Ter ou manter: Eis a questão.

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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No universo das fábulas, conta-se a história da lebre e da tartaruga que nos faz refletir sobre o tempo e a relação entre intensidade versus consistência. Prestes a disputarem uma corrida, o coelho vangloriava-se da sua velocidade e a tartaruga confiava-se na sua resistência. Dada a partida, a lebre dispara na frente rapidamente e a tartaruga sai lentamente em direção a meta a ser alcançada (o ponto de chegada).

No meio do percurso, como a lebre mantinha vasta vantagem, resolveu parar para descansar. Porém, acabou dormindo e a tartaruga mesmo com seus passos lentos, recuperou a distância e ultrapassou a linha de chegada à sua frente. Como lição de moral, fica a reflexão de que: “Devagar se vai ao longe”.

Lógico que, se a disputa fosse num percurso curto de 100 metros, a tartaruga não teria a menor chance. No entanto, como o trajeto era longo, venceu a resistência e o foco. Assim acontece na nossa existência. Afinal, a vida não é uma corrida de 100 metros, mas sim, uma maratona que exige de nós muita consistência para não desistirmos do que nos propomos a Fazer.

Agora, a questão é: Quem de fato eu quero e devo ser para alcançar meus objetivos? Rápido e intenso como a lebre, ou confiante e consistente como a tartaruga? Bem, creio que não exista uma única resposta, porque podemos ser um mix de competências, respeitando nossas características e diferenças. Porém, tenho notado cada vez mais, que a consistência tem levado vantagem diante da intensidade, pois, recebo diariamente, clientes que relatam inúmeras e intensas tentativas sobre algo que é abandonado antes de ser alcançado.

Por isso, entendo que, rápido ou devagar, o importante mesmo é iniciar e realizar o seu objetivo – com persistência. Pois, mais relevante do que ter iniciativa, é gerar “acabativas”. Dar começo, meio e fim aos nossos projetos de vida. Para tanto, devemos começar o trajeto de qualquer jeito, sem desculpas ou justificativas, pois todos que se propuserem a caminhar numa mesma direção, uma hora chegarão ao mesmo lugar, ainda que em tempos diferentes. Logo, acredito, que mais interessante do que alcançar uma meta, é conseguir manter-se nela.

Nesse sentido, seguir em ritmo excessivamente acelerado, pode nos roubar a oportunidade de olhar para o lado e aproveitar o trajeto. Assim como, a extrema lentidão, pode adiar ou aniquilar as nossas realizações. O ideal mesmo é que cada um encontre seu ritmo e equilíbrio. Posto isto, mantenha-se sempre consistente, mas reavalie constantemente, se o seu passo está de acordo com o seu prazo e executado de forma sustentável.

Até porque, de que adianta perder peso rapidamente com a “dieta da alface”, se você não conseguirá passar o resto da sua vida só comendo folhas? Logo, fazer uma reeducação alimentar, manter uma boa disciplina de exercícios e cuidar dos seus aspectos emocionais, pode sustentar melhor os seus resultados a longo prazo.

É por isso que não adianta correr tanto, porque chegar antes não é sinônimo de sustentabilidade. A vida acaba sendo como uma viagem de carro, em que o excesso de velocidade pode representar um perigo. Nesse caso, já diz o ditado: “Antes tarde do que nunca”. O melhor mesmo é diminuir o giro para não correr riscos. Ou seja, o importante é chegar vivo.

São tantos os casos, que não existe uma fórmula específica. Cada pessoa deve ajustar o seu ritmo respeitando seus aspectos biopsicossociais (corpo, mente e contexto inserido). Devemos compreender ainda, a subjetividade humana e a relatividade do tempo para dele tirar o melhor proveito. Pois, não existe um padrão ideal entre correr e se arrastar, cabendo-nos através do autoconhecimento e da análise das circunstâncias, saber a hora de acelerar e frear.

Enfim, caso você esteja cansado de recomeçar, é chegada a hora de parar de desistir. Aprenda a dar início, meio e fim aos seus projetos. Pois o tempo está passando e o seu prazo de validade acabando. Uma hora você irá olhar trás e se questionar sobre o que faltou para poder realizar seus sonhos? Logo, rápido ou devagar, respeite seu ritmo, mas não desista dos seus verdadeiros SONHOS, porque independentemente de cedo ou tarde, o mais importante será realiza-los.

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Aprendemos pelo amor ou pela dor

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Corroboro piamente com esse conceito de que podemos tirar proveito de tudo. Trata-se da sábia filosofia de se aprender pela dor ou pelo amor. Lógico que, se pudermos optar, iremos escapar do sofrimento para aprendermos pelos exemplos de acertos e erros dos outros. Porém, como nem tudo está sob o nosso controle, teremos que enfrentar inúmeros dilemas e desafios, tanto pessoais, quanto profissionais.

No entanto, vivemos numa cultura de aparências em que mascaramos nossas fraquezas e abominamos nossos fracassos – por entender que é feio errar e/ou fraquejar. Nesse sentido, as PESSOAS passam a se APRESENTAR FORTES e BEM SUCEDIDAS, mas é no refúgio dos seus lares que tendem a encarar a triste realidade de que são igualmente vulneráveis.

Por conta disso, passamos a acreditar que somos uma fraude e começamos a seguir outras personalidades que, aparentemente, também se mostram como exemplos da tal alta performance que tanto queremos alcançar. São os vulgos – Picas das Galáxias, que se dizem felizes em todos os pilares da vida, gerando, às vezes, altas expectativas que podem desencadear sérios níveis de frustração na mente de muitos dos que os seguem e não conseguem alcançar os mesmos resultados. Por isso, vivemos na Era dos empreendedores de palco, em que o produto mais vendido tem sido a ESPERANÇA.

Eu, particularmente, evito eleger padrões e modelos a serem seguidos, pois acredito que o que nos torna especiais e únicos são as nossas diferenças. Penso igualmente, que o que nos faz fortes, não são os exemplos de alta performance, mas sim, o enfrentamento dos nossos tormentos. Até porque, não existem modelos de perfeição absoluta. Posso ser um excelente exemplo de profissional, mas um péssimo pai, marido ou filho.

Portanto, pense nisso, não precisamos ser ou ter heróis a nos ajudar, basta nos concebermos simplesmente humanos e aprender a performar entre altos e baixos. Afinal, não vejo nada de mal em fraquejarmos ou fracassarmos, pelo contrário, enxergo nas derrotas, uma excelente oportunidade de aprendizado, onde passamos a ser verdadeiros exemplos, quando compreendidos como normais, sem tanto distanciamento dos demais.

Então, não queira aparentar ou se tornar algo tão fora do normal, porque o maior bem que você pode transferir para alguém – é o seu CAPITAL de EXPERIÊNCIA – que é composto por muitas vitórias, mas também inúmeras derrotas, dores, fracassos, lágrimas, fraquezas, desistências etc. Logo, compreenda, que ao nos apresentarmos plenos perante aos outros, por vezes, nós os apequenamos ou geramos a falsa expectativa de uma perfeição inalcançável.

Assim sendo, passemos uma ideia de igualdade, em vez de superioridade, para evitarmos levar a estranha sensação de inferioridade. Não dá para ser estável toda vida, uma vez que nossos dias são inconstantes e cheios de variáveis. Um dia ganho e no outro perco, mas o importante é compreender que em ambos eu aprendo.

Só com uma cultura que aceita a fraqueza e confronta o fracasso é que iremos aproveitar o verdadeiro processo de aprendizado, como um movimento concreto de transformação. Até porque, nem só de teoria vive o “homem/mulher”, temos que enfrentar nossos medos e desafios, para domarmos nossos leões internos que rugem por mudanças.

Por isso, PRATIQUE mais a sua CORAGEM e menos a sua IDOLATRIA, pois, ensinar, todos nos ensinam, sejam com exemplos louváveis ou deploráveis. Ou seja, quando alguém faz algo que admiro, eu reproduzo e copio, mas, quando fazem algo que condeno, aprendo ao não reproduzir o mesmo erro. Porém, esteja sempre atento(a) e aberto(a) ao autoconhecimento, porque tem gente que condena certos comportamentos que pratica.

Enfim, seja protagonista da sua vida. Não procure fórmulas mágicas baseadas em 7 passos. Encontre apenas soluções para os seus problemas enfrentado seus medos sem ter receio de errar, falhar ou preocupado com que os outros vão pensar. Vivemos atualmente, o maior paradigma da natureza humana. Pois, pela lógica natural da vida, nascemos para nos tornarmos independentes. No entanto, nunca estivemos tão dependentes de gurus, padrões e modelos que norteiem nossos sonhos e passos.

Lembre-se, olhe para onde todo mundo está olhando, mas enxergue o que poucos estão enxergando. Se conscientize e acredite mais em você, para aprender diariamente com a Faculdade da VIDA.

Torne-se seu amigo imaginário

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Mais do que uma lição para os outros, sejamos uma lição para nós mesmos. Pois, na maioria das vezes, somos dignos do termo: “faça o que digo, mas não faça o que faço, porque nem sempre eu pratico o que falo”.

Afinal de contas, existe um abismo enorme entre o que dizemos e o que fazemos, uma vez que assimilar a teoria é bem mais fácil do que praticá-la. No entanto, não há nada de mal nisso, desde que busquemos alcançar o que teorizamos. Logo, se eu digo: “Não procrastine porque a vida é muito curta para ser desperdiçada”, o ideal é que eu passe a tirar melhor proveito do meu tempo, em consonância ao que acredito e pronuncio.

Entretanto, seria mais correto, se agíssemos de acordo com o que dizemos. Porém, a nossa estrutura psíquica é formada por um Eu Real e um Eu Ideal. Onde o Eu Ideal é aquilo que idealizamos Ser e Ter. Já o Eu Real é o que de fato nós Somos e Temos.

No campo do imaginário, idealizo-me “perfeito e completo”. Já no campo da realidade, percebo-me “imperfeito e incompleto”. Todavia, a partir do momento em que me movimento para alcançar o meu Eu Ideal, transporto gradativamente a minha realidade ATUAL para a DESEJADA.

Ainda assim, essa “realidade” desejada, não traz nada de real e nunca será consumada, pois, segundo Lacan: “Somos seres desejantes destinados a incompletude, e é isso que nos faz caminhar”. Quer dizer, em resumo, se estamos destinados a incompletude, é sinal que nossos desejos nunca serão plenamente alcançados, porque cada sonho realizado, abre espaço para outro, inclusive o do novo eu idealizado.

Por isso, que uma roupa na vitrine de uma loja, exerce sobre nós, maior fascínio, do que dentro do nosso guarda-roupas, pois, na vitrine, trata-se do objeto desejado, já no nosso armário, torna-se o objeto consumado que, em breve, abrirá espaço para um novo desejo. O de uma roupa nova, nesse caso.

Enfim, embora tal linha de pensamento nos pareça frustrante, por tornarmo-nos eternamente incompletos, inquietos e insaciáveis, traz certa lógica, pois se já tivéssemos tudo e nos sentíssemos completos, qual seria o sentido da vida? Logo, é esse sentimento de falta, que nos faz caminhar.

Trata-se da eterna busca por saciar um vazio que só será preenchido em partes e momentaneamente. Assim como a fome, que a cada nova refeição será saciada, mas dado certo espaço de tempo, volta a se manifestar.

Desse modo, veja como a nossa natureza é sábia, pois a mesma condição (FOME) que nos gera a sensação de vazio e falta, entrega-nos diversos prazeres momentâneos e variados, uma vez que, o constante esvaziamento do estômago, nos permite igualmente sentir inúmeros prazeres obtidos através das mais variadas experiências do paladar e do alívio imediato da sensação de fome.

Nesse sentido, podemos dizer que o prazer é antecedido por um desconforto ou desprazer (dor). Ou seja, por vezes, eu preciso estar vazio, para me preencher. Eu necessito da falta para valorizar a presença. Eu careço conhecer a escuridão para agradecer a luz.

É por isso, que vivemos num continuo antagonismo existencial, em que, quando estamos solteiros, queremos namorar, mas quando namoramos, queremos ficar solteiros. Ou quando trabalhamos, necessitamos de liberdade e férias, mas quando tiramos férias prolongadas, desejamos retornar a rotina e ao trabalho.

Portanto, trabalhar demais, ou ficar muito tempo parado, geram igualmente a mesma sensação de tédio e insatisfação, nos incitando a buscar o equilíbrio através da alternância. Isto é, tudo em demasia, cansa e perde seu valor. E por sua vez, o que é escasso, torna-se valorizado.

A exemplo, se você gosta e sempre deseja comer sushi, isso provavelmente ocorre por tratar-se de uma experiência rara de final de semana, pois se você comece sushi todo dia, com o tempo ele perderia o seu valor. Logo, o que me traz felicidade e prazer não é o simples ato de COMER SUSHI, mas sim, a expectativa e possibilidade de realizar o meu desejo por hora escasso e suprimido.

Posto isto, a felicidade e a tristeza se encaixam bem mais na expectativa do que está por vir e de seus resultados positivos ou negativos. É dessa forma que devemos compreender a felicidade em nossas vidas, para que a busca por ela não se torne uma utopia, pois há quem trace como meta de vida – SER FELIZ. Porém, o que é ser feliz? Além de uma procura que nunca tem fim.

Afinal, a felicidade trata-se de um Estado ou de um Momento? Será uma condição do existir ou uma fantasia industrializada? Nós Somos ou Estamos felizes? Até porque, quando eu me concebo plenamente feliz, parece que não sobra mais espaço para a infelicidade. O Ser torna-se estático, o que não combina com uma vida cíclica, em que tudo gira. Uma existência cuja experiência e aprendizado envolvem erros e acertos, alegrias e tristezas, perdas e ganhos etc.

Desse modo, não há felicidade ou tristeza que perdure para sempre, uma vez que tudo passa, inclusive a nossa existência. Não posso ser 100% feliz, se vivo na eminência do que pode me deixar triste e fazer sofrer, cujo luto faz parte do meu processo evolutivo de aprendizagem.

Também não posso transferir a minha felicidade a algo ou alguém, pois a capacidade que uma pessoa tem de me fazer feliz com um elogio, é a mesma de me deixar triste segundos depois após uma crítica ou ofensa. Assim acontece também com algo que amo, em que a felicidade ou tristeza vai depender da intensidade e das circunstâncias.

A exemplo, sou um amante de pizzas, mas quando vou a um rodízio, vivencio sensações distintas. A experiência inicial é divina, ao sentir o cheiro e visualizar o queijo derretido escorrendo sobre meu prato quando o primeiro pedaço é servido. A primeira garfada é mágica, pois une a minha fome, com a vontade de comer. O MOMENTO é de extremo prazer e em questões de segundos sinto-me plenamente feliz e realizado.

O prato logo abre espaço para um novo pedaço, que embora ainda seja muito prazeroso, já não se compara ao primeiro. Meia hora depois, já vou na minha décima quinta fatia, mas a sensação agora é de empacho. Sinto-me pesado, arrependido e triste por ter comido tantos pedaços. Nessa hora lembro-me da frase de que devo ter o olho maior do que a barriga. “Desabotoo” a calça com dificuldade e sigo passando “mal” para casa, com a sensação de que engordei uns dez quilos.

Em pouco tempo chego à conclusão, de que não é a pizza que me faz feliz, mas sim, alguns MILÉSIMOS de SEGUNDOS em que se dá o encontro da minha fome com o que aprecio comer.

Diante disso, compreenda e se conscientize sobre a DINÂMICA da VIDA, para não sofrer com falsas expectativas. Entenda a FELICIDADE como um MOMENTO, que pode ser tão PEQUENO, que se você não estiver ATENTO, passa DESAPERCEBIDO.

Não transfira sua felicidade a nada ou ninguém, para não tornar-se suscetível das circunstâncias externas. Até porque, os momentos felizes só são percebidos por quem está atento e compreende que o prazer está contido nos detalhes e entrelinhas de uma experiência.

Enfim, compreenda a dinâmica da vida estando a cada instante mais consciente de si mesmo. Pois, segundo Carl Jung: “Não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a sua escuridão”.

Por isso não se engane, porque até a felicidade constante, torna-se enfadonha e desinteressante para o seu crescimento. Nesse sentido, seja feliz e triste a todo momento, porque o estático pressupõe o fim do seu tempo.

Convívio com a diversidade humana dentro da SPS

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão da SPS

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São 28 anos incluindo pessoas com deficiência, negros e afrodescendentes, homoafetivos e vulnerabilidades sociais, dentro deste espaço funcional, antes Febemce, SAS, SETAS, STDS e agora SPS – Muitas derrotas, muitas vitórias, mas a certeza de ter tentado transformar vidas humanas excluídas, em destinos humanos dignos de direito. Uma luta que parece não ter fim, porque os preconceitos não dão trégua, como se a vida tivesse de ser uma eterna luta entre o bem e o mal. Entre consciência humana e ódio as minorias. Entre regressão e evolução dos relacionamentos humanos.

Republico um texto escrito em 2015 para uma reflexão: Evoluímos ou regredimos?

Em 2003 realizamos uma pesquisa, na Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) e em todas as suas unidades, onde foi constatado que um dos maiores problemas da secretaria eram os conflitos gerados pelo baixo nível dos relacionamentos interpessoais. Na prática, os preconceitos estavam presentes das gestões aos funcionários em geral; um resultado desanimador, uma vez que, na época, a meta era incluir 70 pessoas com deficiência na STDS, entre técnicos terceirizados, apoio administrativo, estudantes universitários e adolescentes em iniciação profissional. Mesmo com os resultados negativos, conseguimos ultrapassar a meta, incluindo assim mais de 100 pessoas.

Crescemos ou regredimos como público interno e como educadores sociais de uma secretaria que tem como missão “contribuir com a elevação da qualidade de vida da população cearense, sobretudo dos segmentos socialmente vulnerabilizados”? Estamos praticando políticas públicas consistentes ou trabalhando em vão? Temos que ter ciência de que sem avaliações reais não vamos conseguir fazer políticas públicas. Depois de 24 anos de vivências, inclusões, projetos, grupos de estudos e oficinas, é preocupante o aumento do nível de preconceitos praticados na STDS, perceptíveis através de relatos e avaliações de pessoas incluídas pelo Laboratório de Inclusão.

A Ouvidoria da STDS recebeu em julho uma manifestação anônima, onde a pessoa questionava o porquê de funcionários e colaboradores com deficiência ficarem isentos de registrar o ponto eletrônico. “Por que tantos privilégios para os deficientes?”, perguntaram. Não são privilégios, são direitos conquistados através da Lei da Acessibilidade (Lei 10.098) e da nova Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/15), sancionada pela presidente da República Dilma Rousseff no início do mês de julho de 2015. De acordo com a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Decreto nº 3.298/99), o respeito às limitações das pessoas com deficiência, que devem receber igualdade de oportunidades, não pode ser confundido com paternalismo ou privilégios.

Uma funcionária da STDS, ainda não identificada, aproximou-se do carro de um tetraplégico com deficiência respiratória, indagando ao seu motorista e cuidador: “Por que você parou aí entre as vagas? Não já têm as vagas para os deficientes?”. O cuidador respondeu: “Foi apenas pra ele descer, não vou estacionar, já estou saindo. A vaga para deficientes está no sol.”. Ela continuou: “Ora! Se eu posso descer no sol, por que ele não pode? Já existem as vagas marcadas pra isso.”. Seria essa uma atitude de cidadania ou de indelicadeza? “O João está lá com um bando de cegos e aleijados”, disse outra funcionária da STDS, em 2007, durante uma ligação telefônica onde a interlocutora esqueceu de tampar a entrada de voz. Um colaborador com síndrome de Down sofreu assédio moral de uma gestora, sendo necessário um ano de tratamento para ele voltar ao estado normal. Uma técnica da STDS comentou “tenho medo de entrar na sala do João, ele trabalha com uma diversidade humana muito grande”. Medo ou preconceito?

São muitos exemplos lamentáveis que, se não tivessem acontecido, estaríamos em uma posição de evolução bem maior do que a atual. A prática dos preconceitos se transforma numa grande barreira para o desenvolvimento de políticas públicas de inclusão social. É inaceitável que o trabalho do Laboratório de Inclusão tenha adversários dentro da própria STDS. É como se a inclusão social fosse uma missão contraditória e utópica.

Nesses 24 anos, mais de cinco mil pessoas foram atendidas e incluídas; temos uma memória rica de inclusão social dentro e fora da STDS. Erramos e acertamos, ultrapassamos barreiras, ajudamos a transformar vidas humanas e destinos em outras possibilidades. A STDS é a única secretaria pública do Ceará a incluir todos os tipos de deficiência em seu quadro funcional exercendo diversas atividades, desde o técnico de nível superior até o apoio às atividades auxiliares. Somos pioneiros na empregabilidade de pessoas com deficiência e doença mental.

Em 2015 já perdemos a nossa capacidade de inclusão em 65% devido os cortes sucessivos de verbas públicas, principalmente de bolsas para estágio universitário e para adolescentes do projeto Primeiro Passo, destinadas também a estudantes com deficiência e vulnerabilidade social. Muitos desses estudantes, que deixaram de ser incluídos pela STDS, dificilmente terão outra oportunidade de inclusão na vida, devido a falta de estrutura e experiência de outras entidades e empresas na condução da inclusão de pessoas com deficiência. O corte de verbas públicas atinge em cheio a inclusão social; os prejuízos são incalculáveis.

“Você está louco em colocar uma estudante de serviço social cega para estagiar? Como ela vai fazer estudo de caso ou visita domiciliar?”; “Além de negro é aleijado”; “Como colocar um lesado para trabalhar na cozinha?”; “Ainda bem que aquela cadeirante é bonitinha”; “Esses deficientes só chegaram para atrapalhar”; “Mande apenas pessoas com deficiência leve, não pode ser cadeirante, cego ou surdo. Temos apenas que cumprir a cota”; “Aquele aleijado pensa que é gente”; e “Liguei pro Laboratório de Inclusão e uma pessoa com voz de mongol atendeu” foram algumas das diversas frases pronunciadas por funcionários de variados cargos e funções da STDS, desde o período de criação do Laboratório de Inclusão. Frases como essas serviram para diagnosticar focos de resistência à inclusão de pessoas com deficiência dentro da própria STDS, Secretaria esta com atividades voltadas para a área do trabalho e do desenvolvimento social.

Questionamos diariamente sobre as possíveis formas de enfrentar os preconceitos, que se estabelecem como sentimentos ou práticas rotineiras. Pessoas preconceituosas tendem a pensar que as pessoas com deficiência são inferiorizadas. Todavia, entre ser inferiorizado e ser inferior existe uma diferença de interpretação e significado. De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a empresa deve manter em seu ordenamento interno normas sobre o tratamento a ser dispensado aos empregados com deficiência, com o objetivo de coibir e reprimir qualquer tipo de discriminação, bem como as respectivas sanções pelo descumprimento dessas normas.

Enfrentar os preconceitos não é fácil, mas os resultados são gratificantes. Várias pessoas incluídas conseguiram vencer os preconceitos e entraram no mercado de trabalho. Hoje, depois de todos esses anos de luta contra os preconceitos e pela inclusão de pessoas com deficiência e vulnerabilidade social, o Laboratório de Inclusão teve mais conquistas do que derrotas. Mas ainda existe um longo caminho pela frente pleno de superações, desafios e novas inclusões.

Ser preconceituoso pode ser algo irreparável em alguns casos, mesmo com a ajuda da ciência, mas temos que pensar em outro tipo de homem, de sociedade, começando por nós mesmos; multiplicando a ideia de um mundo onde a diversidade humana possa conviver em harmonia. Isto seria possível um dia? É bom começarmos sendo coerentes com a própria missão da STDS. Somos – ou pelo menos deveríamos ser – educadores sociais em uma sociedade desigual, desumana, violenta e preconceituosa. É possível reverter isso? O que estamos fazendo para melhorar esta sociedade que tanto condenamos ou que mundo podemos imaginar e realizar como forma de sobrevivência digna aos próximos que virão?

João Monteiro Vasconcelos
Coordenador do Laboratório de Inclusão da SPS
30/7/2015

Afinal, o que podemos tirar do Dia do Abraço?

por Sofia Guimarães
estagiária de psicologia do Laboratório de Inclusão

Dia do abraço editado

Neste mês, tivemos no dia 22 de maio (quarta-feira) uma data conhecida por muitos como o “Dia do Abraço”. Esse destaque no calendário se deu após um australiano chamado Juan Mann iniciar, nos primórdios dos anos 2000, uma campanha com o título de Free Hugs (“Abraços Gratuitos”), escrito em um cartaz que levava consigo pelas ruas de Sidney, na Austrália. Percorrendo os espaços públicos, Juan carregava o cartaz a fim de sensibilizar os desconhecidos transeuntes à troca de abraços, de forma neutra e genuína, contemplando recusas e correspondências que surgiam dos mesmos. Nesse fluxo, o movimento foi ganhando forma internacionalmente, e os crescentes abraços gratuitos que tinham como fundo de seu cenário as avenidas, praças, shoppings e demais locais públicos, avançaram nessa missão de sensibilização e incentivo ao encontro afetuoso com o outro.

De fato, a proposta chama a atenção social para a relevância de um abraço, e vem nos lembrar que se trata de um gesto, às vezes, esquecido ou menosprezado – embora seja bom para o que abraça e o que é abraçado. Todavia, a ação de um abraço não deve se restringir à data de 22 de maio, e sim abrir a reflexão de como nos comportamos quanto a isso nos outros 364 dias do ano. Em um abraço, eu uno o(s) meu(s) braço(s) ao(s) seu(s), e assim nossos corpos se aproximam e um sentimento nos sela. Em um abraço, cabe um mundo de significados, que eu mesmo coloco e o outro completa e cria o sentido por trás: uma palavra, um desejo, uma intenção, uma energia, um agradecimento, (…). E tem mais! Quer algo mais simbólico da inclusão que ele? O abraço inclui, junta. Ele tem em seu toque físico (se feito com a concessão dos envolvidos, vale ressaltar) um quê terapêutico, possibilitando superação de diferenças, acolhimento, alívio de alguma tensão ou dor presente, e uma aproximação corporal que contribui à relação, qualquer que seja ela.

Para você, que talvez tenha experienciado muitos ou poucos abraços, que esse texto sirva como um ponto de luz a direcionar a reflexão: o que você tem feito com os abraços? Desejo que a brevidade de cada encontro seu com alguém possa beirar a eternidade com um abraço, porque abraço não tem dia nem local ideal para acontecer, e requer apenas o encontro dos braços e dos corações a se enlaçar.

Acesse o vídeo da Campanha Free Hugs.

Quem de fato motiva os seus atos?

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Coitado de quem se sente motivado pelo estímulo alheio, pois a exemplo dessa charge, encontramos mais pessoas negativas a nos desanimar, do que positivas a nos incentivar. E não se trata necessariamente, de inveja ou maldade, muitas vezes são pessoas pessimistas que se compreendem realistas.

Acontece que toda realidade é relativa. O que não dá certo para alguns, pode dar certo para outros. Logo, só saberemos se os nossos sonhos serão alcançados, tentando. Por isso, mantenha seus ouvidos blindados e a sua mente positiva – alinhada com o seu propósito de vida – pois, corroboro com a frase que diz: “Nem todos que tentaram, conseguiram, mas todos que conseguiram, tentaram”.

Acredite em você e faça acontecer. Se o sonho é seu, seja você mesmo, o seu maior incentivador. Até porque, os motivos que impulsionam as suas ações têm que fazer sentido para sua vida e não na de quem opina. Não dê aos outros o poder de determinarem o seu destino, pois as consequências e os arrependimentos futuros são de responsabilidade sua. Depois não adiantará apontar culpados, porque o tempo passou, mas as escolhas e decisões estiveram sempre em suas mãos.

Eu particularmente, sinto-me triplamente motivado. Pois, estou tão certo e alinhado com meus propósitos e motivos, que quando alguém me diz que vou alcança-los, eu confirmo e agradeço o incentivo. Mas quando me dizem que não dará certo, eu discordo e o futuro provará o contrário. Ou seja, sou tão otimista que as críticas tornam-se construtivas e viram igualmente combustível para o meu caminhar.

Nesse sentido, seja por incentivo ou desafio, dê mais ouvido aos seus instintos. Afinal, como sempre tenho dito, a vida é muito curta para ser desperdiçada.

Deus dá asa a quem não sabe voar

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Siga o fluxo natural das coisas, pois tem muita gente querendo voar antes mesmo de criar asas. Assim como uma lagarta, vivenciamos nossa metamorfose só que em diferentes fases da vida. Logo, para uma criança aprender a andar terá que primeiramente se arrastar, engatinhar, levantar e cair diversas vezes, até tornar a sua metamorfose literalmente ambulante.

Portanto, todo casulo é para ser vivido, enfrentado e compreendido como um PROCESSO NATURAL que irá nos preparar para vencermos futuros obstáculos. Nesse sentido, veja como a natureza é sábia ao nos ensinar que toda preparação se dá de dentro para fora, sendo o nosso “casulo” o processo necessário e temporário de maturação para a nossa transformação.

Porém, saiba que, não será milagre, sorte ou o Red Bull que irá lhe dar asas. Até porque, Deus só dá asas a quem não sabe voar. Ou seja, cabe a nós o mérito do APRENDIZADO. Desta forma, caso você queira realmente voar (crescer), pare de reclamar das dificuldades e aproveite as oportunidades contidas nos momentos de reclusão e introspecção, para gerar reflexão, autoconhecimento e planejamento dos seus próximos voos.

Para tanto, entenda que os “casulos” são naturais e inevitáveis ao longo da nossa existência, mas a revolta e as desistências são opcionais. Desse modo, se você focar na dor e no problema, certamente estará propenso ao sofrimento e ao fracasso. Porém, se o seu foco estiver voltado para a lição e a solução, a tendência será a EVOLUÇÃO e a PROSPERIDADE. Assim sendo, consequentemente, a chave para uma vida bem sucedida é saber lidar e tirar o melhor proveito de cada PROCESSO.

Posto isto, compreenda que você só dará voos altos, ao se preparar e fortalecer fisicamente e mentalmente para tornar-se uma borboleta. Por isso, supere a sua metamorfose, pois quando nos tornamos borboletas, servimos de inspiração para muitas lagartas que estão presas em seus casulos existenciais.