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A nudez dos preconceitos: O que aprendemos e evoluímos entre STDS e SPS?

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Diante de tantos redesenhos, mudanças de gestões e governos, o Laboratório de Inclusão sobrevive e resiste, nesses 28 anos, enfrentando o seu maior vilão: o preconceito. Este texto foi escrito e publicado em 2011, com o título original, “A nudez dos preconceitos. ‘O João está lá, com um bando de cegos e aleijados’”. Agora republicamos, como outra reflexão, de memórias e conquistas, em um momento de crise política e ideológica no Brasil.

Os estudos referentes às origens e consequências dos preconceitos humanos reforçam a ideia de uma sociedade doente, incoerente, desigual, violenta e preconceituosa. Pensando na diversidade dos preconceitos, desde o deficientismo, racismo, xenofobia, homofobia… Observa-se que as expressões humanas vêm dos próprios sentimentos, das sensações, das atitudes, das escolhas, dos modelos criados e propagados ao longo da nossa História.

O preconceito se estabelece como forma de sentimento ou prática rotineira. Pessoas preconceituosas têm a convicção de que as pessoas com deficiência são espécie inferiorizada. Entre ser inferiorizada e ser inferior existe uma diferença de interpretação e significado, mas consequências das desigualdades sociais. Pelo preconceito, as pessoas com deficiência devem ser tratadas como inferiores e inferiorizadas. Este tratamento, promovido pelo sentimento do preconceito, retrata uma condição de comportamento de não aceitar as diferenças como características humanas, ou a aceitação dos modelos pré-estabelecidos de ser humano perfeito. As teorias de perfeição já causaram grandes estragos na humanidade. O modelo de ser humano perfeito envolve um corpo perfeito, beleza facial, que podem também serem anexados a outras exigências como as condições financeiras ou status social.

A vulgarização da dita perfeição humana, como apoio de sustentação dos preconceitos, torna possível a teoria de que a sociedade precisa de mais equilíbrio do que de perfeição. Promovemos a inclusão de uma pessoa com deficiência pelo equilíbrio, pelo combate às desigualdades sociais, às deturpações de valores. É o equilíbrio que pode promover a aceitação das diferenças humanas como essenciais evolução e não a perfeição.

Com a formação do Grupo de estudos e Apoio à Acessibilidade Humana, em 2004, não foi difícil detectar os focos de preconceitos dentro e fora da ex-Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social – STDS (atual Secretaria de Proteção Social, Justiça, Mulheres e Direitos Humanos – SPS). Ficou claro também, nas avaliações das pesquisas, que nenhuma pessoa observada e entrevistada admitiu ter preconceito, mas nas atitudes do dia a dia não tiveram dificuldades de expressar essa ação.

As expressões humanas envolvem também a dualidade de atitudes. Quando deparamos com atitudes de preconceito, essa dualidade é claramente visível. Em 28 anos estudando e combatendo preconceitos, muitos exemplos de atitudes preconceituosas foram colhidas pelo Laboratório e serviram de material de estudos. Um dos casos mais famosos aconteceu em 2007. Em uma das reuniões do Grupo de Acessibilidade foram convidados alguns gestores para participarem de uma discussão sobre empregabilidade de pessoas com deficiência. Marcamos a reunião com um mês de antecedência, com horário de início para às 13h. Esperamos até 14:30h e nenhum dos convidados apareceu. Resolvemos ligar para saber o motivo das ausências, quando uma das secretárias comunicou que os gestores estavam em um evento muito importante. Reclamei que deveriam ter avisado e que muita gente estava esperando aquela reunião, pessoas com todas as deficiências e tiveram dificuldades de se deslocar até a Secretaria. Foi quando a secretária, que displicentemente não tampou a entrada de voz do telefone, proferiu a seguinte frase: “O João está lá, com um bando de cegos e aleijados”. Aproveitamos o momento da reunião e a ausência dos gestores e colocamos a referida frase como objeto de estudos do Grupo de Acessibilidade.

Passaram-se sete anos desde o lançamento do Projeto de Acessibilidade em 2004, que antecedeu a criação do Laboratório de Inclusão da STDS (atual SPS). Todas as deficiências foram incluídas, em todas as funções, como previa o Projeto de Inclusão Qualitativa. Assistimos a uma apresentação de balé de cadeiras de rodas. Foi emocionante ver aquelas meninas em suas cadeiras de rodas em cenas fortes de dedicação, arte e superação. No trabalho de inclusão de pessoas com deficiência é essencial conservar e evoluir o nível de emoções dos sentimentos de simplicidade e generosidade. Naquele momento, novamente, escutamos a voz dos preconceitos: “Onde tu vê dança e arte nestas meninas aleijadas?” vindas de uma das pessoas estudadas e observadas pelo Laboratório de Inclusão, desde 2004. Mesmo com tantos momentos ricos de vivências, cursos de conscientização, apresentações, seminários e o convívio com trabalhadores com suas diferenças, não foi possível mudar aquela pessoa e tantas outras que continuam expressando em suas palavras e ações a violência dos preconceitos. Surge então a pergunta: Preconceito tem cura?

Em destaque, para reflexão, a relação de algumas frases pronunciadas no período de implantação do projeto de Inclusão Qualitativa, que serviram para diagnosticar focos de resistência à inclusão de pessoas com deficiência: “Você está louco em colocar uma estudante de serviço social cega para estagiar! Como ela vai fazer estudo de caso ou visita domiciliar?”; “Além de cego, é aleijado!”; “Como colocar um lesado para trabalhar na cozinha?”; “Como você vai conseguir trabalhar com velhos, mijados, cagados e fedorentos?”; “Ainda bem que aquela cadeirante é bonitinha.”; “Minha filha não é deficiente, é inteligente.”; “Estes deficientes só chegaram para atrapalhar.”; “Mande apenas pessoas com deficiência leve. Não pode ser cadeirante, cego, surdo… Temos que cumprir a cota”.

Quando eu chegava com o Grupo de Acessibilidade, das apresentações externas, alguém comentava: “Lá vem o aleijado com os aleijados dele”. Todos os autores destas frases foram identificados para serem estudados pelo Laboratório de Inclusão.

Lembro das palavras da ex-deputada e Juíza Denise Frossard, em 2006, ao rejeitar o projeto de lei que considera crime discriminar deficientes físicos: “A deformidade física fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana.”

O enfrentamento e o convívio com o preconceito, por parte das pessoas com deficiência, envolve um nível de aceitação e consciência de acordo com as memórias de cada um. Como somos diferentes, temos formas de expressões e reações diferentes. Alguns pontos se tornam essenciais ao enfrentamento dos preconceitos humanos: 1. Assumir a própria deficiência sem medo e vergonha. 2. Entender que a deficiência do preconceito é bem maior e pior que a sua. 3. A deficiência ou diferença é uma característica humana. 4. A aceitação de si mesmo deve ser mais forte do que o preconceito. 5. Não permita que as pessoas com preconceito impeçam você de viver. A vida é sua e você deve vivê-la com dignidade e liberdade.

Por uma pessoa ter uma deficiência não significa não ser preconceituosa. A característica de ser preconceituosa está ligada à condição do próprio comportamento, do que aprendeu como valores sociais, dentro de sua trajetória de vida. Uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, pode ser racista mesmo sem poder enxergar a cor da pele de uma outra pessoa, basta saber que aquela pessoa é negra para expressar sua condição de racista. Qualquer tipo de deficiência ou diferença pode se incorporar à uma condição de ser preconceituoso.

No processo de inclusão das pessoas com deficiência identificamos dois pontos que podem ajudar e organizar as estratégias de combate aos preconceitos, na sustentabilidade de projetos, seus parceiros e seus adversários. 1. O preconceito cresce ou se expande quando deixamos ele se expressar sem contestação. 2. Quando identificamos oficialmente o foco ou as pessoas com preconceito, ele se retrai ou se torna vulnerável.

Em um dos encontros do Grupo de Acessibilidade, foi feito uma pergunta aos participantes, todos com um tipo de deficiência: “Você é capaz de identificar nominalmente as pessoas que lhe tratam com preconceito, dentro da família, entre os amigos, na escola ou faculdade e no ambiente de trabalho?” A resposta um unânime “sim”. Tudo fica mais compreensível quando sentimos na própria pele.

A neutralização dos focos de preconceito não identifica a sua eliminação, por que é temporário, como um silêncio aparente. Muitas pessoas estudadas e pesquisadas pelo Laboratório de Inclusão tiveram vergonha de admitir serem preconceituosas, mas tiveram facilidades em expressar o preconceito, através de atitudes de indiferença e exclusão. Acham “bonitinhas” as pessoas com Síndrome Down, ou sentem pena. Outro dia incluímos um trabalhador com Síndrome de Down como auxiliar de lanchonete. Ele fazia entregas nas salas. Uma funcionária comentou com a equipe do Laboratório: “Achei lindo aquele menino com Síndrome de Down fazendo entregas nas salas”. Perguntei se ela aceitaria um adolescente com a mesma síndrome como estagiário em seu setor. Foi quando ela respondeu com rapidez: “Vixe, lá na nossa sala? É complicado, não temos tempo de acompanhar, acho melhor você procurar outro setor…”

Passei três anos me comunicando profissionalmente com uma gestora de outra secretaria por telefone. Ela sempre me tratava bem, tirando dúvidas, facilitando os trabalhos. Mas, um dia, participamos de uma mesma reunião e ela me viu andando com as sequelas de poliomielite. A partir daquele momento ela passou a me tratar com indiferença, às vezes com grosserias ou irritabilidade.

É preciso entender o que se passa na mente, no sentimento da pessoa que pratica o preconceito. As pessoas observadas pelo Laboratório, com verbalizações a atitudes de preconceito, foram relacionadas e são acompanhadas e avaliadas como objetos de estudos na elaboração de estratégias de combate aos preconceitos. Constatamos que elas não mantêm um bom relacionamento interpessoal, nem no ambiente profissional nem no familiar. Relatamos que elas expressam arrogância e autossuficiência, agressividade nas palavras e, dependendo das características e nível dos sentimentos, podem ser agressivas fisicamente, o que é mais comum na homofobia.

O Laboratório de Inclusão é rotulado pelas interpretações externas, com uma carga forte de preconceitos, por representar os níveis inversos do padrão exigido de “perfeição” humana. Estas interpretações atingem, muitas vezes, alguns projetos que poderiam ter um tempo de resultados bem mais curto. O preconceito velado, que se esconde por trás do artificialismo do comportamento, carrega uma disfuncionalidade capaz de retardar a evolução de muitos projetos, danificando, irreversivelmente, destinos humanos.

Nos estudos do Laboratório verificamos a diversidade dos preconceitos. Uma pessoa é submetida a várias avaliações: O formato de seu corpo, a maneira de andar, o tom da voz, a textura da pele, o tipo de cabelo, a fisionomia do rosto, a maneira de se vestir, a maneira com que fala, se perdeu algum sentido (visão, audição, mobilidade, cognitivo)… são as existências do padrão do ser humano perfeito. A valorização da aparência ou mobilidade de um corpo humano reflete as simbologias criadas como modelos de perfeição.

Ter preconceito é também uma característica humana neste modelo de sociedade que vivemos, como também ter uma deficiência. Como são opostos, ter uma deficiência não impede nem o homem nem o mundo de evoluírem, mas o preconceito retarda a evolução da vida, como elemento destruidor e desnecessário. Assim, dentro da ideia do surgimento e desenvolvimento de um novo modelo de sociedade, poderiam considerar “deficiências humanas” apenas de comportamentos preconceituosos e violentos.

Na inclusão de pessoas com deficiência avaliamos as pessoas com preconceito em três categorias: Aqueles que assumem abertamente ser preconceituosos; Aqueles que não assumem ser preconceituosas, mas expressam com facilidades ter preconceito; Aqueles que têm pena de quem tem deficiência, mas mantém a convicção de que eles são inferiores.

Ser preconceituoso pode até não ter cura, em alguns casos, mesmo com a ajuda da ciência, mas temos que pensar em outro tipo de ser humano, de sociedade, começando por nós mesmos, multiplicando a ideia de um mundo onde a diversidade humana possa conviver em harmonia. Isto vai ser possível um dia? É bom começar não tendo medo de enfrentar os vilões que mantêm as invisibilidades humanas…

Laboratório de Inclusão abre processo contra a desembargadora Marilia de Castro Neves Vieira

protesto

O Laboratório de Inclusão, da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social do Governo do Estado do Ceará, abriu processo contra a desembargadora Marília de Castro Neves Vieira pela postagem, nas redes sociais, questionando o trabalho da professora Débora Seabra, com síndrome de Down, em mensagem carregada de preconceitos. As ofensas vão de encontro com os projetos de inclusão social de pessoas com síndrome de Down, deste Laboratório, como parte indispensável na evolução das políticas públicas do Estado do Ceará. Um momento em que todos os grupos e entidades que lutam por uma sociedade inclusiva devem se unir para protestar e cobrar do poder judiciário brasileiro uma coerência e justiça, no sentido de condenação criminal e perda de cargo público da referida desembargadora. Segue abaixo textos de protesto dos nossos parceiros:

 

depoimento carol

Caroline Frota, pessoa com síndrome de Down incluída no mercado de trabalho há oito anos pelo Laboratório de Inclusão.

“O preconceito é um sentimento forte, que destrói a capacidade da consciência humana de empatia, de compreensão e solidariedade… A desembargadora Marília deveria perder a função… Ser apenas afastada seria um prêmio ao preconceito.”
João Monteiro Vasconcelos, coordenador do Laboratório de Inclusão da STDS.

“Em plena era da informação compartilhada, do avanço científico e tecnológico e da expansão plena dos Direitos Humanos, qualquer expressão de ofensa a minorias sociais soa não somente como ignorância (no mais amplo sentido), mas também como perversão, maldade e pura pequenez digna de raras (ainda bem!) mentes resistentes à evolução, intelectualização e ao século XXI. Pessoas como Marília de Castro Neves Vieira são não somente tudo isso já citado, mas também representam o desespero de um pensamento tacanho que tem dias contados para o fim, e veem, em últimos suspiros, suas ideologias chegarem ao fiasco.”
Artur Mendonza, estudante de Psicologia do Centro Universitário Estácio de Sá e assistente técnico do Laboratório de Inclusão.

“São tempos difíceis, em que anseio por uma boa notícia e eis que abro meu Facebook e vejo um novo escândalo viralizado: a desembargadora Marília de Castro Neves Vieira ofende uma mulher com Síndrome de Down. Isso mesmo, a mesma magistrada que acusou Marielle Franco de estar envolvida com bandidos, achou um absurdo que o Brasil seja o primeiro país a ter uma professora com Down. Nunca chegarei à nobreza da resposta da educadora, mas posso dizer que absurdo é essa senhora estar num cargo tão alto, tendo tanto preconceito dentro de si.”
Dani Cardoso, estudante de Letras da Universidade Estadual do Ceará e estagiária do Laboratório de Inclusão da STDS.

“Lamentável! Julgar pessoas sem enxergar as potencialidades das mesmas, isto é praticar abertamente ações preconceituosas de caráter discriminatório. Então, senhores, senhoras, Vossa Senhoria, Vossa Excelência, vocês tem a capacidade de respeitarem as diversidades humanas? Caso isto não ocorra, não tem sentido ocupar simbolicamente “um cargo representativo”! Lutamos por uma sociedade digna, sobretudo, atuante em acessibilidade atitudinal. Sociedade brasileira, vamos conhecer e compreender o processo de inclusão com seriedade e compromisso, para combatermos, com ações efetivas, as barreiras do preconceito.”
Leidiane Costa, pedagoga técnica do Laboratório de Inclusão.

“O discurso da Marília Castro Neves é mais uma prova do quanto é importante e necessário a inclusão de discentes e docentes com deficiência as escolas, para a desmistificação de estigmas sociais e para a disseminação dos saberes básicos da educação.”
Luiz Curci, estudante de Psicologia da Faculdade Maurício de Nassau e estagiário de Psicologia do Laboratório de Inclusão.

“Nós, do grupo de Acessibilidade Humana do Laboratório de Inclusão (setor da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social – STDS, do Governo do Estado do Ceará), repudiamos totalmente a atitude preconceituosa da desembargadora Marília de Castro Neves Vieira dirigida à professora Débora Seabra, em razão de sua condição de pessoa com Síndrome de Down. De fato, o Estado, como o principal assegurador da efetivação dos direitos das pessoas com deficiência, deve ter em seus representantes um posicionamento ético e respeitoso a todas as pessoas, incondicionalmente. Todavia, apesar de seu cargo jurídico, sabe-se, com muito pesar, que a desembargadora Marilia de Castro Neves Vieira foi contra os princípios apresentados na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015). De acordo com o Estatuto da Pessoa com Deficiência, é considerada discriminação toda forma de distinção, restrição ou exclusão que tenha o propósito ou efeito de prejudicar, impedir ou anular o reconhecimento ou o exercício dos direitos, conforme o Artigo 4 da legislação em questão, em seu primeiro parágrafo. Neste caso, houve discriminação vocacional à professora auxiliar Débora Seabra. Sob esse viés, segundo o Artigo 5, sabe-se que: ‘A pessoa com deficiência será protegida de toda forma de negligência, discriminação, crueldade, opressão e tratamento desumano ou degradante.’ E dos crimes e infrações administrativas, de acordo com o Artigo 88, ‘a prática, a indução ou a incitação de discriminação de pessoa em razão de sua deficiência impõe pena – reclusão de um a três anos, e multa.’ Por esse motivo, o Grupo de Acessibilidade Humana, como parte do Laboratório de Inclusão, se solidariza com a professora Débora Seabra e sugere medidas firmes para a exoneração do cargo da desembargadora Marilia Castro.”
Grupo de Acessibilidade Humana, do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social do Governo do Estado do Ceará.

“O grupo Empoderamento Down, de Fortaleza/CE, repudia a atitude preconceituosa e discriminatória às pessoas com Síndrome de Down, perpetrada pela Desembargadora Marília de Castro Neves Vieira, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, às pessoas com síndrome de Down. A referida desembargadora deve ser afastada de suas funções por ferir a integridade das pessoas com deficiência, em especial, a uma professora com síndrome de Down, Débora Seabra. Repudiamos qualquer ato de preconceito e concordamos que atitudes como estas não devem passar impunes.”
Grupo Empoderamento Down.

“É triste ouvir de quem deveria combater o preconceito uma atitude tão preconceituosa. Cara desembargadora Marilia de Castro Neves Vieira, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, saiba que, quando nasce uma criança com síndrome de Down, nasce também infinitas possibilidades, inclusive de exercer essa linda missão de ensinar não só a ler, como respeitar e abraçar as diferenças. Ensinamentos que, com certeza, foram passados para a cara desembargadora, mas, infelizmente, não foi assimilado.”
Shirley Chaves, Grupo Fortaleza Down.

“Não há nada mais repugnante que o preconceito e a ignorância. Nossa sociedade não deve ficar omissa diante de total brutalidade, arrogância e discriminação. Devemos combater e extinguir atos e pensamentos excludentes, vermifugar os vermes da sociedade, para que possamos viver em um mundo mais justo, igualitário e diversificado, onde todos possam ser iguais em suas diferenças”.
Renata Daniela Barros, terapeuta ocupacional da APAE Fortaleza.

“Apuro os ouvidos e ouço a pérola: ‘o Brasil é o primeiro país a ter uma professora portadora de síndrome de down! Poxa, pensei, legal, são os programas de inclusão social… Aí me perguntei: o que será que essa professora ensina a quem?’, escreveu a Desembargadora Marília. A CDPD ONU e a LBI são conhecidas por destacarem , especialmente, a ATITUDE das pessoas como uma BARREIRA que obstrui a plena existência das pessoas com deficiência. Maior que uma escada para cadeirantes ou imagens ilegíveis para a pessoa com cegueira… o PRECONCEITO é a barreira ATITUDINAL. A mais devastadora de todas e, exatamente por isso, os citados comandos legais tipificaram o PRECONCEITO COMO CRIME! O preconceito fere, anula e mata. Deixemo-lo sepultado sem chances para exumação!”
Liduina Carneiro, membro da Comissão da Defesa da Pessoa com Deficiência da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Ceará.

 

Visibilidade Down no Jornal da TVC

Participação do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) no Jornal da TV Ceará do dia 21 de março, em alusão ao Dia Internacional da Síndrome de Down.

João Monteiro, coordenador do Laboratório de Inclusão, falou sobre a importância da visibilidade Down e como está hoje a inclusão desse público no mercado de trabalho. Além disso, há imagens do evento promovido no mesmo dia pelo Laboratório de Inclusão no Shopping Benfica.

Laboratório de Inclusão promove visibilidade Down no Shopping Benfica

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O Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) comemora, na próxima terça-feira, 21, o Dia Internacional da Síndrome de Down com exposições de trabalhos e atividades artísticas protagonizadas por jovens integrantes do projeto Point Down Fortaleza, criado, há um ano, em parceria com a Associação Fortaleza Down e a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) que também estarão presentes. O evento acontecerá a partir das 14h na praça de alimentação do Shopping Benfica.

De acordo com João Monteiro, coordenador do Laboratório de Inclusão, a comemoração do dia 21 de março é importante para entender as características da síndrome, mergulhar no universo Down e poder fazer inclusão social sem medo, abrindo portas às superações. “A importância da visibilidade Down pode transformar destinos e anular preconceitos”, afirma ele.

O Point Down Fortaleza é um ponto de lazer para pais, amigos e pessoas com síndrome de Down. Essas pessoas realizam encontros públicos em shoppings, praças, organização de passeios de bike, food trucks e outros tantos eventos em Fortaleza. A iniciativa do Point Down surgiu a partir do Laboratório de Inclusão, que é um centro de estudos, pesquisas e desenvolvimento de projetos de inclusão social para pessoas com deficiência, com apoio da Associação Fortaleza Down.

A criação do Laboratório de Inclusão é consequência do trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Estágio Universitário da STDS. Ele tem como ideal combater, através de estudos, experimentos científicos, pesquisas, ações e projetos, as desigualdades sociais no Brasil, suas origens e consequências dentro do modelo social e político em vigência, por defender o surgimento de um novo modelo de sociedade, livre, solidária e inclusiva.

Programação

14h00 – Apresentação: Laboratório de Inclusão
14h10 – Alongamento
14h20 – 1 ano do projeto Point Down Fortaleza
14h30 – Apresentação musical “New York”
14h40 – Poema “O que é ser síndrome de Down”
14h50 – Depoimento sobre rotinas de trabalho
15h00 – Apresentação musical “Ele é o bom!”
15h10 – Danças rítmicas: Dança do Ventre, Zumba, Samba e Pop
16h00 – Encerramento

SERVIÇO
Visibilidade Down
Quando: 21 de março (terça-feira), às 14h
Onde: Praça de Alimentação do Shopping Benfica (Av. Carapinima, 2200 – Benfica)
Mais informações: (85) 3101-4583 e 3101-2123 ou labdeinclusao@gmail.com
Gratuito

O duelo entre perfeição e equilíbrio

Somos todos diferentes

Ter síndrome de Down, autismo, retardo mental, tetraplegia, paralisia cerebral, ser cego ou surdo é normal? Ser gay, lésbica, travesti ou transexual é normal? Ter a cor da pele escura ou o cabelo crespo é normal? Nascer no Nordeste ou ser índio é normal? As debilidades do comportamento humano rotulam perfeição e normalidade e multiplicam os preconceitos. A diversidade humana é tão real e significante que dispensa, essencialmente, a questão da normalidade quando substituída pelo equilíbrio.

Como as exigências de normalidade e perfeição se transformam em preconceitos? Quando as diferenças de alguém são avaliadas e anexadas a sua personalidade ou forma de ser e fogem de um padrão estabelecido; quando as diferenças simbolizam inferioridade, imperfeição, fragilidade, fobia, exclusão ou indiferença. Por exemplo: “tem gente que não gosta de mim porque tenho uma deficiência”, “porque sou negro”, “porque sou gay”, “porque sou gordo”, “porque sou feio”, porque somos diferentes. Estas constatações fazem parte da vida de quem é rotulado de imperfeito.

Assim nascem culturas de ódio e exclusão como racismo, homofobia, xenofobia e discriminação a pessoas com deficiência. A facilidade que essas pessoas têm de ser tratadas com grosseria, indelicadeza e indiferença é um efeito expressivo de repugnância, incentivada pelo modelo padrão exigido de perfeição humana, muitas vezes encoberto por preconceitos velados. Preconceitos estes convictos de que aquela pessoa excluída e discriminada tem algo diferente da normalidade socialmente imposta, que não deve ser mostrado nem aceito porque incomoda.

A maior barreira em vencer os preconceitos é conservar e dogmatizar a ideia de que essas pessoas carregam algum tipo de inferioridade diante dos conceitos preestabelecidos de normalidade e perfeição. Esse modelo de sociedade deturpado foi inventado pelo homem, modificado e multiplicado, violentando pessoas, destruindo vidas e destinos, como simbologias de desigualdade e exclusão. Renegando que o sentido de sobrevivência solidária está no equilíbrio provocado pelo convívio harmonioso entre as diferenças.

A inferioridade imposta pelos preconceitos apenas reforça a ideia de que perfeição e normalidade são incapazes de promover a evolução da humanidade. Sobrevivem ainda as consequências das ideologias dogmáticas que provocaram ditadura, guerra, fome, desigualdade social, concentração de renda, violência urbana e desemprego. Onde estão os efeitos de perfeição e normalidade? Temos que repensar em um novo conceito de mundo, onde o equilíbrio seja mais importante do que a busca da perfeição. Seríamos normais e perfeitos demais para admitirmos isto?

A procura da perfeição tem anulado a busca pelo equilíbrio. Nenhuma sociedade sobrevive dignamente com violência e preconceito nas palavras e ações. Já a paz sobrevive a partir do equilíbrio e respeito à diversidade humana. O respeito é superior à perfeição quando demonstra a incapacidade de gerar conflitos. Os rótulos que sustentam os preconceitos buscam uma perfeição incoerente, negam a realidade e necessidade do equilíbrio como indispensável para a harmonia humana.

Algumas pessoas com deficiência ou doença mental preferem ficar em casa a se expor em espaços públicos por medo do assédio dos preconceitos. Travestis são muitas vezes obrigados a se prostituir porque o mercado de trabalho está fechado para as suas diferenças. Uma estudante é violentada por jovens neonazistas por ser uma mulher negra. Pessoas são perseguidas, combatidas e criticadas porque lutam pela inclusão de um público socialmente excluído.

Tudo isso são exemplos da ausência de equilíbrio por exigir uma sociedade normativa. Um absurdo? Não. Uma realidade diária de quem tem uma diferença rotulada pela imposição de uma perfeição. Os preconceitos cresceram e se fortificaram tanto culturalmente que hoje fica mais difícil desconstruí-los. Que mundo melhor é esse que imaginamos? Será que existe alguma esperança de melhores pessoas e melhores dias? Estamos caminhando ao fim ou ao surgimento de uma nova humanidade? Que essas reflexões provoquem a esperança que temos de sobreviver em benefício da vida e não da perfeição.