Afinal, o que podemos tirar do Dia do Abraço?

por Sofia Guimarães
estagiária de psicologia do Laboratório de Inclusão

Dia do abraço editado

Neste mês, tivemos no dia 22 de maio (quarta-feira) uma data conhecida por muitos como o “Dia do Abraço”. Esse destaque no calendário se deu após um australiano chamado Juan Mann iniciar, nos primórdios dos anos 2000, uma campanha com o título de Free Hugs (“Abraços Gratuitos”), escrito em um cartaz que levava consigo pelas ruas de Sidney, na Austrália. Percorrendo os espaços públicos, Juan carregava o cartaz a fim de sensibilizar os desconhecidos transeuntes à troca de abraços, de forma neutra e genuína, contemplando recusas e correspondências que surgiam dos mesmos. Nesse fluxo, o movimento foi ganhando forma internacionalmente, e os crescentes abraços gratuitos que tinham como fundo de seu cenário as avenidas, praças, shoppings e demais locais públicos, avançaram nessa missão de sensibilização e incentivo ao encontro afetuoso com o outro.

De fato, a proposta chama a atenção social para a relevância de um abraço, e vem nos lembrar que se trata de um gesto, às vezes, esquecido ou menosprezado – embora seja bom para o que abraça e o que é abraçado. Todavia, a ação de um abraço não deve se restringir à data de 22 de maio, e sim abrir a reflexão de como nos comportamos quanto a isso nos outros 364 dias do ano. Em um abraço, eu uno o(s) meu(s) braço(s) ao(s) seu(s), e assim nossos corpos se aproximam e um sentimento nos sela. Em um abraço, cabe um mundo de significados, que eu mesmo coloco e o outro completa e cria o sentido por trás: uma palavra, um desejo, uma intenção, uma energia, um agradecimento, (…). E tem mais! Quer algo mais simbólico da inclusão que ele? O abraço inclui, junta. Ele tem em seu toque físico (se feito com a concessão dos envolvidos, vale ressaltar) um quê terapêutico, possibilitando superação de diferenças, acolhimento, alívio de alguma tensão ou dor presente, e uma aproximação corporal que contribui à relação, qualquer que seja ela.

Para você, que talvez tenha experienciado muitos ou poucos abraços, que esse texto sirva como um ponto de luz a direcionar a reflexão: o que você tem feito com os abraços? Desejo que a brevidade de cada encontro seu com alguém possa beirar a eternidade com um abraço, porque abraço não tem dia nem local ideal para acontecer, e requer apenas o encontro dos braços e dos corações a se enlaçar.

Acesse o vídeo da Campanha Free Hugs.

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Quem de fato motiva os seus atos?

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Coitado de quem se sente motivado pelo estímulo alheio, pois a exemplo dessa charge, encontramos mais pessoas negativas a nos desanimar, do que positivas a nos incentivar. E não se trata necessariamente, de inveja ou maldade, muitas vezes são pessoas pessimistas que se compreendem realistas.

Acontece que toda realidade é relativa. O que não dá certo para alguns, pode dar certo para outros. Logo, só saberemos se os nossos sonhos serão alcançados, tentando. Por isso, mantenha seus ouvidos blindados e a sua mente positiva – alinhada com o seu propósito de vida – pois, corroboro com a frase que diz: “Nem todos que tentaram, conseguiram, mas todos que conseguiram, tentaram”.

Acredite em você e faça acontecer. Se o sonho é seu, seja você mesmo, o seu maior incentivador. Até porque, os motivos que impulsionam as suas ações têm que fazer sentido para sua vida e não na de quem opina. Não dê aos outros o poder de determinarem o seu destino, pois as consequências e os arrependimentos futuros são de responsabilidade sua. Depois não adiantará apontar culpados, porque o tempo passou, mas as escolhas e decisões estiveram sempre em suas mãos.

Eu particularmente, sinto-me triplamente motivado. Pois, estou tão certo e alinhado com meus propósitos e motivos, que quando alguém me diz que vou alcança-los, eu confirmo e agradeço o incentivo. Mas quando me dizem que não dará certo, eu discordo e o futuro provará o contrário. Ou seja, sou tão otimista que as críticas tornam-se construtivas e viram igualmente combustível para o meu caminhar.

Nesse sentido, seja por incentivo ou desafio, dê mais ouvido aos seus instintos. Afinal, como sempre tenho dito, a vida é muito curta para ser desperdiçada.

Deus dá asa a quem não sabe voar

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Siga o fluxo natural das coisas, pois tem muita gente querendo voar antes mesmo de criar asas. Assim como uma lagarta, vivenciamos nossa metamorfose só que em diferentes fases da vida. Logo, para uma criança aprender a andar terá que primeiramente se arrastar, engatinhar, levantar e cair diversas vezes, até tornar a sua metamorfose literalmente ambulante.

Portanto, todo casulo é para ser vivido, enfrentado e compreendido como um PROCESSO NATURAL que irá nos preparar para vencermos futuros obstáculos. Nesse sentido, veja como a natureza é sábia ao nos ensinar que toda preparação se dá de dentro para fora, sendo o nosso “casulo” o processo necessário e temporário de maturação para a nossa transformação.

Porém, saiba que, não será milagre, sorte ou o Red Bull que irá lhe dar asas. Até porque, Deus só dá asas a quem não sabe voar. Ou seja, cabe a nós o mérito do APRENDIZADO. Desta forma, caso você queira realmente voar (crescer), pare de reclamar das dificuldades e aproveite as oportunidades contidas nos momentos de reclusão e introspecção, para gerar reflexão, autoconhecimento e planejamento dos seus próximos voos.

Para tanto, entenda que os “casulos” são naturais e inevitáveis ao longo da nossa existência, mas a revolta e as desistências são opcionais. Desse modo, se você focar na dor e no problema, certamente estará propenso ao sofrimento e ao fracasso. Porém, se o seu foco estiver voltado para a lição e a solução, a tendência será a EVOLUÇÃO e a PROSPERIDADE. Assim sendo, consequentemente, a chave para uma vida bem sucedida é saber lidar e tirar o melhor proveito de cada PROCESSO.

Posto isto, compreenda que você só dará voos altos, ao se preparar e fortalecer fisicamente e mentalmente para tornar-se uma borboleta. Por isso, supere a sua metamorfose, pois quando nos tornamos borboletas, servimos de inspiração para muitas lagartas que estão presas em seus casulos existenciais.

Conhece-te a ti mesmo

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Sempre pergunto aos meus clientes, se ao longo de suas trajetórias, eles têm deixado mais portas abertas ou fechadas? Assim como, se tem construído mais relacionamentos de mãos estendidas ou mãos a lhes puxar os pés? Faz-se importante refletirmos que, somos seres de relações e, quanto mais bem quistos formos, melhor será a nossa jornada.

Até porque, a vida dá voltas e, por vezes, poderemos ter que voltar ao ponto de partida. Logo, nada melhor do que encontrarmos as portas abertas dos locais pelos quais já passamos. Da mesma forma, convivemos com pessoas, sendo melhor construir amigos, pois estes são mais efetivos do que um currículo, quando lhe indicam e vendem com paixão.

Porém, o que mais vejo hoje em dia, são pessoas forçando sua demissão, para se beneficiar em curto prazo, de uma mísera indenização. No entanto, se esquecem de enxergar a longo prazo, o prejuízo que constroem sobre a própria imagem. Sendo, a meu ver, a reputação, um bem maior e irrefutável. Não obstante, também me deparo, com muitas reclamações a respeito das relações interpessoais, em que colecionamos mais inimigos, contribuindo desse modo para um péssimo clima organizacional.

Por isso, reflita do que você tem se cercado ao longo da sua vida. Qual é o seu legado? Sua ausência é do tipo que é notada e faz falta ou é indiferente e traz alivio? Lembre-se, amizade (network) é algo tão importante que, como compôs Roberto Carlos, quem não gostaria de ter 1 milhão de amigos? Afinal, você já imaginou, se tivesse 1 milhão de amigos e, ao passar por uma extrema necessidade, resolvesse pedir para cada um, apenas 1 real? Quanto você teria na sua conta ao final do dia? Até porque, ninguém lhe negaria essa mixaria.

Posto isto, puxe menos cadeiras ou tapetes, e ajude ao próximo a manter-se em pé. Pois acredito piamente, que a semeadura é livre, mas a colheita é certa. Nesse sentido, plante mais amor para colher gentilezas e reciprocidades. Torne-se um ser humano melhor e amplie seu Network – pois bons e vastos relacionamentos são os maiores ATIVOS que uma pessoa pode ter.

Vença suas resistências

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Recentemente fiz uma viagem para uma pousada no Maranhão que fica próximo aos lençóis maranhenses. A viagem reuniu a família e me permitiu novas vivências como a de deitar numa rede dentro da lagoa. Embora pareça uma atividade simples, o que de fato é – mesmo para um tetraplégico – me fez refletir, o quanto o simples pode se tornar complexo, quando a gente não se permite. Vencida a resistência, pude aproveitar uma experiência nova e prazerosa, mas que não se torna possível para todo mundo, por um aspecto muito mais psicológico do que físico.

Imaginei quantas pessoas não conseguem aproveitar a vida por não arriscarem ou se permitirem ousar. Alguns por medo, outros por não acreditarem nas possibilidades, outros por não enxergarem as oportunidades. Eu mesmo lembro de uma época em que tinha a chance de sair e viajar, mas não queria. Algum tempo depois, passei a querer, mas temporariamente, já não podia. Isto me fez refletir sobre o aproveitamento do tempo e uma frase que diz: “Cavalo selado só passa uma vez”.

Caso você desconheça este ditado, ele se refere às oportunidades que você desperdiça e que por vezes não voltam mais. Mesmo que outros “cavalos” possam passar, nunca mais serão os mesmos no sentido tempo espacial. No entanto, o que há de mal nisso? Não é dito que cada um deve respeitar o seu tempo? De fato, nem sempre nos sentimos preparados. Mas, a questão é: “Será que precisamos realmente estar prontos para assumirmos as rédeas da nossa existência? Até que ponto é ausência de preparo ou excesso de insegurança?

Recebo frequentemente no meu escritório, pessoas que me procuram para auxiliá-los no alcance de suas metas. Embora quem esteja de fora, possa somar e facilitar o percurso, ao trazer um novo olhar para a construção de novas estratégias, o processo de coaching, não se trata, simplesmente, de uma entrega de resultados desejados. Mais do que entregar um fim, trata-se de se desenvolver um meio. Ou seja, gerar autonomia no cliente, para que ele se torne capaz de encarar, enfrentar e alcançar novos objetivos. Logo, o processo não é apenas de obtenção, mas sim, de transformação do sujeito para que ele possa se sentir apto para montar qualquer “cavalo”.

Não é raro eu me deparar com clientes altamente competentes, mas travados em seus resultados, por desacreditarem do próprio potencial. Inseguros, estão sempre a se preparar num processo sem fim. Não há nada de mal, em se querer ser mais e melhor. Trata-se de uma insatisfação positiva, pois conhecimento nunca é demais. No entanto, espero que as suas inseguranças não sejam determinantes nas suas tomadas de decisões, pois, ainda que eu concorde, que as oportunidades favoreçam os mais preparados, em muitos casos, a limitação atitudinal, impossibilita bem menos do que as barreiras psicológicas, estando na cabeça e na força de vontade o poder de toda capacidade.

Nesse sentido, posso montar inúmeros “cavalos”, sem que para isso, já seja preciso saber trotar, cavalgar ou correr. Literalmente falando, sentar sobre um cavalo e sair andando, não requer tanta habilidade, só “um pouco” de coragem para dar-se início ao aprendizado – praticando. Até mesmo porque, o que de fato limita as nossas ações são as nossas decisões.

Sei que não existe caminho fácil ou rápido, pois entre o plantar e colher, vem o regar e esperar. Porém, siga em frente, porque o tempo passará do mesmo jeito e, muitas vezes, quando ficamos presos ao que não podemos fazer, deixamos de fazer o que podemos. Logo, se você não pode ou não sabe correr, simplesmente ande, uma vez que o mais importante é darmos o primeiro passo em direção aos nossos sonhos. Por fim, seja andando, correndo, dirigindo ou voando, em comum, todos alcançarão o mesmo fim, embora que em tempos diferentes. Só evitemos ficar parados, pois a vida é muito curta para ser desperdiçada.

Posto isto, esteja sempre aberto a dar o primeiro passo. Não sei lhe dizer se “quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha”, mas aprendi ao longo da vida, que em muitos casos, a ordem não muda os fatores. Devemos nos permitir e arriscar mais para aproveitar as oportunidades que nos aparecem na vida, pois, de fato, algumas não voltam mais. E, embora eu compactue com o ditado que diz: “nunca é tarde para recomeçar” ou “antes tarde do que nunca”, acredito igualmente que, “quanto antes, melhor”.

Enfim, acredito que tudo parta do nosso processo de autoconhecimento. Porque quem sabe quem é e o que quer, saberá o que fazer para alcançar seus objetivos. Desse modo, imagino, que o que você vai obter em 2019, será diretamente proporcional ao que você vai ser e fazer ao longo do ano. Porém, peço que reflita, que a sua vida depende muito mais do seu poder de escolha e decisão. Logo, permita-se. Diga sim as oportunidades, mesmo antes de estar 100% preparado, pois, na maioria dos casos, aproveitamos e aprendemos bem mais experimentando.

A nudez dos preconceitos: O que aprendemos e evoluímos entre STDS e SPS?

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Diante de tantos redesenhos, mudanças de gestões e governos, o Laboratório de Inclusão sobrevive e resiste, nesses 28 anos, enfrentando o seu maior vilão: o preconceito. Este texto foi escrito e publicado em 2011, com o título original, “A nudez dos preconceitos. ‘O João está lá, com um bando de cegos e aleijados’”. Agora republicamos, como outra reflexão, de memórias e conquistas, em um momento de crise política e ideológica no Brasil.

Os estudos referentes às origens e consequências dos preconceitos humanos reforçam a ideia de uma sociedade doente, incoerente, desigual, violenta e preconceituosa. Pensando na diversidade dos preconceitos, desde o deficientismo, racismo, xenofobia, homofobia… Observa-se que as expressões humanas vêm dos próprios sentimentos, das sensações, das atitudes, das escolhas, dos modelos criados e propagados ao longo da nossa História.

O preconceito se estabelece como forma de sentimento ou prática rotineira. Pessoas preconceituosas têm a convicção de que as pessoas com deficiência são espécie inferiorizada. Entre ser inferiorizada e ser inferior existe uma diferença de interpretação e significado, mas consequências das desigualdades sociais. Pelo preconceito, as pessoas com deficiência devem ser tratadas como inferiores e inferiorizadas. Este tratamento, promovido pelo sentimento do preconceito, retrata uma condição de comportamento de não aceitar as diferenças como características humanas, ou a aceitação dos modelos pré-estabelecidos de ser humano perfeito. As teorias de perfeição já causaram grandes estragos na humanidade. O modelo de ser humano perfeito envolve um corpo perfeito, beleza facial, que podem também serem anexados a outras exigências como as condições financeiras ou status social.

A vulgarização da dita perfeição humana, como apoio de sustentação dos preconceitos, torna possível a teoria de que a sociedade precisa de mais equilíbrio do que de perfeição. Promovemos a inclusão de uma pessoa com deficiência pelo equilíbrio, pelo combate às desigualdades sociais, às deturpações de valores. É o equilíbrio que pode promover a aceitação das diferenças humanas como essenciais evolução e não a perfeição.

Com a formação do Grupo de estudos e Apoio à Acessibilidade Humana, em 2004, não foi difícil detectar os focos de preconceitos dentro e fora da ex-Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social – STDS (atual Secretaria de Proteção Social, Justiça, Mulheres e Direitos Humanos – SPS). Ficou claro também, nas avaliações das pesquisas, que nenhuma pessoa observada e entrevistada admitiu ter preconceito, mas nas atitudes do dia a dia não tiveram dificuldades de expressar essa ação.

As expressões humanas envolvem também a dualidade de atitudes. Quando deparamos com atitudes de preconceito, essa dualidade é claramente visível. Em 28 anos estudando e combatendo preconceitos, muitos exemplos de atitudes preconceituosas foram colhidas pelo Laboratório e serviram de material de estudos. Um dos casos mais famosos aconteceu em 2007. Em uma das reuniões do Grupo de Acessibilidade foram convidados alguns gestores para participarem de uma discussão sobre empregabilidade de pessoas com deficiência. Marcamos a reunião com um mês de antecedência, com horário de início para às 13h. Esperamos até 14:30h e nenhum dos convidados apareceu. Resolvemos ligar para saber o motivo das ausências, quando uma das secretárias comunicou que os gestores estavam em um evento muito importante. Reclamei que deveriam ter avisado e que muita gente estava esperando aquela reunião, pessoas com todas as deficiências e tiveram dificuldades de se deslocar até a Secretaria. Foi quando a secretária, que displicentemente não tampou a entrada de voz do telefone, proferiu a seguinte frase: “O João está lá, com um bando de cegos e aleijados”. Aproveitamos o momento da reunião e a ausência dos gestores e colocamos a referida frase como objeto de estudos do Grupo de Acessibilidade.

Passaram-se sete anos desde o lançamento do Projeto de Acessibilidade em 2004, que antecedeu a criação do Laboratório de Inclusão da STDS (atual SPS). Todas as deficiências foram incluídas, em todas as funções, como previa o Projeto de Inclusão Qualitativa. Assistimos a uma apresentação de balé de cadeiras de rodas. Foi emocionante ver aquelas meninas em suas cadeiras de rodas em cenas fortes de dedicação, arte e superação. No trabalho de inclusão de pessoas com deficiência é essencial conservar e evoluir o nível de emoções dos sentimentos de simplicidade e generosidade. Naquele momento, novamente, escutamos a voz dos preconceitos: “Onde tu vê dança e arte nestas meninas aleijadas?” vindas de uma das pessoas estudadas e observadas pelo Laboratório de Inclusão, desde 2004. Mesmo com tantos momentos ricos de vivências, cursos de conscientização, apresentações, seminários e o convívio com trabalhadores com suas diferenças, não foi possível mudar aquela pessoa e tantas outras que continuam expressando em suas palavras e ações a violência dos preconceitos. Surge então a pergunta: Preconceito tem cura?

Em destaque, para reflexão, a relação de algumas frases pronunciadas no período de implantação do projeto de Inclusão Qualitativa, que serviram para diagnosticar focos de resistência à inclusão de pessoas com deficiência: “Você está louco em colocar uma estudante de serviço social cega para estagiar! Como ela vai fazer estudo de caso ou visita domiciliar?”; “Além de cego, é aleijado!”; “Como colocar um lesado para trabalhar na cozinha?”; “Como você vai conseguir trabalhar com velhos, mijados, cagados e fedorentos?”; “Ainda bem que aquela cadeirante é bonitinha.”; “Minha filha não é deficiente, é inteligente.”; “Estes deficientes só chegaram para atrapalhar.”; “Mande apenas pessoas com deficiência leve. Não pode ser cadeirante, cego, surdo… Temos que cumprir a cota”.

Quando eu chegava com o Grupo de Acessibilidade, das apresentações externas, alguém comentava: “Lá vem o aleijado com os aleijados dele”. Todos os autores destas frases foram identificados para serem estudados pelo Laboratório de Inclusão.

Lembro das palavras da ex-deputada e Juíza Denise Frossard, em 2006, ao rejeitar o projeto de lei que considera crime discriminar deficientes físicos: “A deformidade física fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana.”

O enfrentamento e o convívio com o preconceito, por parte das pessoas com deficiência, envolve um nível de aceitação e consciência de acordo com as memórias de cada um. Como somos diferentes, temos formas de expressões e reações diferentes. Alguns pontos se tornam essenciais ao enfrentamento dos preconceitos humanos: 1. Assumir a própria deficiência sem medo e vergonha. 2. Entender que a deficiência do preconceito é bem maior e pior que a sua. 3. A deficiência ou diferença é uma característica humana. 4. A aceitação de si mesmo deve ser mais forte do que o preconceito. 5. Não permita que as pessoas com preconceito impeçam você de viver. A vida é sua e você deve vivê-la com dignidade e liberdade.

Por uma pessoa ter uma deficiência não significa não ser preconceituosa. A característica de ser preconceituosa está ligada à condição do próprio comportamento, do que aprendeu como valores sociais, dentro de sua trajetória de vida. Uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, pode ser racista mesmo sem poder enxergar a cor da pele de uma outra pessoa, basta saber que aquela pessoa é negra para expressar sua condição de racista. Qualquer tipo de deficiência ou diferença pode se incorporar à uma condição de ser preconceituoso.

No processo de inclusão das pessoas com deficiência identificamos dois pontos que podem ajudar e organizar as estratégias de combate aos preconceitos, na sustentabilidade de projetos, seus parceiros e seus adversários. 1. O preconceito cresce ou se expande quando deixamos ele se expressar sem contestação. 2. Quando identificamos oficialmente o foco ou as pessoas com preconceito, ele se retrai ou se torna vulnerável.

Em um dos encontros do Grupo de Acessibilidade, foi feito uma pergunta aos participantes, todos com um tipo de deficiência: “Você é capaz de identificar nominalmente as pessoas que lhe tratam com preconceito, dentro da família, entre os amigos, na escola ou faculdade e no ambiente de trabalho?” A resposta um unânime “sim”. Tudo fica mais compreensível quando sentimos na própria pele.

A neutralização dos focos de preconceito não identifica a sua eliminação, por que é temporário, como um silêncio aparente. Muitas pessoas estudadas e pesquisadas pelo Laboratório de Inclusão tiveram vergonha de admitir serem preconceituosas, mas tiveram facilidades em expressar o preconceito, através de atitudes de indiferença e exclusão. Acham “bonitinhas” as pessoas com Síndrome Down, ou sentem pena. Outro dia incluímos um trabalhador com Síndrome de Down como auxiliar de lanchonete. Ele fazia entregas nas salas. Uma funcionária comentou com a equipe do Laboratório: “Achei lindo aquele menino com Síndrome de Down fazendo entregas nas salas”. Perguntei se ela aceitaria um adolescente com a mesma síndrome como estagiário em seu setor. Foi quando ela respondeu com rapidez: “Vixe, lá na nossa sala? É complicado, não temos tempo de acompanhar, acho melhor você procurar outro setor…”

Passei três anos me comunicando profissionalmente com uma gestora de outra secretaria por telefone. Ela sempre me tratava bem, tirando dúvidas, facilitando os trabalhos. Mas, um dia, participamos de uma mesma reunião e ela me viu andando com as sequelas de poliomielite. A partir daquele momento ela passou a me tratar com indiferença, às vezes com grosserias ou irritabilidade.

É preciso entender o que se passa na mente, no sentimento da pessoa que pratica o preconceito. As pessoas observadas pelo Laboratório, com verbalizações a atitudes de preconceito, foram relacionadas e são acompanhadas e avaliadas como objetos de estudos na elaboração de estratégias de combate aos preconceitos. Constatamos que elas não mantêm um bom relacionamento interpessoal, nem no ambiente profissional nem no familiar. Relatamos que elas expressam arrogância e autossuficiência, agressividade nas palavras e, dependendo das características e nível dos sentimentos, podem ser agressivas fisicamente, o que é mais comum na homofobia.

O Laboratório de Inclusão é rotulado pelas interpretações externas, com uma carga forte de preconceitos, por representar os níveis inversos do padrão exigido de “perfeição” humana. Estas interpretações atingem, muitas vezes, alguns projetos que poderiam ter um tempo de resultados bem mais curto. O preconceito velado, que se esconde por trás do artificialismo do comportamento, carrega uma disfuncionalidade capaz de retardar a evolução de muitos projetos, danificando, irreversivelmente, destinos humanos.

Nos estudos do Laboratório verificamos a diversidade dos preconceitos. Uma pessoa é submetida a várias avaliações: O formato de seu corpo, a maneira de andar, o tom da voz, a textura da pele, o tipo de cabelo, a fisionomia do rosto, a maneira de se vestir, a maneira com que fala, se perdeu algum sentido (visão, audição, mobilidade, cognitivo)… são as existências do padrão do ser humano perfeito. A valorização da aparência ou mobilidade de um corpo humano reflete as simbologias criadas como modelos de perfeição.

Ter preconceito é também uma característica humana neste modelo de sociedade que vivemos, como também ter uma deficiência. Como são opostos, ter uma deficiência não impede nem o homem nem o mundo de evoluírem, mas o preconceito retarda a evolução da vida, como elemento destruidor e desnecessário. Assim, dentro da ideia do surgimento e desenvolvimento de um novo modelo de sociedade, poderiam considerar “deficiências humanas” apenas de comportamentos preconceituosos e violentos.

Na inclusão de pessoas com deficiência avaliamos as pessoas com preconceito em três categorias: Aqueles que assumem abertamente ser preconceituosos; Aqueles que não assumem ser preconceituosas, mas expressam com facilidades ter preconceito; Aqueles que têm pena de quem tem deficiência, mas mantém a convicção de que eles são inferiores.

Ser preconceituoso pode até não ter cura, em alguns casos, mesmo com a ajuda da ciência, mas temos que pensar em outro tipo de ser humano, de sociedade, começando por nós mesmos, multiplicando a ideia de um mundo onde a diversidade humana possa conviver em harmonia. Isto vai ser possível um dia? É bom começar não tendo medo de enfrentar os vilões que mantêm as invisibilidades humanas…

Aprendendo com as adversidades

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Os obstáculos presentes nas crises, quedas, perdas, dores, relacionamentos e demais adversidades, não são nossos adversários ou inimigos, como imaginamos, pelo contrário, são as fases ou estágios necessários para colocarmos em prática os nossos aprendizados. Afinal, se formos pensar nas competências de um líder, como vamos obter resiliência, sem nunca ter encarado ou enfrentado uma dificuldade? Como ter paciência, sem se deparar com o que ou quem nos inquiete? Como saber se você é persistente, sem nunca ter escutado um não ou encontrado uma porta fechada?

As nossas competências só são adquiridas ou fortalecidas diante dos desafios. Logo, mude a sua visão e a atitude de reclamar das dificuldades e encare-as como uma oportunidade para se desenvolver e aperfeiçoar. Quando mudamos a nossa forma de ver a vida, a vida muda de forma. O que era pesado, torna-se mais leve. O que antes gerava pesadelo, torna-se aventura.

A medida que vamos vencendo nossos medos e obstáculos, nos tornamos autoconfiantes e mais preparados para darmos os próximos passos. A vida assemelha-se a um jogo de vídeo game, em que ao passarmos de fase, tornamo-nos mais hábeis.

Viver é um eterno desafio e aprendizado, muito mais prático, do que teórico. Assim como numa escola, estamos sempre aprendendo. Porém, na escola, estudamos para fazer uma prova, já na vida, passamos por inúmeras provas, para tirarmos alguns aprendizados. Tudo vai depender de como você enxerga a situação, se é com um olhar de aprendizado ou de revolta e reclamação.

Independentemente ao que se viva, o seu olhar irá refletir nos resultados da sua vida. Assim, como na história dos irmãos gêmeos que tinham um pai alcoólatra. Ao crescerem, um manteve hábitos saudáveis e tornou-se empresário, o outro era viciado e virou mendigo. Até que um dia, ambos foram perguntados sobre o que os levou as suas respectivas condições de vida, no que responderam: “Foi o meu pai que me deu mau exemplo”.

Ou seja, embora os dois tivessem o mesmo sangue, o mesmo pai, a mesma cara, idade e educação, assim como, os mesmos exemplos e problemas, ambos tiraram aprendizados completamente diferentes. Um escolheu ser vítima das circunstâncias, o outro exemplo de superação e de possibilidades diante das adversidades.

Enfim, trajetórias que se divergem baseadas no modo de enxergarem e conduzirem suas vidas. Logo, reflita, como você tem conduzido a sua vida? Abandone suas desculpas e justificativas, encontrando uma solução para os seus problemas.

No link a seguir, seguem fotos minhas de uma viagem, em que superei várias barreiras físicas: https://www.instagram.com/p/Bsf4odMBbBP/