Vença suas resistências

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Recentemente fiz uma viagem para uma pousada no Maranhão que fica próximo aos lençóis maranhenses. A viagem reuniu a família e me permitiu novas vivências como a de deitar numa rede dentro da lagoa. Embora pareça uma atividade simples, o que de fato é – mesmo para um tetraplégico – me fez refletir, o quanto o simples pode se tornar complexo, quando a gente não se permite. Vencida a resistência, pude aproveitar uma experiência nova e prazerosa, mas que não se torna possível para todo mundo, por um aspecto muito mais psicológico do que físico.

Imaginei quantas pessoas não conseguem aproveitar a vida por não arriscarem ou se permitirem ousar. Alguns por medo, outros por não acreditarem nas possibilidades, outros por não enxergarem as oportunidades. Eu mesmo lembro de uma época em que tinha a chance de sair e viajar, mas não queria. Algum tempo depois, passei a querer, mas temporariamente, já não podia. Isto me fez refletir sobre o aproveitamento do tempo e uma frase que diz: “Cavalo selado só passa uma vez”.

Caso você desconheça este ditado, ele se refere às oportunidades que você desperdiça e que por vezes não voltam mais. Mesmo que outros “cavalos” possam passar, nunca mais serão os mesmos no sentido tempo espacial. No entanto, o que há de mal nisso? Não é dito que cada um deve respeitar o seu tempo? De fato, nem sempre nos sentimos preparados. Mas, a questão é: “Será que precisamos realmente estar prontos para assumirmos as rédeas da nossa existência? Até que ponto é ausência de preparo ou excesso de insegurança?

Recebo frequentemente no meu escritório, pessoas que me procuram para auxiliá-los no alcance de suas metas. Embora quem esteja de fora, possa somar e facilitar o percurso, ao trazer um novo olhar para a construção de novas estratégias, o processo de coaching, não se trata, simplesmente, de uma entrega de resultados desejados. Mais do que entregar um fim, trata-se de se desenvolver um meio. Ou seja, gerar autonomia no cliente, para que ele se torne capaz de encarar, enfrentar e alcançar novos objetivos. Logo, o processo não é apenas de obtenção, mas sim, de transformação do sujeito para que ele possa se sentir apto para montar qualquer “cavalo”.

Não é raro eu me deparar com clientes altamente competentes, mas travados em seus resultados, por desacreditarem do próprio potencial. Inseguros, estão sempre a se preparar num processo sem fim. Não há nada de mal, em se querer ser mais e melhor. Trata-se de uma insatisfação positiva, pois conhecimento nunca é demais. No entanto, espero que as suas inseguranças não sejam determinantes nas suas tomadas de decisões, pois, ainda que eu concorde, que as oportunidades favoreçam os mais preparados, em muitos casos, a limitação atitudinal, impossibilita bem menos do que as barreiras psicológicas, estando na cabeça e na força de vontade o poder de toda capacidade.

Nesse sentido, posso montar inúmeros “cavalos”, sem que para isso, já seja preciso saber trotar, cavalgar ou correr. Literalmente falando, sentar sobre um cavalo e sair andando, não requer tanta habilidade, só “um pouco” de coragem para dar-se início ao aprendizado – praticando. Até mesmo porque, o que de fato limita as nossas ações são as nossas decisões.

Sei que não existe caminho fácil ou rápido, pois entre o plantar e colher, vem o regar e esperar. Porém, siga em frente, porque o tempo passará do mesmo jeito e, muitas vezes, quando ficamos presos ao que não podemos fazer, deixamos de fazer o que podemos. Logo, se você não pode ou não sabe correr, simplesmente ande, uma vez que o mais importante é darmos o primeiro passo em direção aos nossos sonhos. Por fim, seja andando, correndo, dirigindo ou voando, em comum, todos alcançarão o mesmo fim, embora que em tempos diferentes. Só evitemos ficar parados, pois a vida é muito curta para ser desperdiçada.

Posto isto, esteja sempre aberto a dar o primeiro passo. Não sei lhe dizer se “quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha”, mas aprendi ao longo da vida, que em muitos casos, a ordem não muda os fatores. Devemos nos permitir e arriscar mais para aproveitar as oportunidades que nos aparecem na vida, pois, de fato, algumas não voltam mais. E, embora eu compactue com o ditado que diz: “nunca é tarde para recomeçar” ou “antes tarde do que nunca”, acredito igualmente que, “quanto antes, melhor”.

Enfim, acredito que tudo parta do nosso processo de autoconhecimento. Porque quem sabe quem é e o que quer, saberá o que fazer para alcançar seus objetivos. Desse modo, imagino, que o que você vai obter em 2019, será diretamente proporcional ao que você vai ser e fazer ao longo do ano. Porém, peço que reflita, que a sua vida depende muito mais do seu poder de escolha e decisão. Logo, permita-se. Diga sim as oportunidades, mesmo antes de estar 100% preparado, pois, na maioria dos casos, aproveitamos e aprendemos bem mais experimentando.

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A nudez dos preconceitos: O que aprendemos e evoluímos entre STDS e SPS?

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Diante de tantos redesenhos, mudanças de gestões e governos, o Laboratório de Inclusão sobrevive e resiste, nesses 28 anos, enfrentando o seu maior vilão: o preconceito. Este texto foi escrito e publicado em 2011, com o título original, “A nudez dos preconceitos. ‘O João está lá, com um bando de cegos e aleijados’”. Agora republicamos, como outra reflexão, de memórias e conquistas, em um momento de crise política e ideológica no Brasil.

Os estudos referentes às origens e consequências dos preconceitos humanos reforçam a ideia de uma sociedade doente, incoerente, desigual, violenta e preconceituosa. Pensando na diversidade dos preconceitos, desde o deficientismo, racismo, xenofobia, homofobia… Observa-se que as expressões humanas vêm dos próprios sentimentos, das sensações, das atitudes, das escolhas, dos modelos criados e propagados ao longo da nossa História.

O preconceito se estabelece como forma de sentimento ou prática rotineira. Pessoas preconceituosas têm a convicção de que as pessoas com deficiência são espécie inferiorizada. Entre ser inferiorizada e ser inferior existe uma diferença de interpretação e significado, mas consequências das desigualdades sociais. Pelo preconceito, as pessoas com deficiência devem ser tratadas como inferiores e inferiorizadas. Este tratamento, promovido pelo sentimento do preconceito, retrata uma condição de comportamento de não aceitar as diferenças como características humanas, ou a aceitação dos modelos pré-estabelecidos de ser humano perfeito. As teorias de perfeição já causaram grandes estragos na humanidade. O modelo de ser humano perfeito envolve um corpo perfeito, beleza facial, que podem também serem anexados a outras exigências como as condições financeiras ou status social.

A vulgarização da dita perfeição humana, como apoio de sustentação dos preconceitos, torna possível a teoria de que a sociedade precisa de mais equilíbrio do que de perfeição. Promovemos a inclusão de uma pessoa com deficiência pelo equilíbrio, pelo combate às desigualdades sociais, às deturpações de valores. É o equilíbrio que pode promover a aceitação das diferenças humanas como essenciais evolução e não a perfeição.

Com a formação do Grupo de estudos e Apoio à Acessibilidade Humana, em 2004, não foi difícil detectar os focos de preconceitos dentro e fora da ex-Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social – STDS (atual Secretaria de Proteção Social, Justiça, Mulheres e Direitos Humanos – SPS). Ficou claro também, nas avaliações das pesquisas, que nenhuma pessoa observada e entrevistada admitiu ter preconceito, mas nas atitudes do dia a dia não tiveram dificuldades de expressar essa ação.

As expressões humanas envolvem também a dualidade de atitudes. Quando deparamos com atitudes de preconceito, essa dualidade é claramente visível. Em 28 anos estudando e combatendo preconceitos, muitos exemplos de atitudes preconceituosas foram colhidas pelo Laboratório e serviram de material de estudos. Um dos casos mais famosos aconteceu em 2007. Em uma das reuniões do Grupo de Acessibilidade foram convidados alguns gestores para participarem de uma discussão sobre empregabilidade de pessoas com deficiência. Marcamos a reunião com um mês de antecedência, com horário de início para às 13h. Esperamos até 14:30h e nenhum dos convidados apareceu. Resolvemos ligar para saber o motivo das ausências, quando uma das secretárias comunicou que os gestores estavam em um evento muito importante. Reclamei que deveriam ter avisado e que muita gente estava esperando aquela reunião, pessoas com todas as deficiências e tiveram dificuldades de se deslocar até a Secretaria. Foi quando a secretária, que displicentemente não tampou a entrada de voz do telefone, proferiu a seguinte frase: “O João está lá, com um bando de cegos e aleijados”. Aproveitamos o momento da reunião e a ausência dos gestores e colocamos a referida frase como objeto de estudos do Grupo de Acessibilidade.

Passaram-se sete anos desde o lançamento do Projeto de Acessibilidade em 2004, que antecedeu a criação do Laboratório de Inclusão da STDS (atual SPS). Todas as deficiências foram incluídas, em todas as funções, como previa o Projeto de Inclusão Qualitativa. Assistimos a uma apresentação de balé de cadeiras de rodas. Foi emocionante ver aquelas meninas em suas cadeiras de rodas em cenas fortes de dedicação, arte e superação. No trabalho de inclusão de pessoas com deficiência é essencial conservar e evoluir o nível de emoções dos sentimentos de simplicidade e generosidade. Naquele momento, novamente, escutamos a voz dos preconceitos: “Onde tu vê dança e arte nestas meninas aleijadas?” vindas de uma das pessoas estudadas e observadas pelo Laboratório de Inclusão, desde 2004. Mesmo com tantos momentos ricos de vivências, cursos de conscientização, apresentações, seminários e o convívio com trabalhadores com suas diferenças, não foi possível mudar aquela pessoa e tantas outras que continuam expressando em suas palavras e ações a violência dos preconceitos. Surge então a pergunta: Preconceito tem cura?

Em destaque, para reflexão, a relação de algumas frases pronunciadas no período de implantação do projeto de Inclusão Qualitativa, que serviram para diagnosticar focos de resistência à inclusão de pessoas com deficiência: “Você está louco em colocar uma estudante de serviço social cega para estagiar! Como ela vai fazer estudo de caso ou visita domiciliar?”; “Além de cego, é aleijado!”; “Como colocar um lesado para trabalhar na cozinha?”; “Como você vai conseguir trabalhar com velhos, mijados, cagados e fedorentos?”; “Ainda bem que aquela cadeirante é bonitinha.”; “Minha filha não é deficiente, é inteligente.”; “Estes deficientes só chegaram para atrapalhar.”; “Mande apenas pessoas com deficiência leve. Não pode ser cadeirante, cego, surdo… Temos que cumprir a cota”.

Quando eu chegava com o Grupo de Acessibilidade, das apresentações externas, alguém comentava: “Lá vem o aleijado com os aleijados dele”. Todos os autores destas frases foram identificados para serem estudados pelo Laboratório de Inclusão.

Lembro das palavras da ex-deputada e Juíza Denise Frossard, em 2006, ao rejeitar o projeto de lei que considera crime discriminar deficientes físicos: “A deformidade física fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana.”

O enfrentamento e o convívio com o preconceito, por parte das pessoas com deficiência, envolve um nível de aceitação e consciência de acordo com as memórias de cada um. Como somos diferentes, temos formas de expressões e reações diferentes. Alguns pontos se tornam essenciais ao enfrentamento dos preconceitos humanos: 1. Assumir a própria deficiência sem medo e vergonha. 2. Entender que a deficiência do preconceito é bem maior e pior que a sua. 3. A deficiência ou diferença é uma característica humana. 4. A aceitação de si mesmo deve ser mais forte do que o preconceito. 5. Não permita que as pessoas com preconceito impeçam você de viver. A vida é sua e você deve vivê-la com dignidade e liberdade.

Por uma pessoa ter uma deficiência não significa não ser preconceituosa. A característica de ser preconceituosa está ligada à condição do próprio comportamento, do que aprendeu como valores sociais, dentro de sua trajetória de vida. Uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, pode ser racista mesmo sem poder enxergar a cor da pele de uma outra pessoa, basta saber que aquela pessoa é negra para expressar sua condição de racista. Qualquer tipo de deficiência ou diferença pode se incorporar à uma condição de ser preconceituoso.

No processo de inclusão das pessoas com deficiência identificamos dois pontos que podem ajudar e organizar as estratégias de combate aos preconceitos, na sustentabilidade de projetos, seus parceiros e seus adversários. 1. O preconceito cresce ou se expande quando deixamos ele se expressar sem contestação. 2. Quando identificamos oficialmente o foco ou as pessoas com preconceito, ele se retrai ou se torna vulnerável.

Em um dos encontros do Grupo de Acessibilidade, foi feito uma pergunta aos participantes, todos com um tipo de deficiência: “Você é capaz de identificar nominalmente as pessoas que lhe tratam com preconceito, dentro da família, entre os amigos, na escola ou faculdade e no ambiente de trabalho?” A resposta um unânime “sim”. Tudo fica mais compreensível quando sentimos na própria pele.

A neutralização dos focos de preconceito não identifica a sua eliminação, por que é temporário, como um silêncio aparente. Muitas pessoas estudadas e pesquisadas pelo Laboratório de Inclusão tiveram vergonha de admitir serem preconceituosas, mas tiveram facilidades em expressar o preconceito, através de atitudes de indiferença e exclusão. Acham “bonitinhas” as pessoas com Síndrome Down, ou sentem pena. Outro dia incluímos um trabalhador com Síndrome de Down como auxiliar de lanchonete. Ele fazia entregas nas salas. Uma funcionária comentou com a equipe do Laboratório: “Achei lindo aquele menino com Síndrome de Down fazendo entregas nas salas”. Perguntei se ela aceitaria um adolescente com a mesma síndrome como estagiário em seu setor. Foi quando ela respondeu com rapidez: “Vixe, lá na nossa sala? É complicado, não temos tempo de acompanhar, acho melhor você procurar outro setor…”

Passei três anos me comunicando profissionalmente com uma gestora de outra secretaria por telefone. Ela sempre me tratava bem, tirando dúvidas, facilitando os trabalhos. Mas, um dia, participamos de uma mesma reunião e ela me viu andando com as sequelas de poliomielite. A partir daquele momento ela passou a me tratar com indiferença, às vezes com grosserias ou irritabilidade.

É preciso entender o que se passa na mente, no sentimento da pessoa que pratica o preconceito. As pessoas observadas pelo Laboratório, com verbalizações a atitudes de preconceito, foram relacionadas e são acompanhadas e avaliadas como objetos de estudos na elaboração de estratégias de combate aos preconceitos. Constatamos que elas não mantêm um bom relacionamento interpessoal, nem no ambiente profissional nem no familiar. Relatamos que elas expressam arrogância e autossuficiência, agressividade nas palavras e, dependendo das características e nível dos sentimentos, podem ser agressivas fisicamente, o que é mais comum na homofobia.

O Laboratório de Inclusão é rotulado pelas interpretações externas, com uma carga forte de preconceitos, por representar os níveis inversos do padrão exigido de “perfeição” humana. Estas interpretações atingem, muitas vezes, alguns projetos que poderiam ter um tempo de resultados bem mais curto. O preconceito velado, que se esconde por trás do artificialismo do comportamento, carrega uma disfuncionalidade capaz de retardar a evolução de muitos projetos, danificando, irreversivelmente, destinos humanos.

Nos estudos do Laboratório verificamos a diversidade dos preconceitos. Uma pessoa é submetida a várias avaliações: O formato de seu corpo, a maneira de andar, o tom da voz, a textura da pele, o tipo de cabelo, a fisionomia do rosto, a maneira de se vestir, a maneira com que fala, se perdeu algum sentido (visão, audição, mobilidade, cognitivo)… são as existências do padrão do ser humano perfeito. A valorização da aparência ou mobilidade de um corpo humano reflete as simbologias criadas como modelos de perfeição.

Ter preconceito é também uma característica humana neste modelo de sociedade que vivemos, como também ter uma deficiência. Como são opostos, ter uma deficiência não impede nem o homem nem o mundo de evoluírem, mas o preconceito retarda a evolução da vida, como elemento destruidor e desnecessário. Assim, dentro da ideia do surgimento e desenvolvimento de um novo modelo de sociedade, poderiam considerar “deficiências humanas” apenas de comportamentos preconceituosos e violentos.

Na inclusão de pessoas com deficiência avaliamos as pessoas com preconceito em três categorias: Aqueles que assumem abertamente ser preconceituosos; Aqueles que não assumem ser preconceituosas, mas expressam com facilidades ter preconceito; Aqueles que têm pena de quem tem deficiência, mas mantém a convicção de que eles são inferiores.

Ser preconceituoso pode até não ter cura, em alguns casos, mesmo com a ajuda da ciência, mas temos que pensar em outro tipo de ser humano, de sociedade, começando por nós mesmos, multiplicando a ideia de um mundo onde a diversidade humana possa conviver em harmonia. Isto vai ser possível um dia? É bom começar não tendo medo de enfrentar os vilões que mantêm as invisibilidades humanas…

Aprendendo com as adversidades

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Os obstáculos presentes nas crises, quedas, perdas, dores, relacionamentos e demais adversidades, não são nossos adversários ou inimigos, como imaginamos, pelo contrário, são as fases ou estágios necessários para colocarmos em prática os nossos aprendizados. Afinal, se formos pensar nas competências de um líder, como vamos obter resiliência, sem nunca ter encarado ou enfrentado uma dificuldade? Como ter paciência, sem se deparar com o que ou quem nos inquiete? Como saber se você é persistente, sem nunca ter escutado um não ou encontrado uma porta fechada?

As nossas competências só são adquiridas ou fortalecidas diante dos desafios. Logo, mude a sua visão e a atitude de reclamar das dificuldades e encare-as como uma oportunidade para se desenvolver e aperfeiçoar. Quando mudamos a nossa forma de ver a vida, a vida muda de forma. O que era pesado, torna-se mais leve. O que antes gerava pesadelo, torna-se aventura.

A medida que vamos vencendo nossos medos e obstáculos, nos tornamos autoconfiantes e mais preparados para darmos os próximos passos. A vida assemelha-se a um jogo de vídeo game, em que ao passarmos de fase, tornamo-nos mais hábeis.

Viver é um eterno desafio e aprendizado, muito mais prático, do que teórico. Assim como numa escola, estamos sempre aprendendo. Porém, na escola, estudamos para fazer uma prova, já na vida, passamos por inúmeras provas, para tirarmos alguns aprendizados. Tudo vai depender de como você enxerga a situação, se é com um olhar de aprendizado ou de revolta e reclamação.

Independentemente ao que se viva, o seu olhar irá refletir nos resultados da sua vida. Assim, como na história dos irmãos gêmeos que tinham um pai alcoólatra. Ao crescerem, um manteve hábitos saudáveis e tornou-se empresário, o outro era viciado e virou mendigo. Até que um dia, ambos foram perguntados sobre o que os levou as suas respectivas condições de vida, no que responderam: “Foi o meu pai que me deu mau exemplo”.

Ou seja, embora os dois tivessem o mesmo sangue, o mesmo pai, a mesma cara, idade e educação, assim como, os mesmos exemplos e problemas, ambos tiraram aprendizados completamente diferentes. Um escolheu ser vítima das circunstâncias, o outro exemplo de superação e de possibilidades diante das adversidades.

Enfim, trajetórias que se divergem baseadas no modo de enxergarem e conduzirem suas vidas. Logo, reflita, como você tem conduzido a sua vida? Abandone suas desculpas e justificativas, encontrando uma solução para os seus problemas.

No link a seguir, seguem fotos minhas de uma viagem, em que superei várias barreiras físicas: https://www.instagram.com/p/Bsf4odMBbBP/

Minha passagem pelo Laboratório de Inclusão da STDS

por Syssa Lopes
Ex-estagiária do Laboratório de Inclusão, licenciada em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e atual professora da rede de ensino público do município de Fortaleza.

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“Gostaria de agradecer imensamente a esta equipe MARAVILHOSA que existe há 29 anos e se constitui resistência na inclusão de pessoas, com seu processo seletivo muito sério e rigoroso. Tive a oportunidade de ser a primeira mulher trans a trabalhar no laboratório e fiquei extremamente FELIZ em saber que também entrou um homem trans.

A equipe teve toda uma preocupação, cuidado e dedicação, antes e durante a minha participação. Se atentaram ao nome social em todos os documentos e respeitaram a minha identidade de gênero. Quando houveram questionamentos de alguns setores de uma trans estar trabalhando na STDS (Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social), logo eles fizeram uma ação de combate à transfobia.

No país que mais mata pessoas trans e no Estado que é o terceiro em números de assassinatos, incluir esse público num órgão estadual é um ato de resistência. A média de vida desse público é de 36 anos contra 73 anos do restante da população, 40 por cento dos assassinatos desse público ocorrem no Brasil.

Para as pessoas trans, muitos direitos são negados, como o acesso à saúde, trabalho e educação. Então, poder mostrar a nossa capacidade é uma grande oportunidade. Do que adianta resistir à escola e universidade se não seremos aceitos no mercado de trabalho? Por isso, o Laboratório de Inclusão está de parabéns por nos abrir as portas e mostrar que é possível sim convivermos com as diversas diferenças. Só tenho mesmo o que me orgulhar e levar esta experiência por toda minha vida.

Hoje estou formada em licenciatura de Filosofia, graduanda em Letras e pós graduanda em Língua Portuguesa e Literatura. Retifiquei nome e sexo, e estou trabalhando na rede municipal de educação de Fortaleza.

Agradeço a atenção, acompanhamento, carinho e feedbacks. Vocês nos dão um grande aprendizado de liderança, sabem motivar os colaboradores e estão sempre abertos a nos ouvir. Sem mais, PARABÉNS equipe.”

 

Aprenda a se planejar

por Márcio Vaz
palestrante, psicólogo e coach

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Está chegando um Novo Ano e com ele a renovação da nossa esperança. Embora 2018 ainda não tenha terminado ou mesmo correspondido com as suas expectativas, a virada de ano representa a oportunidade de fazermos a diferença em nossas vidas por mais 365 dias.

Porém, entra ano e sai ano, sem que alguns sonhos/metas sejam realizados. E não me refiro aqui, a concluir um ano completamente realizado, pois a realização é um ideal que nunca tem FIM. Até mesmo porque, uma vida plena é sem propósito e perde o seu significado de existir. O bom mesmo é vivermos para o que nos falta, para que possamos valorizar cada nova conquista.

Assim seguimos reinventando nossos passos, para que nos levem a novos resultados. No entanto, a questão é: Por que, às vezes, é tão complicado se alcançar certos objetivos? Sejam eles: Perder peso; Arranjar um emprego; Ser reconhecido e promovido no trabalho; Realizar uma viagem dos sonhos; Manter um bom relacionamento com o cônjuge/filhos etc.

As respostas para essas dificuldades geralmente vão estar na sua mudança de hábitos. E o que devemos fazer para mudar nossos hábitos? Existem “duas formas” de gerar essas mudanças, sendo uma técnica e outra sobre forte impacto emocional.

A mudança sob Forte Impacto Emocional, não funciona como regra, mas pode acontecer ao nos depararmos com o caos. A exemplo: uma pessoa que antes dizia não ter tempo para caminhar, muda seus hábitos após infartar. Ou uma pessoa que tem dificuldade para emagrecer, começa a perder peso e malhar, ao terminar um relacionamento mal resolvido. No meu caso, mudei o meu comportamento em relação ao trabalho, após meu pai ter infartado e, ao assumir as responsabilidades de casa, descobrir que estávamos falidos.

Enfim, embora a DOR também possa ser um MOTIVADOR, o ideal mesmo é mudarmos pelo AMOR e o COMPROMETIMENTO com a nossa existência. Afinal, como sempre digo, a vida é muito curta para ser desperdiçada. Por isso, não deveríamos viver de qualquer jeito, evitando a “Síndrome Zeca Pagodinho – Deixa a vida me levar”.

Agora, ao falarmos em mudanças de hábitos em termos técnicos, existem infinitas técnicas, mas vou compartilhar a importância de iniciarmos o ano nos PLANEJANDO de forma CLARA e ESTRATÉGICA.
Antes de continuar a ler, pare e responda mentalmente esta pergunta: VOCÊ JÁ SE PLANEJOU ESTRATEGICAMENTE?

Caso a sua resposta tenha sido NÃO, saiba que você se planeja estrategicamente praticamente todo dia. A única diferença entre você e uma empresa, é que no seu caso o planejamento ocorre de modo informal e não é registrado (por escrito). Mas, comumente, você planeja algumas atividades do seu próximo dia, sejam profissionais, como fazer uma ligação ao cliente, ou pessoais, como levar o filho a uma consulta médica.

Para você compreender melhor, o que quero dizer, reflita que, quando vamos viajar, a depender da quantidade de dias, PLANEJAMOS quantas roupas iremos levar, o valor em dinheiro, qual o melhor trajeto, promoções, milhas, hotéis etc. Já o fator ESTRATÉGICO se dá, quando levamos alguns remédios, caso venhamos a adoecer; roupas de frio, caso venha a esfriar; ou qualquer nova tomada de decisão sobre algo que não saiu conforme planejado. Ou seja, podemos nos prevenir estrategicamente de possíveis ameaças, assim como, contornar os imprevistos.

No entanto, perceba que, quanto menos planejarmos ou partirmos na pressa, maior será a probabilidade de “falhar”. Logo, ao chegarmos no local de destino ou ainda no caminho, será comum dizer: “esqueci a minha carteira do plano de saúde”, “deixei o carregador do celular no quarto”, “não lembrei de trazer a minha escova de cabelo ou de dente” etc.

Posto isto, o que vou propor aqui, é um modo prático e mais assertivo de se atuar, caso você adote este simples hábito de se planejar. Tal proposta serve tanto para a vida pessoal, quanto profissional, variando só o objetivo e as estratégias. Eu uso esse modelo com meus clientes, até para preparar uma reunião ou apenas um diálogo com seu funcionário, filho/filha, esposo/esposa etc. Afinal, até uma comunicação quando planejada, torna-se mais assertiva, uma vez que tudo pode ser dito, a questão é: COMO é dito.

Em resumo, se Planejar Estrategicamente é pensar: O que? Quando? Por que? Como? Diante de um desafio. Agora vou explorar cada ponto.

PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO

O QUE?
Sempre traga de forma clara e específica O QUE você quer alcançar para poder se planejar melhor. Afinal, toda meta fica mais fácil de ser alcançada quando trabalhamos com posse dos dados e fatos. Logo, não basta traçar como meta 2019 “Quero Emagrecer”, especifique quantos quilos você quer perder. Caso queira comprar uma casa, saiba onde será, quais as dimensões, quanto custa, o valor do financiamento etc. Pois, só assim, você poderá criar o seu Plano de Ações, definindo quais serão os próximos passos a serem adotados para alcançar tais resultados. Quando nossos dados não são claros, fica mais complicado saber por onde começar.

QUANDO?
Tão importante quanto especificar uma meta é estipular um prazo, pois quando não determinamos uma data, os nossos objetivos podem ser alcançados hoje, amanhã, depois ou nunca. Por isso, sempre estabeleça se a sua Meta é de Curto, Médio ou Longo Prazo, definindo uma data para poder desmembrar e metrificar (medir) seus avanços. A exemplo, se você especificou que quer perder 10 quilos, pense agora, em quanto tempo? Caso decida por 5 meses, a sua meta passa a ser em média – 2 quilos por mês, 500 gramas por semana e 70 gramas por dia.

Caso você queira fazer uma viagem, mas o investimento de “8 mil” ainda não caiba no seu bolso. Em vez de desistir, planeje-se em médio ou longo prazo e já comece a dar os seus primeiros e pequenos passos diários. Pois, na maioria das vezes, nos assustamos com o ponto de chegada (8 mil / 10Kg) e abortamos a partida. Mas, se você planejar essa viagem para daqui a 2 anos, verá que terá que economizar “apenas” 333,00 reais pôr mês, 83,00 reais por semana e 11,00 reais por dia.

Ou seja, quando aumentamos os prazos e diluímos as metas, os nossos objetivos tornam-se mais próximos, pois você passa a se apropriar das suas ações diárias, em que talvez economizar os 11,00 reais do dia, esteja somente em diminuir a despesa com o cafezinho, o lanche da tarde etc. Ou vender um “doce” por dia para aumentar a receita. Enfim, tudo é uma questão de visão, organização, determinação, prioridade e persistência.

POR QUE?
Sempre que você criar uma meta e definir um prazo, escreva o porquê do seu objetivo, pois, acredito, que quando o seu PORQUÊ ou o POR QUEM é muito FORTE, o COMO e o DE QUE JEITO você vai alcançar a sua meta, deixa de ser um peso e passa a se tornar prioridade. Mas, lembre-se que, você deve ser honesto(a) consigo mesmo(a). Se o seu propósito for ficar RICO(A), para comprar uma Ferrari ou uma bolsa Louis Vuitton, não se preocupe com o que os outros vão pensar ou se o seu objetivo é “nobre” como o de “salvar a humanidade”. Apenas siga seus sonhos e esteja alinhado(a) com o seu propósito para que ele se torne sustentável. Para manter-se motivado, o seu porquê tem que ser forte e verdadeiro.

COMO?
O como é a parte estratégica. Está contido nos passos que você vai dar para alcançar seus objetivos. Uma vez que a sua meta está mais Clara, com Data Determinada e Validada com um Grande Porquê, ficará mais fácil você decidir de que jeito Agir e o porquê Persistir. Caso tenha optado por EMAGRECER uns 10 quilos no prazo de 5 MESES porquê quer ENTRAR no vestido de noiva, defina seus possíveis passos como: Marcar Nutricionista; Ter acompanhamento psicológico; Fazer caminhada, corrida, pilates e/ou academia; Iniciar uma reeducação alimentar sustentável; Comer mais devagar e em menos espaço de tempo etc.

O importante aqui no COMO, é evitar as desculpas e justificativas, encontrando os meios que se encaixem a sua realidade de vida. Se você for faxineira, faça da sua faxina uma academia para a queima de calorias. Se você sente dores e não pode fazer academia, faça pilates e/ou hidroterapia. Se você está sem dinheiro, faça caminhada ao ar livre e aproveite a “liseira” para manter a dispensa “limpa” (brincadeira). Na verdade, crie novos planos para melhorar a sua vida financeira.

Por fim, use a técnica do THE, que se resume em THE VIRA, pois ninguém disse que seria fácil ter os sonhos realizados. Até mesmo porque, se fosse fácil, todo mundo seria promovido, empresário, magro, rico, bonito, bem sucedido, desenrolado, autoconfiante, comunicativo etc. Nesse sentido, deixaria de existir a lei do maior esforço, em que os que se destacam da maioria – é pela meritocracia.

XV Inclusão sem Censura “Aborto legal: Um debate acerca da (des)criminalização”

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Promovido pelo Laboratório de Inclusão, da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) do Governo do Estado do Ceará, o XV Inclusão sem Censura traz, nesta edição, a temática “Aborto legal: O direito de quem? Um debate acerca da (des)criminalização”. O evento acontecerá no dia 14 de novembro, a partir das 13h30, no Auditório Professor Valnir Chagas (FACED – UFC).
 
Realizado semestralmente pelo Grupo de Informação e Consciência Humana do Laboratório de Inclusão, o Inclusão sem Censura é um evento organizado e promovido por estudantes universitários e estagiários da STDS de diversos cursos, tendo como proposta gerar debates acerca de temas sociais e políticos de interesse público.
 
A escolha do tema surge a partir da recente conjuntura sociopolítica em nosso país, a exemplo do Projeto de Lei nº 882/2015, do deputado federal Jean Wyllys e ainda pendente de deliberação, que estabelece as políticas públicas no âmbito da saúde sexual e dos direitos reprodutivos. Além do Brasil, os árduos debates e manifestações contrárias e a favor da legalização do aborto vêm ocorrendo a nível internacional, como na Argentina e Polônia.
 
Tendo em vista haver um número considerável de países onde o procedimento é permitido, em contraste a muitos outros, em que se observa proibição completa ou parcial, a legalização do aborto traz diferentes concepções sobre o conceito de vida; de ser ou não uma questão de saúde pública; do papel do Estado; a força do movimento feminista; as influências religiosas; as divergências culturais; os valores morais; os fatores socioeconômicos; a eficácia dos métodos contraceptivos; a prática clandestina do aborto; a objeção de consciência médica; a educação sexual e reprodutiva, dentre outros aspectos relevantes para o debate sobre a legalização do aborto.
Para compor a mesa e debater o tema “Aborto Legal: O direito de quem? Um debate acerca da (des)criminalização”, convidamos:
Kylianne Monteiro, mediadora do XV Inclusão sem Censura. É graduanda em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará; Integrante do Grupo de Informação e Consciência Humana e estagiária do Laboratório de Inclusão;
Ana Maria D’Ávila Lopes, bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, Mestre  e Doutora em Direito Constitucional pela Universidade Federal de Minas Gerais. Pós-doutora sobre os direitos humanos das minorias e das pessoas em situação de vulnerabilidade. É professora titular do Programa de Pós-graduação em Direito Constitucional (Mestrado/Doutorado) da Universidade de Fortaleza – UNIFOR.; e
Liduina de Albuquerque Rocha, Médica obstetra formada pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, com experiência em residência na Maternidade Escola Assis Chateaubriand e mestranda em Saúde da Mulher pela Universidade Federal do Ceará; Presidenta da Sociedade Cearense de Ginecologia e Obstetrícia e também Presidenta do Comitê Estadual de Prevenção à Morte Materna, Fetal e Infantil do Estado do Ceará.
 
Ressaltamos que, para a construção de um espaço democrático, é necessário desenvolvermos um diálogo pautado no respeito à diversidade de ideias. Este entendimento à opinião do outro favorece um modelo de sociedade mais gentil e harmonioso, pois a democracia sobrevive a partir da convivência entre às diferenças.
 
As inscrições são gratuitas, online e presencialmente, no início do evento. Será emitido certificado de participação do evento, com carga de três horas.
 
 
Programação
13h30 – Inscrições e credenciamentos
14h00 – Abertura e apresentação
Mesa Redonda: “Aborto legal: O direito de quem? Um debate acerca da (des)criminalização?”
Mediador: Kylianne Monteiro, graduanda em serviço social e estagiária do Laboratório de Inclusão.
Palestrantes: Ana Maria D’Ávila, professora universitária, doutora em Direito Constitucional e pós-doutora em Direitos Humanos; e Liduina de Albuquerque Rocha, médica ginecologista-obstetra e presidenta do Comitê Estadual de Prevenção à Morte Materna, Fetal e Infantil do Estado do Ceará.
15h45 – Debate com as perguntas do público
16h30 – Encerramento
 
 
SERVIÇO
XV Inclusão sem Censura: Aborto legal: O direito de quem? Um debate acerca da (des)criminalização
Quando: 14 de novembro de 2018, quarta-feira, às 13h30
Onde: Auditório Professor Valnir Chagas (FACED – UFC, Benfica, Rua Marechal Deodoro, em frente ao CLEC)
Mais informações: (85) 3101-4583 ou 3101-2123 ou labdeinclusao@gmail.com
Evento gratuito com emissão de certificado (carga horária: 3h).
Inscrições online e presencialmente, no início do evento.
 
Obs.: As inscrições presenciais estarão sujeitas à disponibilidade das inscrições online e da capacidade do auditório.

“Voltem para a Alemanha e façam com que isso não aconteça de novo!”

por Yanelvis Duret
intercambista alemã da UFC e estagiária do Laboratório de Inclusão

campo concentração

O fascismo está tomando conta de largas camadas da população brasileira. Ao escutar pessoas defender posições racistas, homofóbicas, sexistas e expressar um sentimento de superioridade, sinto uma grande indignação.

Depois de visitar três campos de concentração na Polônia, na França e na Alemanha e ter me jurado que o terceiro seria o último, considero mais importante do que nunca relembrar e relatar minhas experiências nessas “viagens” que mudaram minha percepção do papel que eu quero desenvolver na sociedade e me ajudaram na construção da minha identidade.

No ano de 2007 fiz uma viagem de estudos com o grupo da igreja da minha comunidade, onde eu era voluntária, para a cidade Auschwitz, na Polônia, onde se encontra o campo de concentração nazista mais conhecido. Nesse campo de concentração morreram mais de um milhão de pessoas, 90% deles judeus.

Eu tinha feito 17 anos e conhecia o passado da Alemanha, pelo menos sabia o que tinha aprendido nas aulas de História, porém, nunca antes tinha parado para pensar e refletir sobre o fato de que o fascismo tinha matado milhões de pessoas sistematicamente.

A viagem começou com uma visita no campo de concentração de Auschwitz, onde nós tivemos a possibilidade de ver os alojamentos e as câmeras de gás. Assim que entrei nesse lugar, eu senti a morte e a dor no ar. Segundo o guia explicava os métodos de extermínio, como as pessoas eram asfixiada, crianças utilizadas para experimentos médicos cruéis e macabros, resultava quase impossível para eu conter as lágrimas. Perto daquele campo de concentração, se encontrava Birkenau, também conhecido como Auschwitz II. Quando os judeus chegavam na Polônia, trazidos de todas partes da Europa, Birkenau era a primeira estação. Andando pelo campo, chegamos num lago. A terra estava molhada e mole, cheia de minúsculas pedras brancas. Nesse momento, o guia explicou que naquele ano tinha chovido tanto que a terra havia se movido. Aquelas partículas brancas eram resquícios das cinzas dos corpos cremados que os nazistas jogavam no lago. Esse chão, de repente, ganhou uma outra simbologia; eu senti que andava sobre cadáveres, senti vergonha. Pela primeira vez senti raiva e vergonha da humanidade.

Durante aqueles 7 dias me invadiu uma tristeza inexplicável. Eu não conseguia entender como o ódio, o preconceito e a supremacia podiam chegar ao extremo de realmente “acabar com uma ‘raça‘”.

O clímax da viagem foi o encontro com uma das pessoas que marcaram a minha vida: Kasimiersz Smoleń, aquele, então, um dos últimos sobreviventes do Holocausto, falecido em 2012. Kasimiersz Smoleń havia sido prisioneiro político de Auschwitz por formar parte da resistência polonesa. Numa roda de conversa, tivemos a oportunidade de escutar seu ponto de vista e lhe fazer perguntas. Ele afirmou que não sentia nem ódio nem rancor e à pergunta sobre a nossa responsabilidade como jovens alemães e o que nós poderíamos fazer, ele respondeu que a nossa responsabilidade era não repetir a história. “Voltem para a Alemanha e façam com que isso não aconteça de novo“, ele disse. Eu recebi essas palavras como as palavras de um profeta. Eu, que até então tinha me sentido cubana, membro importante da sociedade alemã sim, mas sempre cubana, pela primeira vez me senti alemã. Imediatamente, eu absorvi a culpa do passado e assumi a responsabilidade do presente, de fazer parte de uma geração de alemães que lutam para não permitir que a história se repita de jeito nenhum.

Já na Alemanha, dediquei grande parte do meu tempo como estudante ao trabalho contra o racismo e a discriminação, trabalhando com a comunidade judia e reforçando a memória do passado alemão.

Além de Auschwitz, visitei mais dois campos de concentração: Natzweiler, na França e Buchenwald, no leste da Alemanha.

Depois de ver montanhas de cabelos humanos, usados para fazer tapetes, as câmeras onde as pessoas eram asfixiadas, os fornos onde seus corpos eram cremados. Depois de ver as cinzas de homens, mulheres e crianças que foram mortos por causa da sua religião, sua identidade racial ou cultural, por causa de uma deficiência o sua orientação sexual e política e passar literalmente os restos dessas pessoas, entendi finalmente os trechos do poema Fuga da morte de Paul Celan: “Cavamos um túmulo nos ares, lá não se jaz apertado”.

Eu entendi que fascismo mata, extermina. E me comprometi como cubana, alemã e cidadã do mundo que sou, a denunciar e combater os atos e ideais que violentam a dignidade humana, não só na Alemanha, mas em qualquer lugar que for necessário.