto, todo casulo é para ser vivido, enfrentado e compreendido como um PROCESSO NATURAL que irá nos preparar para vencermos futuros obstáculos. Nesse sentido, veja como a natureza é sábia ao nos ensinar que toda preparação se dá de dentro para fora, sendo o nosso “casulo” o processo necessário e temporário de maturação para a nossa transformação.

Porém, saiba que, não será milagre, sorte ou o Red Bull que irá lhe dar asas. Até porque, Deus só dá asas a quem não sabe voar. Ou seja, cabe a nós o mérito do APRENDIZADO. Desta forma, caso você queira realmente voar (crescer), pare de reclamar das dificuldades e aproveite as oportunidades contidas nos momentos de reclusão e introspecção, para gerar reflexão, autoconhecimento e planejamento dos seus próximos voos.

Para tanto, entenda que os “casulos” são naturais e inevitáveis ao longo da nossa existência, mas a revolta e as desistências são opcionais. Desse modo, se você focar na dor e no problema, certamente estará propenso ao sofrimento e ao fracasso. Porém, se o seu foco estiver voltado para a lição e a solução, a tendência será a EVOLUÇÃO e a PROSPERIDADE. Assim sendo, consequentemente, a chave para uma vida bem sucedida é saber lidar e tirar o melhor proveito de cada PROCESSO.

Posto isto, compreenda que você só dará voos altos, ao se preparar e fortalecer fisicamente e mentalmente para tornar-se uma borboleta. Por isso, supere a sua metamorfose, pois quando nos tornamos borboletas, servimos de inspiração para muitas lagartas que estão presas em seus casulos existenciais.

A nudez dos preconceitos: O que aprendemos e evoluímos entre STDS e SPS?

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Diante de tantos redesenhos, mudanças de gestões e governos, o Laboratório de Inclusão sobrevive e resiste, nesses 28 anos, enfrentando o seu maior vilão: o preconceito. Este texto foi escrito e publicado em 2011, com o título original, “A nudez dos preconceitos. ‘O João está lá, com um bando de cegos e aleijados’”. Agora republicamos, como outra reflexão, de memórias e conquistas, em um momento de crise política e ideológica no Brasil.

Os estudos referentes às origens e consequências dos preconceitos humanos reforçam a ideia de uma sociedade doente, incoerente, desigual, violenta e preconceituosa. Pensando na diversidade dos preconceitos, desde o deficientismo, racismo, xenofobia, homofobia… Observa-se que as expressões humanas vêm dos próprios sentimentos, das sensações, das atitudes, das escolhas, dos modelos criados e propagados ao longo da nossa História.

O preconceito se estabelece como forma de sentimento ou prática rotineira. Pessoas preconceituosas têm a convicção de que as pessoas com deficiência são espécie inferiorizada. Entre ser inferiorizada e ser inferior existe uma diferença de interpretação e significado, mas consequências das desigualdades sociais. Pelo preconceito, as pessoas com deficiência devem ser tratadas como inferiores e inferiorizadas. Este tratamento, promovido pelo sentimento do preconceito, retrata uma condição de comportamento de não aceitar as diferenças como características humanas, ou a aceitação dos modelos pré-estabelecidos de ser humano perfeito. As teorias de perfeição já causaram grandes estragos na humanidade. O modelo de ser humano perfeito envolve um corpo perfeito, beleza facial, que podem também serem anexados a outras exigências como as condições financeiras ou status social.

A vulgarização da dita perfeição humana, como apoio de sustentação dos preconceitos, torna possível a teoria de que a sociedade precisa de mais equilíbrio do que de perfeição. Promovemos a inclusão de uma pessoa com deficiência pelo equilíbrio, pelo combate às desigualdades sociais, às deturpações de valores. É o equilíbrio que pode promover a aceitação das diferenças humanas como essenciais evolução e não a perfeição.

Com a formação do Grupo de estudos e Apoio à Acessibilidade Humana, em 2004, não foi difícil detectar os focos de preconceitos dentro e fora da ex-Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social – STDS (atual Secretaria de Proteção Social, Justiça, Mulheres e Direitos Humanos – SPS). Ficou claro também, nas avaliações das pesquisas, que nenhuma pessoa observada e entrevistada admitiu ter preconceito, mas nas atitudes do dia a dia não tiveram dificuldades de expressar essa ação.

As expressões humanas envolvem também a dualidade de atitudes. Quando deparamos com atitudes de preconceito, essa dualidade é claramente visível. Em 28 anos estudando e combatendo preconceitos, muitos exemplos de atitudes preconceituosas foram colhidas pelo Laboratório e serviram de material de estudos. Um dos casos mais famosos aconteceu em 2007. Em uma das reuniões do Grupo de Acessibilidade foram convidados alguns gestores para participarem de uma discussão sobre empregabilidade de pessoas com deficiência. Marcamos a reunião com um mês de antecedência, com horário de início para às 13h. Esperamos até 14:30h e nenhum dos convidados apareceu. Resolvemos ligar para saber o motivo das ausências, quando uma das secretárias comunicou que os gestores estavam em um evento muito importante. Reclamei que deveriam ter avisado e que muita gente estava esperando aquela reunião, pessoas com todas as deficiências e tiveram dificuldades de se deslocar até a Secretaria. Foi quando a secretária, que displicentemente não tampou a entrada de voz do telefone, proferiu a seguinte frase: “O João está lá, com um bando de cegos e aleijados”. Aproveitamos o momento da reunião e a ausência dos gestores e colocamos a referida frase como objeto de estudos do Grupo de Acessibilidade.

Passaram-se sete anos desde o lançamento do Projeto de Acessibilidade em 2004, que antecedeu a criação do Laboratório de Inclusão da STDS (atual SPS). Todas as deficiências foram incluídas, em todas as funções, como previa o Projeto de Inclusão Qualitativa. Assistimos a uma apresentação de balé de cadeiras de rodas. Foi emocionante ver aquelas meninas em suas cadeiras de rodas em cenas fortes de dedicação, arte e superação. No trabalho de inclusão de pessoas com deficiência é essencial conservar e evoluir o nível de emoções dos sentimentos de simplicidade e generosidade. Naquele momento, novamente, escutamos a voz dos preconceitos: “Onde tu vê dança e arte nestas meninas aleijadas?” vindas de uma das pessoas estudadas e observadas pelo Laboratório de Inclusão, desde 2004. Mesmo com tantos momentos ricos de vivências, cursos de conscientização, apresentações, seminários e o convívio com trabalhadores com suas diferenças, não foi possível mudar aquela pessoa e tantas outras que continuam expressando em suas palavras e ações a violência dos preconceitos. Surge então a pergunta: Preconceito tem cura?

Em destaque, para reflexão, a relação de algumas frases pronunciadas no período de implantação do projeto de Inclusão Qualitativa, que serviram para diagnosticar focos de resistência à inclusão de pessoas com deficiência: “Você está louco em colocar uma estudante de serviço social cega para estagiar! Como ela vai fazer estudo de caso ou visita domiciliar?”; “Além de cego, é aleijado!”; “Como colocar um lesado para trabalhar na cozinha?”; “Como você vai conseguir trabalhar com velhos, mijados, cagados e fedorentos?”; “Ainda bem que aquela cadeirante é bonitinha.”; “Minha filha não é deficiente, é inteligente.”; “Estes deficientes só chegaram para atrapalhar.”; “Mande apenas pessoas com deficiência leve. Não pode ser cadeirante, cego, surdo… Temos que cumprir a cota”.

Quando eu chegava com o Grupo de Acessibilidade, das apresentações externas, alguém comentava: “Lá vem o aleijado com os aleijados dele”. Todos os autores destas frases foram identificados para serem estudados pelo Laboratório de Inclusão.

Lembro das palavras da ex-deputada e Juíza Denise Frossard, em 2006, ao rejeitar o projeto de lei que considera crime discriminar deficientes físicos: “A deformidade física fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana.”

O enfrentamento e o convívio com o preconceito, por parte das pessoas com deficiência, envolve um nível de aceitação e consciência de acordo com as memórias de cada um. Como somos diferentes, temos formas de expressões e reações diferentes. Alguns pontos se tornam essenciais ao enfrentamento dos preconceitos humanos: 1. Assumir a própria deficiência sem medo e vergonha. 2. Entender que a deficiência do preconceito é bem maior e pior que a sua. 3. A deficiência ou diferença é uma característica humana. 4. A aceitação de si mesmo deve ser mais forte do que o preconceito. 5. Não permita que as pessoas com preconceito impeçam você de viver. A vida é sua e você deve vivê-la com dignidade e liberdade.

Por uma pessoa ter uma deficiência não significa não ser preconceituosa. A característica de ser preconceituosa está ligada à condição do próprio comportamento, do que aprendeu como valores sociais, dentro de sua trajetória de vida. Uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, pode ser racista mesmo sem poder enxergar a cor da pele de uma outra pessoa, basta saber que aquela pessoa é negra para expressar sua condição de racista. Qualquer tipo de deficiência ou diferença pode se incorporar à uma condição de ser preconceituoso.

No processo de inclusão das pessoas com deficiência identificamos dois pontos que podem ajudar e organizar as estratégias de combate aos preconceitos, na sustentabilidade de projetos, seus parceiros e seus adversários. 1. O preconceito cresce ou se expande quando deixamos ele se expressar sem contestação. 2. Quando identificamos oficialmente o foco ou as pessoas com preconceito, ele se retrai ou se torna vulnerável.

Em um dos encontros do Grupo de Acessibilidade, foi feito uma pergunta aos participantes, todos com um tipo de deficiência: “Você é capaz de identificar nominalmente as pessoas que lhe tratam com preconceito, dentro da família, entre os amigos, na escola ou faculdade e no ambiente de trabalho?” A resposta um unânime “sim”. Tudo fica mais compreensível quando sentimos na própria pele.

A neutralização dos focos de preconceito não identifica a sua eliminação, por que é temporário, como um silêncio aparente. Muitas pessoas estudadas e pesquisadas pelo Laboratório de Inclusão tiveram vergonha de admitir serem preconceituosas, mas tiveram facilidades em expressar o preconceito, através de atitudes de indiferença e exclusão. Acham “bonitinhas” as pessoas com Síndrome Down, ou sentem pena. Outro dia incluímos um trabalhador com Síndrome de Down como auxiliar de lanchonete. Ele fazia entregas nas salas. Uma funcionária comentou com a equipe do Laboratório: “Achei lindo aquele menino com Síndrome de Down fazendo entregas nas salas”. Perguntei se ela aceitaria um adolescente com a mesma síndrome como estagiário em seu setor. Foi quando ela respondeu com rapidez: “Vixe, lá na nossa sala? É complicado, não temos tempo de acompanhar, acho melhor você procurar outro setor…”

Passei três anos me comunicando profissionalmente com uma gestora de outra secretaria por telefone. Ela sempre me tratava bem, tirando dúvidas, facilitando os trabalhos. Mas, um dia, participamos de uma mesma reunião e ela me viu andando com as sequelas de poliomielite. A partir daquele momento ela passou a me tratar com indiferença, às vezes com grosserias ou irritabilidade.

É preciso entender o que se passa na mente, no sentimento da pessoa que pratica o preconceito. As pessoas observadas pelo Laboratório, com verbalizações a atitudes de preconceito, foram relacionadas e são acompanhadas e avaliadas como objetos de estudos na elaboração de estratégias de combate aos preconceitos. Constatamos que elas não mantêm um bom relacionamento interpessoal, nem no ambiente profissional nem no familiar. Relatamos que elas expressam arrogância e autossuficiência, agressividade nas palavras e, dependendo das características e nível dos sentimentos, podem ser agressivas fisicamente, o que é mais comum na homofobia.

O Laboratório de Inclusão é rotulado pelas interpretações externas, com uma carga forte de preconceitos, por representar os níveis inversos do padrão exigido de “perfeição” humana. Estas interpretações atingem, muitas vezes, alguns projetos que poderiam ter um tempo de resultados bem mais curto. O preconceito velado, que se esconde por trás do artificialismo do comportamento, carrega uma disfuncionalidade capaz de retardar a evolução de muitos projetos, danificando, irreversivelmente, destinos humanos.

Nos estudos do Laboratório verificamos a diversidade dos preconceitos. Uma pessoa é submetida a várias avaliações: O formato de seu corpo, a maneira de andar, o tom da voz, a textura da pele, o tipo de cabelo, a fisionomia do rosto, a maneira de se vestir, a maneira com que fala, se perdeu algum sentido (visão, audição, mobilidade, cognitivo)… são as existências do padrão do ser humano perfeito. A valorização da aparência ou mobilidade de um corpo humano reflete as simbologias criadas como modelos de perfeição.

Ter preconceito é também uma característica humana neste modelo de sociedade que vivemos, como também ter uma deficiência. Como são opostos, ter uma deficiência não impede nem o homem nem o mundo de evoluírem, mas o preconceito retarda a evolução da vida, como elemento destruidor e desnecessário. Assim, dentro da ideia do surgimento e desenvolvimento de um novo modelo de sociedade, poderiam considerar “deficiências humanas” apenas de comportamentos preconceituosos e violentos.

Na inclusão de pessoas com deficiência avaliamos as pessoas com preconceito em três categorias: Aqueles que assumem abertamente ser preconceituosos; Aqueles que não assumem ser preconceituosas, mas expressam com facilidades ter preconceito; Aqueles que têm pena de quem tem deficiência, mas mantém a convicção de que eles são inferiores.

Ser preconceituoso pode até não ter cura, em alguns casos, mesmo com a ajuda da ciência, mas temos que pensar em outro tipo de ser humano, de sociedade, começando por nós mesmos, multiplicando a ideia de um mundo onde a diversidade humana possa conviver em harmonia. Isto vai ser possível um dia? É bom começar não tendo medo de enfrentar os vilões que mantêm as invisibilidades humanas…

XV Inclusão sem Censura “Aborto legal: Um debate acerca da (des)criminalização”

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Promovido pelo Laboratório de Inclusão, da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) do Governo do Estado do Ceará, o XV Inclusão sem Censura traz, nesta edição, a temática “Aborto legal: O direito de quem? Um debate acerca da (des)criminalização”. O evento acontecerá no dia 14 de novembro, a partir das 13h30, no Auditório Professor Valnir Chagas (FACED – UFC).
 
Realizado semestralmente pelo Grupo de Informação e Consciência Humana do Laboratório de Inclusão, o Inclusão sem Censura é um evento organizado e promovido por estudantes universitários e estagiários da STDS de diversos cursos, tendo como proposta gerar debates acerca de temas sociais e políticos de interesse público.
 
A escolha do tema surge a partir da recente conjuntura sociopolítica em nosso país, a exemplo do Projeto de Lei nº 882/2015, do deputado federal Jean Wyllys e ainda pendente de deliberação, que estabelece as políticas públicas no âmbito da saúde sexual e dos direitos reprodutivos. Além do Brasil, os árduos debates e manifestações contrárias e a favor da legalização do aborto vêm ocorrendo a nível internacional, como na Argentina e Polônia.
 
Tendo em vista haver um número considerável de países onde o procedimento é permitido, em contraste a muitos outros, em que se observa proibição completa ou parcial, a legalização do aborto traz diferentes concepções sobre o conceito de vida; de ser ou não uma questão de saúde pública; do papel do Estado; a força do movimento feminista; as influências religiosas; as divergências culturais; os valores morais; os fatores socioeconômicos; a eficácia dos métodos contraceptivos; a prática clandestina do aborto; a objeção de consciência médica; a educação sexual e reprodutiva, dentre outros aspectos relevantes para o debate sobre a legalização do aborto.
Para compor a mesa e debater o tema “Aborto Legal: O direito de quem? Um debate acerca da (des)criminalização”, convidamos:
Kylianne Monteiro, mediadora do XV Inclusão sem Censura. É graduanda em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará; Integrante do Grupo de Informação e Consciência Humana e estagiária do Laboratório de Inclusão;
Ana Maria D’Ávila Lopes, bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, Mestre  e Doutora em Direito Constitucional pela Universidade Federal de Minas Gerais. Pós-doutora sobre os direitos humanos das minorias e das pessoas em situação de vulnerabilidade. É professora titular do Programa de Pós-graduação em Direito Constitucional (Mestrado/Doutorado) da Universidade de Fortaleza – UNIFOR.; e
Liduina de Albuquerque Rocha, Médica obstetra formada pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, com experiência em residência na Maternidade Escola Assis Chateaubriand e mestranda em Saúde da Mulher pela Universidade Federal do Ceará; Presidenta da Sociedade Cearense de Ginecologia e Obstetrícia e também Presidenta do Comitê Estadual de Prevenção à Morte Materna, Fetal e Infantil do Estado do Ceará.
 
Ressaltamos que, para a construção de um espaço democrático, é necessário desenvolvermos um diálogo pautado no respeito à diversidade de ideias. Este entendimento à opinião do outro favorece um modelo de sociedade mais gentil e harmonioso, pois a democracia sobrevive a partir da convivência entre às diferenças.
 
As inscrições são gratuitas, online e presencialmente, no início do evento. Será emitido certificado de participação do evento, com carga de três horas.
 
 
Programação
13h30 – Inscrições e credenciamentos
14h00 – Abertura e apresentação
Mesa Redonda: “Aborto legal: O direito de quem? Um debate acerca da (des)criminalização?”
Mediador: Kylianne Monteiro, graduanda em serviço social e estagiária do Laboratório de Inclusão.
Palestrantes: Ana Maria D’Ávila, professora universitária, doutora em Direito Constitucional e pós-doutora em Direitos Humanos; e Liduina de Albuquerque Rocha, médica ginecologista-obstetra e presidenta do Comitê Estadual de Prevenção à Morte Materna, Fetal e Infantil do Estado do Ceará.
15h45 – Debate com as perguntas do público
16h30 – Encerramento
 
 
SERVIÇO
XV Inclusão sem Censura: Aborto legal: O direito de quem? Um debate acerca da (des)criminalização
Quando: 14 de novembro de 2018, quarta-feira, às 13h30
Onde: Auditório Professor Valnir Chagas (FACED – UFC, Benfica, Rua Marechal Deodoro, em frente ao CLEC)
Mais informações: (85) 3101-4583 ou 3101-2123 ou labdeinclusao@gmail.com
Evento gratuito com emissão de certificado (carga horária: 3h).
Inscrições online e presencialmente, no início do evento.
 
Obs.: As inscrições presenciais estarão sujeitas à disponibilidade das inscrições online e da capacidade do auditório.

“Voltem para a Alemanha e façam com que isso não aconteça de novo!”

por Yanelvis Duret
intercambista alemã da UFC e estagiária do Laboratório de Inclusão

campo concentração

O fascismo está tomando conta de largas camadas da população brasileira. Ao escutar pessoas defender posições racistas, homofóbicas, sexistas e expressar um sentimento de superioridade, sinto uma grande indignação.

Depois de visitar três campos de concentração na Polônia, na França e na Alemanha e ter me jurado que o terceiro seria o último, considero mais importante do que nunca relembrar e relatar minhas experiências nessas “viagens” que mudaram minha percepção do papel que eu quero desenvolver na sociedade e me ajudaram na construção da minha identidade.

No ano de 2007 fiz uma viagem de estudos com o grupo da igreja da minha comunidade, onde eu era voluntária, para a cidade Auschwitz, na Polônia, onde se encontra o campo de concentração nazista mais conhecido. Nesse campo de concentração morreram mais de um milhão de pessoas, 90% deles judeus.

Eu tinha feito 17 anos e conhecia o passado da Alemanha, pelo menos sabia o que tinha aprendido nas aulas de História, porém, nunca antes tinha parado para pensar e refletir sobre o fato de que o fascismo tinha matado milhões de pessoas sistematicamente.

A viagem começou com uma visita no campo de concentração de Auschwitz, onde nós tivemos a possibilidade de ver os alojamentos e as câmeras de gás. Assim que entrei nesse lugar, eu senti a morte e a dor no ar. Segundo o guia explicava os métodos de extermínio, como as pessoas eram asfixiada, crianças utilizadas para experimentos médicos cruéis e macabros, resultava quase impossível para eu conter as lágrimas. Perto daquele campo de concentração, se encontrava Birkenau, também conhecido como Auschwitz II. Quando os judeus chegavam na Polônia, trazidos de todas partes da Europa, Birkenau era a primeira estação. Andando pelo campo, chegamos num lago. A terra estava molhada e mole, cheia de minúsculas pedras brancas. Nesse momento, o guia explicou que naquele ano tinha chovido tanto que a terra havia se movido. Aquelas partículas brancas eram resquícios das cinzas dos corpos cremados que os nazistas jogavam no lago. Esse chão, de repente, ganhou uma outra simbologia; eu senti que andava sobre cadáveres, senti vergonha. Pela primeira vez senti raiva e vergonha da humanidade.

Durante aqueles 7 dias me invadiu uma tristeza inexplicável. Eu não conseguia entender como o ódio, o preconceito e a supremacia podiam chegar ao extremo de realmente “acabar com uma ‘raça‘”.

O clímax da viagem foi o encontro com uma das pessoas que marcaram a minha vida: Kasimiersz Smoleń, aquele, então, um dos últimos sobreviventes do Holocausto, falecido em 2012. Kasimiersz Smoleń havia sido prisioneiro político de Auschwitz por formar parte da resistência polonesa. Numa roda de conversa, tivemos a oportunidade de escutar seu ponto de vista e lhe fazer perguntas. Ele afirmou que não sentia nem ódio nem rancor e à pergunta sobre a nossa responsabilidade como jovens alemães e o que nós poderíamos fazer, ele respondeu que a nossa responsabilidade era não repetir a história. “Voltem para a Alemanha e façam com que isso não aconteça de novo“, ele disse. Eu recebi essas palavras como as palavras de um profeta. Eu, que até então tinha me sentido cubana, membro importante da sociedade alemã sim, mas sempre cubana, pela primeira vez me senti alemã. Imediatamente, eu absorvi a culpa do passado e assumi a responsabilidade do presente, de fazer parte de uma geração de alemães que lutam para não permitir que a história se repita de jeito nenhum.

Já na Alemanha, dediquei grande parte do meu tempo como estudante ao trabalho contra o racismo e a discriminação, trabalhando com a comunidade judia e reforçando a memória do passado alemão.

Além de Auschwitz, visitei mais dois campos de concentração: Natzweiler, na França e Buchenwald, no leste da Alemanha.

Depois de ver montanhas de cabelos humanos, usados para fazer tapetes, as câmeras onde as pessoas eram asfixiadas, os fornos onde seus corpos eram cremados. Depois de ver as cinzas de homens, mulheres e crianças que foram mortos por causa da sua religião, sua identidade racial ou cultural, por causa de uma deficiência o sua orientação sexual e política e passar literalmente os restos dessas pessoas, entendi finalmente os trechos do poema Fuga da morte de Paul Celan: “Cavamos um túmulo nos ares, lá não se jaz apertado”.

Eu entendi que fascismo mata, extermina. E me comprometi como cubana, alemã e cidadã do mundo que sou, a denunciar e combater os atos e ideais que violentam a dignidade humana, não só na Alemanha, mas em qualquer lugar que for necessário.