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A nudez dos preconceitos: O que aprendemos e evoluímos entre STDS e SPS?

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Diante de tantos redesenhos, mudanças de gestões e governos, o Laboratório de Inclusão sobrevive e resiste, nesses 28 anos, enfrentando o seu maior vilão: o preconceito. Este texto foi escrito e publicado em 2011, com o título original, “A nudez dos preconceitos. ‘O João está lá, com um bando de cegos e aleijados’”. Agora republicamos, como outra reflexão, de memórias e conquistas, em um momento de crise política e ideológica no Brasil.

Os estudos referentes às origens e consequências dos preconceitos humanos reforçam a ideia de uma sociedade doente, incoerente, desigual, violenta e preconceituosa. Pensando na diversidade dos preconceitos, desde o deficientismo, racismo, xenofobia, homofobia… Observa-se que as expressões humanas vêm dos próprios sentimentos, das sensações, das atitudes, das escolhas, dos modelos criados e propagados ao longo da nossa História.

O preconceito se estabelece como forma de sentimento ou prática rotineira. Pessoas preconceituosas têm a convicção de que as pessoas com deficiência são espécie inferiorizada. Entre ser inferiorizada e ser inferior existe uma diferença de interpretação e significado, mas consequências das desigualdades sociais. Pelo preconceito, as pessoas com deficiência devem ser tratadas como inferiores e inferiorizadas. Este tratamento, promovido pelo sentimento do preconceito, retrata uma condição de comportamento de não aceitar as diferenças como características humanas, ou a aceitação dos modelos pré-estabelecidos de ser humano perfeito. As teorias de perfeição já causaram grandes estragos na humanidade. O modelo de ser humano perfeito envolve um corpo perfeito, beleza facial, que podem também serem anexados a outras exigências como as condições financeiras ou status social.

A vulgarização da dita perfeição humana, como apoio de sustentação dos preconceitos, torna possível a teoria de que a sociedade precisa de mais equilíbrio do que de perfeição. Promovemos a inclusão de uma pessoa com deficiência pelo equilíbrio, pelo combate às desigualdades sociais, às deturpações de valores. É o equilíbrio que pode promover a aceitação das diferenças humanas como essenciais evolução e não a perfeição.

Com a formação do Grupo de estudos e Apoio à Acessibilidade Humana, em 2004, não foi difícil detectar os focos de preconceitos dentro e fora da ex-Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social – STDS (atual Secretaria de Proteção Social, Justiça, Mulheres e Direitos Humanos – SPS). Ficou claro também, nas avaliações das pesquisas, que nenhuma pessoa observada e entrevistada admitiu ter preconceito, mas nas atitudes do dia a dia não tiveram dificuldades de expressar essa ação.

As expressões humanas envolvem também a dualidade de atitudes. Quando deparamos com atitudes de preconceito, essa dualidade é claramente visível. Em 28 anos estudando e combatendo preconceitos, muitos exemplos de atitudes preconceituosas foram colhidas pelo Laboratório e serviram de material de estudos. Um dos casos mais famosos aconteceu em 2007. Em uma das reuniões do Grupo de Acessibilidade foram convidados alguns gestores para participarem de uma discussão sobre empregabilidade de pessoas com deficiência. Marcamos a reunião com um mês de antecedência, com horário de início para às 13h. Esperamos até 14:30h e nenhum dos convidados apareceu. Resolvemos ligar para saber o motivo das ausências, quando uma das secretárias comunicou que os gestores estavam em um evento muito importante. Reclamei que deveriam ter avisado e que muita gente estava esperando aquela reunião, pessoas com todas as deficiências e tiveram dificuldades de se deslocar até a Secretaria. Foi quando a secretária, que displicentemente não tampou a entrada de voz do telefone, proferiu a seguinte frase: “O João está lá, com um bando de cegos e aleijados”. Aproveitamos o momento da reunião e a ausência dos gestores e colocamos a referida frase como objeto de estudos do Grupo de Acessibilidade.

Passaram-se sete anos desde o lançamento do Projeto de Acessibilidade em 2004, que antecedeu a criação do Laboratório de Inclusão da STDS (atual SPS). Todas as deficiências foram incluídas, em todas as funções, como previa o Projeto de Inclusão Qualitativa. Assistimos a uma apresentação de balé de cadeiras de rodas. Foi emocionante ver aquelas meninas em suas cadeiras de rodas em cenas fortes de dedicação, arte e superação. No trabalho de inclusão de pessoas com deficiência é essencial conservar e evoluir o nível de emoções dos sentimentos de simplicidade e generosidade. Naquele momento, novamente, escutamos a voz dos preconceitos: “Onde tu vê dança e arte nestas meninas aleijadas?” vindas de uma das pessoas estudadas e observadas pelo Laboratório de Inclusão, desde 2004. Mesmo com tantos momentos ricos de vivências, cursos de conscientização, apresentações, seminários e o convívio com trabalhadores com suas diferenças, não foi possível mudar aquela pessoa e tantas outras que continuam expressando em suas palavras e ações a violência dos preconceitos. Surge então a pergunta: Preconceito tem cura?

Em destaque, para reflexão, a relação de algumas frases pronunciadas no período de implantação do projeto de Inclusão Qualitativa, que serviram para diagnosticar focos de resistência à inclusão de pessoas com deficiência: “Você está louco em colocar uma estudante de serviço social cega para estagiar! Como ela vai fazer estudo de caso ou visita domiciliar?”; “Além de cego, é aleijado!”; “Como colocar um lesado para trabalhar na cozinha?”; “Como você vai conseguir trabalhar com velhos, mijados, cagados e fedorentos?”; “Ainda bem que aquela cadeirante é bonitinha.”; “Minha filha não é deficiente, é inteligente.”; “Estes deficientes só chegaram para atrapalhar.”; “Mande apenas pessoas com deficiência leve. Não pode ser cadeirante, cego, surdo… Temos que cumprir a cota”.

Quando eu chegava com o Grupo de Acessibilidade, das apresentações externas, alguém comentava: “Lá vem o aleijado com os aleijados dele”. Todos os autores destas frases foram identificados para serem estudados pelo Laboratório de Inclusão.

Lembro das palavras da ex-deputada e Juíza Denise Frossard, em 2006, ao rejeitar o projeto de lei que considera crime discriminar deficientes físicos: “A deformidade física fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana.”

O enfrentamento e o convívio com o preconceito, por parte das pessoas com deficiência, envolve um nível de aceitação e consciência de acordo com as memórias de cada um. Como somos diferentes, temos formas de expressões e reações diferentes. Alguns pontos se tornam essenciais ao enfrentamento dos preconceitos humanos: 1. Assumir a própria deficiência sem medo e vergonha. 2. Entender que a deficiência do preconceito é bem maior e pior que a sua. 3. A deficiência ou diferença é uma característica humana. 4. A aceitação de si mesmo deve ser mais forte do que o preconceito. 5. Não permita que as pessoas com preconceito impeçam você de viver. A vida é sua e você deve vivê-la com dignidade e liberdade.

Por uma pessoa ter uma deficiência não significa não ser preconceituosa. A característica de ser preconceituosa está ligada à condição do próprio comportamento, do que aprendeu como valores sociais, dentro de sua trajetória de vida. Uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, pode ser racista mesmo sem poder enxergar a cor da pele de uma outra pessoa, basta saber que aquela pessoa é negra para expressar sua condição de racista. Qualquer tipo de deficiência ou diferença pode se incorporar à uma condição de ser preconceituoso.

No processo de inclusão das pessoas com deficiência identificamos dois pontos que podem ajudar e organizar as estratégias de combate aos preconceitos, na sustentabilidade de projetos, seus parceiros e seus adversários. 1. O preconceito cresce ou se expande quando deixamos ele se expressar sem contestação. 2. Quando identificamos oficialmente o foco ou as pessoas com preconceito, ele se retrai ou se torna vulnerável.

Em um dos encontros do Grupo de Acessibilidade, foi feito uma pergunta aos participantes, todos com um tipo de deficiência: “Você é capaz de identificar nominalmente as pessoas que lhe tratam com preconceito, dentro da família, entre os amigos, na escola ou faculdade e no ambiente de trabalho?” A resposta um unânime “sim”. Tudo fica mais compreensível quando sentimos na própria pele.

A neutralização dos focos de preconceito não identifica a sua eliminação, por que é temporário, como um silêncio aparente. Muitas pessoas estudadas e pesquisadas pelo Laboratório de Inclusão tiveram vergonha de admitir serem preconceituosas, mas tiveram facilidades em expressar o preconceito, através de atitudes de indiferença e exclusão. Acham “bonitinhas” as pessoas com Síndrome Down, ou sentem pena. Outro dia incluímos um trabalhador com Síndrome de Down como auxiliar de lanchonete. Ele fazia entregas nas salas. Uma funcionária comentou com a equipe do Laboratório: “Achei lindo aquele menino com Síndrome de Down fazendo entregas nas salas”. Perguntei se ela aceitaria um adolescente com a mesma síndrome como estagiário em seu setor. Foi quando ela respondeu com rapidez: “Vixe, lá na nossa sala? É complicado, não temos tempo de acompanhar, acho melhor você procurar outro setor…”

Passei três anos me comunicando profissionalmente com uma gestora de outra secretaria por telefone. Ela sempre me tratava bem, tirando dúvidas, facilitando os trabalhos. Mas, um dia, participamos de uma mesma reunião e ela me viu andando com as sequelas de poliomielite. A partir daquele momento ela passou a me tratar com indiferença, às vezes com grosserias ou irritabilidade.

É preciso entender o que se passa na mente, no sentimento da pessoa que pratica o preconceito. As pessoas observadas pelo Laboratório, com verbalizações a atitudes de preconceito, foram relacionadas e são acompanhadas e avaliadas como objetos de estudos na elaboração de estratégias de combate aos preconceitos. Constatamos que elas não mantêm um bom relacionamento interpessoal, nem no ambiente profissional nem no familiar. Relatamos que elas expressam arrogância e autossuficiência, agressividade nas palavras e, dependendo das características e nível dos sentimentos, podem ser agressivas fisicamente, o que é mais comum na homofobia.

O Laboratório de Inclusão é rotulado pelas interpretações externas, com uma carga forte de preconceitos, por representar os níveis inversos do padrão exigido de “perfeição” humana. Estas interpretações atingem, muitas vezes, alguns projetos que poderiam ter um tempo de resultados bem mais curto. O preconceito velado, que se esconde por trás do artificialismo do comportamento, carrega uma disfuncionalidade capaz de retardar a evolução de muitos projetos, danificando, irreversivelmente, destinos humanos.

Nos estudos do Laboratório verificamos a diversidade dos preconceitos. Uma pessoa é submetida a várias avaliações: O formato de seu corpo, a maneira de andar, o tom da voz, a textura da pele, o tipo de cabelo, a fisionomia do rosto, a maneira de se vestir, a maneira com que fala, se perdeu algum sentido (visão, audição, mobilidade, cognitivo)… são as existências do padrão do ser humano perfeito. A valorização da aparência ou mobilidade de um corpo humano reflete as simbologias criadas como modelos de perfeição.

Ter preconceito é também uma característica humana neste modelo de sociedade que vivemos, como também ter uma deficiência. Como são opostos, ter uma deficiência não impede nem o homem nem o mundo de evoluírem, mas o preconceito retarda a evolução da vida, como elemento destruidor e desnecessário. Assim, dentro da ideia do surgimento e desenvolvimento de um novo modelo de sociedade, poderiam considerar “deficiências humanas” apenas de comportamentos preconceituosos e violentos.

Na inclusão de pessoas com deficiência avaliamos as pessoas com preconceito em três categorias: Aqueles que assumem abertamente ser preconceituosos; Aqueles que não assumem ser preconceituosas, mas expressam com facilidades ter preconceito; Aqueles que têm pena de quem tem deficiência, mas mantém a convicção de que eles são inferiores.

Ser preconceituoso pode até não ter cura, em alguns casos, mesmo com a ajuda da ciência, mas temos que pensar em outro tipo de ser humano, de sociedade, começando por nós mesmos, multiplicando a ideia de um mundo onde a diversidade humana possa conviver em harmonia. Isto vai ser possível um dia? É bom começar não tendo medo de enfrentar os vilões que mantêm as invisibilidades humanas…

A visão de um cadeirante no Estádio Presidente Vargas – Fortaleza (CE)

Existe o Decreto nº 12.916, de 1999, do estado do Ceará, que dispõe sobre as normas de adaptação de prédios de uso público, a fim de assegurar o acesso adequado às pessoas com deficiência. O Estádio Presidente Vargas, em Fortaleza (CE), de responsabilidade da Prefeitura Municipal de Fortaleza, deveria estar dentro das normas estabelecidas por este Decreto, mas o vídeo, feito por um membro do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social, demonstra a falta de acessibilidade para o público com deficiência. Precisamos cobrar o cumprimento da Lei para dar continuidade às políticas públicas de inclusão de pessoas com deficiência, e os órgãos públicos devem dar o bom exemplo.

É preciso ampliarmos nossos conceitos acerca da inclusão. Ter acessibilidade não é simplesmente ter uma rampa ou um local reservado para pessoas com mobilidade reduzida. A acessibilidade também passa por questões práticas, funcionais e cotidianas. Um estádio ter um local reservado para cadeirantes, mas sem que esse local tenha uma visão adequada do campo ou um espaço apropriado para a locomoção com a cadeira de rodas, isso não é ser acessível. Os órgãos públicos, acima de todas as instituições, devem ser os precursores de um espaço de fato público, efetivamente acessível para todos, validando, assim, nosso espírito democrático e social.

Prepotência e ego não combinam com educação

por Danielle Cardoso
estagiária de Letras do Laboratório de Inclusão

prepotência

Se tem uma coisa que aprendi na minha vida acadêmica é que você nunca saberá de tudo, nunca será detentor pleno do conhecimento. Quando você aprende algo, percebe que tem um mundo de outras coisas que você não sabe. Por mais mestrados, doutorados e pós-doutorados que você tenha, sempre haverá um mundo de conhecimentos ao qual você será ignorante. A vida é um eterno aprendizado e acredito que, para os professores, em especial, essa deve ser a lição número um de sua profissão.

É muito egoísta e prepotente você pensar que não tem mais nada a aprender, que seu aluno não é capaz de te ensinar algo novo. Sua didática pode ser perfeita na teoria, mas, na prática, é outra coisa. Sempre será preciso fazer adaptações, pois plano de aula que dá certo é aquele que sai do planejado. Professores trabalham com a formação de seres humanos, que são diferentes em tempo, compreensão, gostos, pensamentos, ações. Não é matemático, você não vai conseguir a fórmula para ser um bom professor, o segredo é ter humildade e aprender a como ser melhor a cada dia.

Neste contexto, uma “professora” universitária faz algo inaceitável: falou, em meio a toda sua turma, que não vai mudar sua didática por causa de um único aluno que tem deficiência visual. – Para quê, não é, professora? Para quê mudar sua didática por causa de um cego, que, na sua cabeça, não vai chegar a lugar nenhum? Realmente, esse papo de inclusão é muito bonito, desde que não te afete, não é?! Porque não vejo sentido mesmo em mudar sua didática, que, provavelmente, há muitos anos você a usa e nunca pensou em reformulá-la. Se não acompanha, não é seu problema, você não é culpada por ele ser cego. Absurdo mudar sua aula por ele!

Para quem não entendeu, usei de ironia no parágrafo anterior. É assim que imagino que pensa uma pessoa que faz isso, que, por ego e prepotência, quer tirar o direito de um aluno com deficiência de estudar. Professora, você pode ser processada por isso, porque discriminação é crime. Não estou expressando o que acho, a Lei Brasileira de Inclusão é que garante: DISCRIMINAÇÃO É CRIME! E não tem nada de mau evitar escrever na lousa ou descrever para o seu aluno o que você escreveu lá. Não é coisa do outro mundo disponibilizar os textos da disciplina em PDF para que seu aluno possa ter acesso igual aos outros. Na verdade, professora, isso faz parte da sua profissão.

Já passei por algo parecido no começo da minha graduação, o professor fingia não me ver, negava-se a dar aulas na sala de baixo e eu, que sou cadeirante, que me virasse para assistir a suas aulas e disse que eu não precisava fazer trabalhos, pois, no fim do semestre, ele me daria uma nota qualquer. Não denunciei esse professor, não sabia ainda quais eram meus direitos. Todavia, o que mais me chamava atenção era que, fazendo tudo isso comigo e humilhando os outros, ele reafirmava seu enorme ego e fazia valer a figura do professor todo poderoso, que todos temem. Se ele se permitisse a aprender comigo, todo o mundo de ilusão que ele criou e ao qual tanto se agarra, cairia, e ele voltaria a ser um professor normal, era isso que o amedrontava.

A vida não é, nem precisa ser, uma competição. Não deixe seu ego tomar conta de você, só porque você tem uma condição social mais elevada que os outros. Não banque o sabe-tudo, só porque você tem um título de doutor. Não seja prepotente com seus alunos, isso só mostra o quão inseguro (a) você é. Pelo contrário, aprenda com eles, seja humilde, inclua. Você será uma pessoa bem melhor assim, te garanto. Não perca tempo alimentando seu ego, é na simplicidade que a gente é feliz. Até a próxima!

A importância de amigos no meu processo de inclusão

por Danielle Cardoso
estagiária de Letras do Laboratório de Inclusão

acessibilidade

Eu já passei por todos os estágios de escolarização e o que pude observar é que, em todos, meus amigos foram muito importantes para a minha inclusão. Não sou de ter muitos amigos, mas os que tenho, valem a pena. Logo, na maioria das vezes, uma única pessoa se aproxima de mim (sim, se não se aproximar, eu não me aproximo) e começa a me ajudar. O que acontece é que os amigos dessa pessoa aprendem com ela a se relacionarem comigo. Assim, em pouco tempo, tenho uma rede de amigos com os quais eu posso contar em qualquer situação.

Apesar de muitas pessoas se afastarem de mim por causa dos meus movimentos e dificuldades de falar, eu sempre fiz parte de grupinhos nas escolas que estudei. A curiosidade dos meus amigos de me conhecerem melhor quebrava muitos preconceitos. Eu gosto de brincar e quem me conhece sabe que sou bem extrovertida e espontânea, embora, à primeira vista, não pareça. O que é engraçado lembrar é que sempre fui muito “mandona”, então, eu acabava sendo a líder do grupinho que fazia parte.

Dessa forma, eu conquistava (e conquisto) meu lugar no mundo. Muitas vezes, meus amigos me defendiam até de professores que não ficavam muito satisfeitos em lidar comigo. E, olha, eu não era fácil, aprontava cada uma. Já briguei para me defender e tive o apoio dos meus amigos. Enfim, sou na minha, mas não pisa no meu calo. Acho que essa honestidade que assumi de ser eu mesma me ajudou bastante, pois, quando meus amigos percebem que trato minha deficiência como um mero detalhe, tudo fica mais simples e mais “normal”.

Na faculdade não foi diferente. Quando minha mãe deixou de me acompanhar, um cara se aproximou de mim e logo virou meu amigo. Durante algum tempo, eu contei só com ele para muita coisa. Acontece que ele me apresentava para os amigos dele e, logo, todo mundo me conhecia. O legal é que muita gente aprendeu com ele a empurrar minha cadeira de rodas, por exemplo. E foi passando a outras pessoas. Hoje, depois de cinco anos, ainda tenho amigos que se orgulham em dizer que observaram como os outros conseguem ultrapassar os obstáculos para também poderem me ajudar.

É sempre bom lembrar que ajudar é uma coisa e considerar a pessoa com deficiência incapaz é outra. Não gosto que me superprotejam, isso me sufoca. Ajudar um amigo espontaneamente não é nenhuma caridade. E, se você quiser fazer caridade, procure lugares com pessoas que realmente precisam disso. Só quero perto de mim quem acha natural ajudar uma amiga cadeirante. Quem sabe brincar, tem senso de humor e sabia conversar. Gente que não se acha superior a ninguém e aceita a diversidade de cada um.

Descobri que ter amizades assim é o maior bem que posso ter. Agradeço meus amigos que sempre me aceitaram como eu sou e foram companheiros quando mais precisei. E, sim, podem zoar comigo, desde que você tenha intimidade para isso. Brincadeira entre amigos não tem nada de errado. Errado é quando a pessoa não gosta da brincadeira e você continua. Para essas situações o melhor é ter sensibilidade para perceber que errou e pedir desculpas. Ter amigos é bem melhor do que ter dinheiro. Espero que você tenha amigos de verdade. Até a próxima!

Inclusão na prática

por Danielle Cardoso
estagiária de Letras do Laboratório de Inclusão

inclusão

Inclusão. Palavra simples, mas bem difícil de pôr em prática. Em toda minha vida, mesmo não percebendo, lutei por inclusão e acessibilidade em todos os aspectos. Depois que entrei na faculdade, vi que não estava sozinha nessa luta e que existem movimentos sociais em prol da causa. O único problema é que existem pessoas que acreditam que só falar em inclusão basta e não é assim. Inclusão deve ser praticada em todos os lugares e a toda hora. Não é tarefa fácil, mas não podemos correr o risco de deixar essa palavra apenas no discurso.

É certo que o discurso também é ação e sensibilizar as pessoas da importância de se incluir é maravilhoso, mas já não é o suficiente. Ainda é preciso informar que existem leis que resguardam os direitos das pessoas com deficiência, porém é urgente colocar em prática essas leis. Sei que você deve estar se perguntando: “Mas a inclusão já não é praticada?”, e eu te respondo: sim, estamos tentando praticar essa inclusão, principalmente, no âmbito escolar. O problema é que ainda falta muito e pessoas que falam, falam e, no fundo, não dizem nada, atrapalham o avanço dessa questão.

Não adianta algumas faculdades e universidades terem projetos de inclusão e acessibilidade se estes não proporcionarem ações efetivas de inclusão. De nada serve ser coordenador(a) de um desses projetos se você não conhece as pessoas que precisam deles. Conhecer as demandas do público que você quer atender é fundamental para qualquer líder de qualquer projeto tenha sucesso. Isso serve para qualquer lugar: empresas e sociedade em geral.

No começo do meu curso superior, várias pessoas vieram com um discurso muito bonito de que eu tinha direito de estudar e a UECE deveria se adaptar para me receber. Tiraram fotos comigo e tudo mais, mas tudo isso ficou no plano do discurso. Eu era ingênua, ainda não sabia diferenciar quem realmente queria ajudar de quem só queria se promover. E poucos foram aqueles que me ajudaram de verdade. Falar em inclusão é fácil, difícil é ter responsabilidade e fazer acontecer. Se não fosse minha teimosia em permanecer na universidade, eu teria desistido, com certeza.

Palavra não mudam o mundo, atitudes, sim. As palavras apenas encorajam pessoas a terem atitudes para vivermos em paz e em harmonia. É esse o maior objetivo dos meus textos postados aqui no blog. Procuro trazer toda a minha experiência com inclusão e acessibilidade para que, quem ler, possa mudar de atitude. Quero informar pais, professores, estudantes de que, sim, a prática da inclusão é possível e sou prova viva disso. Sei que muitos leem e em nada mudam. Nesse caso, a responsabilidade não é mais minha.

Hoje, sei que incluir requer tempo e esforço. Que ações inclusivas não são realizadas do dia para noite, por isso desconfio de dois tipos de pessoas: as que reclamam demais da falta de acessibilidade de um lugar, mas não fazem nada para mudar tal situação, e as que se animam muito para fazer uma ação de conscientização, seja onde for, mas desistem antes de começar. Praticar inclusão e acessibilidade não é fácil, por isso vamos ter comprometimento e articulação, para que não fiquemos só na falação. Até a próxima!