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A nudez dos preconceitos: O que aprendemos e evoluímos entre STDS e SPS?

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Diante de tantos redesenhos, mudanças de gestões e governos, o Laboratório de Inclusão sobrevive e resiste, nesses 28 anos, enfrentando o seu maior vilão: o preconceito. Este texto foi escrito e publicado em 2011, com o título original, “A nudez dos preconceitos. ‘O João está lá, com um bando de cegos e aleijados’”. Agora republicamos, como outra reflexão, de memórias e conquistas, em um momento de crise política e ideológica no Brasil.

Os estudos referentes às origens e consequências dos preconceitos humanos reforçam a ideia de uma sociedade doente, incoerente, desigual, violenta e preconceituosa. Pensando na diversidade dos preconceitos, desde o deficientismo, racismo, xenofobia, homofobia… Observa-se que as expressões humanas vêm dos próprios sentimentos, das sensações, das atitudes, das escolhas, dos modelos criados e propagados ao longo da nossa História.

O preconceito se estabelece como forma de sentimento ou prática rotineira. Pessoas preconceituosas têm a convicção de que as pessoas com deficiência são espécie inferiorizada. Entre ser inferiorizada e ser inferior existe uma diferença de interpretação e significado, mas consequências das desigualdades sociais. Pelo preconceito, as pessoas com deficiência devem ser tratadas como inferiores e inferiorizadas. Este tratamento, promovido pelo sentimento do preconceito, retrata uma condição de comportamento de não aceitar as diferenças como características humanas, ou a aceitação dos modelos pré-estabelecidos de ser humano perfeito. As teorias de perfeição já causaram grandes estragos na humanidade. O modelo de ser humano perfeito envolve um corpo perfeito, beleza facial, que podem também serem anexados a outras exigências como as condições financeiras ou status social.

A vulgarização da dita perfeição humana, como apoio de sustentação dos preconceitos, torna possível a teoria de que a sociedade precisa de mais equilíbrio do que de perfeição. Promovemos a inclusão de uma pessoa com deficiência pelo equilíbrio, pelo combate às desigualdades sociais, às deturpações de valores. É o equilíbrio que pode promover a aceitação das diferenças humanas como essenciais evolução e não a perfeição.

Com a formação do Grupo de estudos e Apoio à Acessibilidade Humana, em 2004, não foi difícil detectar os focos de preconceitos dentro e fora da ex-Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social – STDS (atual Secretaria de Proteção Social, Justiça, Mulheres e Direitos Humanos – SPS). Ficou claro também, nas avaliações das pesquisas, que nenhuma pessoa observada e entrevistada admitiu ter preconceito, mas nas atitudes do dia a dia não tiveram dificuldades de expressar essa ação.

As expressões humanas envolvem também a dualidade de atitudes. Quando deparamos com atitudes de preconceito, essa dualidade é claramente visível. Em 28 anos estudando e combatendo preconceitos, muitos exemplos de atitudes preconceituosas foram colhidas pelo Laboratório e serviram de material de estudos. Um dos casos mais famosos aconteceu em 2007. Em uma das reuniões do Grupo de Acessibilidade foram convidados alguns gestores para participarem de uma discussão sobre empregabilidade de pessoas com deficiência. Marcamos a reunião com um mês de antecedência, com horário de início para às 13h. Esperamos até 14:30h e nenhum dos convidados apareceu. Resolvemos ligar para saber o motivo das ausências, quando uma das secretárias comunicou que os gestores estavam em um evento muito importante. Reclamei que deveriam ter avisado e que muita gente estava esperando aquela reunião, pessoas com todas as deficiências e tiveram dificuldades de se deslocar até a Secretaria. Foi quando a secretária, que displicentemente não tampou a entrada de voz do telefone, proferiu a seguinte frase: “O João está lá, com um bando de cegos e aleijados”. Aproveitamos o momento da reunião e a ausência dos gestores e colocamos a referida frase como objeto de estudos do Grupo de Acessibilidade.

Passaram-se sete anos desde o lançamento do Projeto de Acessibilidade em 2004, que antecedeu a criação do Laboratório de Inclusão da STDS (atual SPS). Todas as deficiências foram incluídas, em todas as funções, como previa o Projeto de Inclusão Qualitativa. Assistimos a uma apresentação de balé de cadeiras de rodas. Foi emocionante ver aquelas meninas em suas cadeiras de rodas em cenas fortes de dedicação, arte e superação. No trabalho de inclusão de pessoas com deficiência é essencial conservar e evoluir o nível de emoções dos sentimentos de simplicidade e generosidade. Naquele momento, novamente, escutamos a voz dos preconceitos: “Onde tu vê dança e arte nestas meninas aleijadas?” vindas de uma das pessoas estudadas e observadas pelo Laboratório de Inclusão, desde 2004. Mesmo com tantos momentos ricos de vivências, cursos de conscientização, apresentações, seminários e o convívio com trabalhadores com suas diferenças, não foi possível mudar aquela pessoa e tantas outras que continuam expressando em suas palavras e ações a violência dos preconceitos. Surge então a pergunta: Preconceito tem cura?

Em destaque, para reflexão, a relação de algumas frases pronunciadas no período de implantação do projeto de Inclusão Qualitativa, que serviram para diagnosticar focos de resistência à inclusão de pessoas com deficiência: “Você está louco em colocar uma estudante de serviço social cega para estagiar! Como ela vai fazer estudo de caso ou visita domiciliar?”; “Além de cego, é aleijado!”; “Como colocar um lesado para trabalhar na cozinha?”; “Como você vai conseguir trabalhar com velhos, mijados, cagados e fedorentos?”; “Ainda bem que aquela cadeirante é bonitinha.”; “Minha filha não é deficiente, é inteligente.”; “Estes deficientes só chegaram para atrapalhar.”; “Mande apenas pessoas com deficiência leve. Não pode ser cadeirante, cego, surdo… Temos que cumprir a cota”.

Quando eu chegava com o Grupo de Acessibilidade, das apresentações externas, alguém comentava: “Lá vem o aleijado com os aleijados dele”. Todos os autores destas frases foram identificados para serem estudados pelo Laboratório de Inclusão.

Lembro das palavras da ex-deputada e Juíza Denise Frossard, em 2006, ao rejeitar o projeto de lei que considera crime discriminar deficientes físicos: “A deformidade física fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana.”

O enfrentamento e o convívio com o preconceito, por parte das pessoas com deficiência, envolve um nível de aceitação e consciência de acordo com as memórias de cada um. Como somos diferentes, temos formas de expressões e reações diferentes. Alguns pontos se tornam essenciais ao enfrentamento dos preconceitos humanos: 1. Assumir a própria deficiência sem medo e vergonha. 2. Entender que a deficiência do preconceito é bem maior e pior que a sua. 3. A deficiência ou diferença é uma característica humana. 4. A aceitação de si mesmo deve ser mais forte do que o preconceito. 5. Não permita que as pessoas com preconceito impeçam você de viver. A vida é sua e você deve vivê-la com dignidade e liberdade.

Por uma pessoa ter uma deficiência não significa não ser preconceituosa. A característica de ser preconceituosa está ligada à condição do próprio comportamento, do que aprendeu como valores sociais, dentro de sua trajetória de vida. Uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, pode ser racista mesmo sem poder enxergar a cor da pele de uma outra pessoa, basta saber que aquela pessoa é negra para expressar sua condição de racista. Qualquer tipo de deficiência ou diferença pode se incorporar à uma condição de ser preconceituoso.

No processo de inclusão das pessoas com deficiência identificamos dois pontos que podem ajudar e organizar as estratégias de combate aos preconceitos, na sustentabilidade de projetos, seus parceiros e seus adversários. 1. O preconceito cresce ou se expande quando deixamos ele se expressar sem contestação. 2. Quando identificamos oficialmente o foco ou as pessoas com preconceito, ele se retrai ou se torna vulnerável.

Em um dos encontros do Grupo de Acessibilidade, foi feito uma pergunta aos participantes, todos com um tipo de deficiência: “Você é capaz de identificar nominalmente as pessoas que lhe tratam com preconceito, dentro da família, entre os amigos, na escola ou faculdade e no ambiente de trabalho?” A resposta um unânime “sim”. Tudo fica mais compreensível quando sentimos na própria pele.

A neutralização dos focos de preconceito não identifica a sua eliminação, por que é temporário, como um silêncio aparente. Muitas pessoas estudadas e pesquisadas pelo Laboratório de Inclusão tiveram vergonha de admitir serem preconceituosas, mas tiveram facilidades em expressar o preconceito, através de atitudes de indiferença e exclusão. Acham “bonitinhas” as pessoas com Síndrome Down, ou sentem pena. Outro dia incluímos um trabalhador com Síndrome de Down como auxiliar de lanchonete. Ele fazia entregas nas salas. Uma funcionária comentou com a equipe do Laboratório: “Achei lindo aquele menino com Síndrome de Down fazendo entregas nas salas”. Perguntei se ela aceitaria um adolescente com a mesma síndrome como estagiário em seu setor. Foi quando ela respondeu com rapidez: “Vixe, lá na nossa sala? É complicado, não temos tempo de acompanhar, acho melhor você procurar outro setor…”

Passei três anos me comunicando profissionalmente com uma gestora de outra secretaria por telefone. Ela sempre me tratava bem, tirando dúvidas, facilitando os trabalhos. Mas, um dia, participamos de uma mesma reunião e ela me viu andando com as sequelas de poliomielite. A partir daquele momento ela passou a me tratar com indiferença, às vezes com grosserias ou irritabilidade.

É preciso entender o que se passa na mente, no sentimento da pessoa que pratica o preconceito. As pessoas observadas pelo Laboratório, com verbalizações a atitudes de preconceito, foram relacionadas e são acompanhadas e avaliadas como objetos de estudos na elaboração de estratégias de combate aos preconceitos. Constatamos que elas não mantêm um bom relacionamento interpessoal, nem no ambiente profissional nem no familiar. Relatamos que elas expressam arrogância e autossuficiência, agressividade nas palavras e, dependendo das características e nível dos sentimentos, podem ser agressivas fisicamente, o que é mais comum na homofobia.

O Laboratório de Inclusão é rotulado pelas interpretações externas, com uma carga forte de preconceitos, por representar os níveis inversos do padrão exigido de “perfeição” humana. Estas interpretações atingem, muitas vezes, alguns projetos que poderiam ter um tempo de resultados bem mais curto. O preconceito velado, que se esconde por trás do artificialismo do comportamento, carrega uma disfuncionalidade capaz de retardar a evolução de muitos projetos, danificando, irreversivelmente, destinos humanos.

Nos estudos do Laboratório verificamos a diversidade dos preconceitos. Uma pessoa é submetida a várias avaliações: O formato de seu corpo, a maneira de andar, o tom da voz, a textura da pele, o tipo de cabelo, a fisionomia do rosto, a maneira de se vestir, a maneira com que fala, se perdeu algum sentido (visão, audição, mobilidade, cognitivo)… são as existências do padrão do ser humano perfeito. A valorização da aparência ou mobilidade de um corpo humano reflete as simbologias criadas como modelos de perfeição.

Ter preconceito é também uma característica humana neste modelo de sociedade que vivemos, como também ter uma deficiência. Como são opostos, ter uma deficiência não impede nem o homem nem o mundo de evoluírem, mas o preconceito retarda a evolução da vida, como elemento destruidor e desnecessário. Assim, dentro da ideia do surgimento e desenvolvimento de um novo modelo de sociedade, poderiam considerar “deficiências humanas” apenas de comportamentos preconceituosos e violentos.

Na inclusão de pessoas com deficiência avaliamos as pessoas com preconceito em três categorias: Aqueles que assumem abertamente ser preconceituosos; Aqueles que não assumem ser preconceituosas, mas expressam com facilidades ter preconceito; Aqueles que têm pena de quem tem deficiência, mas mantém a convicção de que eles são inferiores.

Ser preconceituoso pode até não ter cura, em alguns casos, mesmo com a ajuda da ciência, mas temos que pensar em outro tipo de ser humano, de sociedade, começando por nós mesmos, multiplicando a ideia de um mundo onde a diversidade humana possa conviver em harmonia. Isto vai ser possível um dia? É bom começar não tendo medo de enfrentar os vilões que mantêm as invisibilidades humanas…

“Voltem para a Alemanha e façam com que isso não aconteça de novo!”

por Yanelvis Duret
intercambista alemã da UFC e estagiária do Laboratório de Inclusão

campo concentração

O fascismo está tomando conta de largas camadas da população brasileira. Ao escutar pessoas defender posições racistas, homofóbicas, sexistas e expressar um sentimento de superioridade, sinto uma grande indignação.

Depois de visitar três campos de concentração na Polônia, na França e na Alemanha e ter me jurado que o terceiro seria o último, considero mais importante do que nunca relembrar e relatar minhas experiências nessas “viagens” que mudaram minha percepção do papel que eu quero desenvolver na sociedade e me ajudaram na construção da minha identidade.

No ano de 2007 fiz uma viagem de estudos com o grupo da igreja da minha comunidade, onde eu era voluntária, para a cidade Auschwitz, na Polônia, onde se encontra o campo de concentração nazista mais conhecido. Nesse campo de concentração morreram mais de um milhão de pessoas, 90% deles judeus.

Eu tinha feito 17 anos e conhecia o passado da Alemanha, pelo menos sabia o que tinha aprendido nas aulas de História, porém, nunca antes tinha parado para pensar e refletir sobre o fato de que o fascismo tinha matado milhões de pessoas sistematicamente.

A viagem começou com uma visita no campo de concentração de Auschwitz, onde nós tivemos a possibilidade de ver os alojamentos e as câmeras de gás. Assim que entrei nesse lugar, eu senti a morte e a dor no ar. Segundo o guia explicava os métodos de extermínio, como as pessoas eram asfixiada, crianças utilizadas para experimentos médicos cruéis e macabros, resultava quase impossível para eu conter as lágrimas. Perto daquele campo de concentração, se encontrava Birkenau, também conhecido como Auschwitz II. Quando os judeus chegavam na Polônia, trazidos de todas partes da Europa, Birkenau era a primeira estação. Andando pelo campo, chegamos num lago. A terra estava molhada e mole, cheia de minúsculas pedras brancas. Nesse momento, o guia explicou que naquele ano tinha chovido tanto que a terra havia se movido. Aquelas partículas brancas eram resquícios das cinzas dos corpos cremados que os nazistas jogavam no lago. Esse chão, de repente, ganhou uma outra simbologia; eu senti que andava sobre cadáveres, senti vergonha. Pela primeira vez senti raiva e vergonha da humanidade.

Durante aqueles 7 dias me invadiu uma tristeza inexplicável. Eu não conseguia entender como o ódio, o preconceito e a supremacia podiam chegar ao extremo de realmente “acabar com uma ‘raça‘”.

O clímax da viagem foi o encontro com uma das pessoas que marcaram a minha vida: Kasimiersz Smoleń, aquele, então, um dos últimos sobreviventes do Holocausto, falecido em 2012. Kasimiersz Smoleń havia sido prisioneiro político de Auschwitz por formar parte da resistência polonesa. Numa roda de conversa, tivemos a oportunidade de escutar seu ponto de vista e lhe fazer perguntas. Ele afirmou que não sentia nem ódio nem rancor e à pergunta sobre a nossa responsabilidade como jovens alemães e o que nós poderíamos fazer, ele respondeu que a nossa responsabilidade era não repetir a história. “Voltem para a Alemanha e façam com que isso não aconteça de novo“, ele disse. Eu recebi essas palavras como as palavras de um profeta. Eu, que até então tinha me sentido cubana, membro importante da sociedade alemã sim, mas sempre cubana, pela primeira vez me senti alemã. Imediatamente, eu absorvi a culpa do passado e assumi a responsabilidade do presente, de fazer parte de uma geração de alemães que lutam para não permitir que a história se repita de jeito nenhum.

Já na Alemanha, dediquei grande parte do meu tempo como estudante ao trabalho contra o racismo e a discriminação, trabalhando com a comunidade judia e reforçando a memória do passado alemão.

Além de Auschwitz, visitei mais dois campos de concentração: Natzweiler, na França e Buchenwald, no leste da Alemanha.

Depois de ver montanhas de cabelos humanos, usados para fazer tapetes, as câmeras onde as pessoas eram asfixiadas, os fornos onde seus corpos eram cremados. Depois de ver as cinzas de homens, mulheres e crianças que foram mortos por causa da sua religião, sua identidade racial ou cultural, por causa de uma deficiência o sua orientação sexual e política e passar literalmente os restos dessas pessoas, entendi finalmente os trechos do poema Fuga da morte de Paul Celan: “Cavamos um túmulo nos ares, lá não se jaz apertado”.

Eu entendi que fascismo mata, extermina. E me comprometi como cubana, alemã e cidadã do mundo que sou, a denunciar e combater os atos e ideais que violentam a dignidade humana, não só na Alemanha, mas em qualquer lugar que for necessário.

A visão de um cadeirante no Estádio Presidente Vargas – Fortaleza (CE)

Existe o Decreto nº 12.916, de 1999, do estado do Ceará, que dispõe sobre as normas de adaptação de prédios de uso público, a fim de assegurar o acesso adequado às pessoas com deficiência. O Estádio Presidente Vargas, em Fortaleza (CE), de responsabilidade da Prefeitura Municipal de Fortaleza, deveria estar dentro das normas estabelecidas por este Decreto, mas o vídeo, feito por um membro do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social, demonstra a falta de acessibilidade para o público com deficiência. Precisamos cobrar o cumprimento da Lei para dar continuidade às políticas públicas de inclusão de pessoas com deficiência, e os órgãos públicos devem dar o bom exemplo.

É preciso ampliarmos nossos conceitos acerca da inclusão. Ter acessibilidade não é simplesmente ter uma rampa ou um local reservado para pessoas com mobilidade reduzida. A acessibilidade também passa por questões práticas, funcionais e cotidianas. Um estádio ter um local reservado para cadeirantes, mas sem que esse local tenha uma visão adequada do campo ou um espaço apropriado para a locomoção com a cadeira de rodas, isso não é ser acessível. Os órgãos públicos, acima de todas as instituições, devem ser os precursores de um espaço de fato público, efetivamente acessível para todos, validando, assim, nosso espírito democrático e social.

“Lá vem o aleijado com os aleijados dele”.

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Esta frase do título deste texto foi dita por uma funcionária da STDS, quando eu ia chegando de uma apresentação externa, com o Grupo de Acessibilidade, na sede da Secretaria. Uma frase forte, mas não foi suficiente para impedir que os projetos de inclusão de pessoas com deficiência e vulnerabilidade social fossem desenvolvidos com sucesso. O preconceito pode ser forte, mas, para combatê-lo, é preciso ser mais forte do que ele.

A inclusão de pessoas com deficiência, na STDS, teve início oficialmente em 2004, com a criação do Grupo de Acessibilidade. Um projeto que preenchia as cotas de pessoas com deficiência, nas vagas de colaboradores terceirizados. Um momento de muitos estudos, principalmente na observação do público interno, para saber os níveis de preconceitos e como seriam efetuadas as inclusões.

Na época, foi formado um grupo de estudos, interdisciplinar, com a participação de técnicos da STDS, estagiários universitários e algumas universidades conveniadas. Foi um ano de muitos estudos e pesquisas. Uma preparação do ambiente interno para a inclusão de 50 trabalhadores, com todas as deficiências e em todas as funções da STDS.

Identificamos, nos estudos e observações, 50 pessoas na STDS com níveis de preconceitos elevados, suas lotações e funções. Eram funcionários e alguns gestores. Conhecer e entender o ambiente físico e humano da STDS foi fundamental para o sucesso do preenchimento das vagas. Chegamos a incluir 107 pessoas com deficiências na STDS, entre estudantes universitários, estagiários do Projeto Primeiro Passo e colaboradores. Foi um processo seletivo rigoroso, mas, com o conhecimento interno, as lotações foram realizadas com muito planejamento.

O preconceito foi, e ainda é, a maior barreira na inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Na época de 2004, concluímos que seria demorado e complexo tentar mudar a cabeça das pessoas identificadas resistentes às inclusões dentro da STDS. Então, resolvemos planejar neutralizá-las. Como foi possível?! A estratégia foi a criação de um Laboratório de Inclusão, dentro da STDS, que desenvolvesse projetos fortes e consistentes de inclusão de pessoas com deficiência e vulnerabilidade social. As pessoas identificadas como preconceituosas seriam neutralizadas com as práticas constantes de combate aos preconceitos, através de grupos de estudos, oficinas e conscientização da importância do convívio harmonioso com a diversidade humana e aumento dos níveis de relacionamentos interpessoais.

Quando neutralizamos o preconceito, ele não deixa de existir, apenas fica velado, escondido, aparentemente silencioso, principalmente dentro do ambiente de trabalho. Ninguém vai ter a coragem de oficializar ser racista, homofóbico ou ter preconceito contra pessoas com deficiência no ambiente de trabalho. Preconceito velado é difícil de combater e identificar, porque, quem tem, diz que não tem. Mas como a neutralização provoca medo em quem tem preconceito, ele se torna fraco o suficiente para que as inclusões sociais possam se realizar sem interferências relevantes.

Hoje, depois de 14 anos, uma parte destas 50 pessoas já se aposentou, mas o preconceito não acabou, nem diminuiu. Não é um problema exclusivo da STDS, mas de todo o Brasil. É visível as expressões de racismo, homofobia e sexismo nas redes sociais. O preconceito contra pessoas com deficiência carrega pena, nojo, fragilidade e inferioridade; uma cultura nociva à evolução humana. Lembro do parecer e definição preconceituosa e violenta, nas palavras da ex-deputada e juíza Denise Frossad, sobre pessoas com deficiência: “A deformidade física fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana”. Palavras fortes que definem a estrutura regressiva, forte e cruel de um preconceito.

O Laboratório de Inclusão sobrevive, dentro de uma secretaria pública, que, como tantas outras, são reflexo de um país onde as práticas de preconceitos não dão trégua. É uma luta que parece não ter fim. Sabemos que foram muitas conquistas, muitos destinos evoluídos, mas o que preocupa, é que, mesmo com tantos avanços, projetos implantados, e tantas pessoas incluídas, as práticas de preconceitos não diminuíram, como uma praga que passa de geração a geração.

Com o aumento dos preconceitos, aumentam também as dificuldades de inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, afetando diretamente, todas as práticas de políticas públicas direcionadas a inclusão social. A crise política é também uma crise de caráter, de cultura e de educação. Difícil tentar mudar uma STDS, se o país também não muda, as pessoas não melhoram, a vida não melhora. É como passar horas construindo um castelo de areia, e alguém passa e chuta destruindo, então você tem que começar tudo de novo.

Estudar a personalidade de uma pessoa que tem ódio às outras, por terem uma deficiência ou serem diferentes, é um trabalho longo e, muitas vezes, desgastante. Mas precisamos continuar fortes, sem medo e tentado não desistir. Desistir é como morrer ou matar um sonho, uma luta ou muitas vidas…

Como conviver, entender e aceitar pessoas homossexuais

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Vencer os preconceitos é priorizar a necessidade da evolução humana. A criação de sociedades inclusivas pode acender a esperança de que, no futuro, teremos mais equilíbrio do que preconceitos.

O preconceito humano é diversificado, mas separar homofobia de outros tipos de preconceitos é uma grande ilusão. A diversidade faz parte da natureza humana e a melhor maneira de conviver em harmonia com pessoas homoafetivas é entender que esta diversidade é essencialmente natural, é vencer os próprios preconceitos. Ninguém escolhe ser homoafetivo para ser discriminado e odiado gratuitamente uma vida inteira. Mas ter preconceito é uma escolha que pode ser superada e desconstruída.

A desinformação e as interpretações precipitadas colaboram com a multiplicação dos preconceitos. Quando os preconceitos são permitidos nas atitudes e na construção da própria personalidade, então a lei tem que compensar e ser cumprida para amenizar os efeitos nocivos dos preconceitos. A impunidade de quem pratica preconceito colabora na manutenção e crescimento de uma sociedade conflitante. A lei não foi feita somente para punir, mas educar também na intenção de que aquela pessoa que praticou homofobia tenha a oportunidade de aprender a conviver com a diversidade humana. Nenhuma sociedade evolui cultivando e propagando preconceitos. Então a homoafetividade precisa ser entendida e aceita por uma questão de evolução social.

A homofobia sobrevive também pelo ódio e pela violência. No Brasil, a cada hora é registrado um caso de violência contra homossexuais. Os jovens são as principais vítimas, sendo agredidos ou assassinados quando identificados pela aparência. O combate à homofobia é complexo porque envolve mudanças no comportamento humano e nas culturas de exclusão. Os homossexuais ainda são uma população invisível e vulnerável à violência. Lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais fazem parte de uma diversidade humana. Quando são excluídos e discriminados, provocam um rompimento com o equilíbrio e harmonia social. Sociedades excludentes tendem a provocar desequilíbrio social quando rotulam pessoas e retardam a evolução humana.

A tentativa da “cura gay” é um fracasso, pois vai de encontro com a característica humana de ser diferente. Além de ser mais uma tentativa desesperada de oficializar a homofobia. A diversidade não pode ser considerada uma doença. Quando dogmas religiosos e ideologias fascistas se misturam com baixos níveis de consciência, demonstram, claramente, que esta sociedade é que está gravemente doente. É mais cômodo e, aparentemente, mais fácil conservar e criar dogmas regressivos do que promover e combater preconceitos e progredir humanamente.

Evoluímos pouquíssimo ao longo da nossa história, mesmo depois de tantas guerras e tragédias que destruíram inúmeras vidas. É claro que, este modelo de sociedade preconceituosa, excludente e violenta que se multiplicou, não tem provocado paz nem equilíbrio. Por quê? Porque comportamento e relacionamento humano em equilíbrio costumam ser deixados em segundo plano, não sendo prioridades na formação das ideologias e sociedades. Preocuparam-se mais com poderes, vaidades e egoísmos presentes nas interpretações. Quantas ideologias já foram escritas e implantadas? Várias. Mas nenhuma contemplou o essencial do convívio harmonioso que é o respeito à diversidade humana e a inclusão de suas diferenças.

A existência de homossexuais incomoda mais do que a violência? Infelizmente, sim. Quando uma cena de um casal homoafetivo se beijando choca a opinião pública de um país mais que fome, pedofilia, corrupção, estupro, racismo e assassinatos bárbaros, é um forte sinal de que este país está se preocupando mais em ter e preservar seus preconceitos e dogmas do que combatê-los. Ainda estamos muito longe da formação de uma sociedade evoluída, em equilíbrio e sem preconceitos.

A importância de amigos no meu processo de inclusão

por Danielle Cardoso
estagiária de Letras do Laboratório de Inclusão

acessibilidade

Eu já passei por todos os estágios de escolarização e o que pude observar é que, em todos, meus amigos foram muito importantes para a minha inclusão. Não sou de ter muitos amigos, mas os que tenho, valem a pena. Logo, na maioria das vezes, uma única pessoa se aproxima de mim (sim, se não se aproximar, eu não me aproximo) e começa a me ajudar. O que acontece é que os amigos dessa pessoa aprendem com ela a se relacionarem comigo. Assim, em pouco tempo, tenho uma rede de amigos com os quais eu posso contar em qualquer situação.

Apesar de muitas pessoas se afastarem de mim por causa dos meus movimentos e dificuldades de falar, eu sempre fiz parte de grupinhos nas escolas que estudei. A curiosidade dos meus amigos de me conhecerem melhor quebrava muitos preconceitos. Eu gosto de brincar e quem me conhece sabe que sou bem extrovertida e espontânea, embora, à primeira vista, não pareça. O que é engraçado lembrar é que sempre fui muito “mandona”, então, eu acabava sendo a líder do grupinho que fazia parte.

Dessa forma, eu conquistava (e conquisto) meu lugar no mundo. Muitas vezes, meus amigos me defendiam até de professores que não ficavam muito satisfeitos em lidar comigo. E, olha, eu não era fácil, aprontava cada uma. Já briguei para me defender e tive o apoio dos meus amigos. Enfim, sou na minha, mas não pisa no meu calo. Acho que essa honestidade que assumi de ser eu mesma me ajudou bastante, pois, quando meus amigos percebem que trato minha deficiência como um mero detalhe, tudo fica mais simples e mais “normal”.

Na faculdade não foi diferente. Quando minha mãe deixou de me acompanhar, um cara se aproximou de mim e logo virou meu amigo. Durante algum tempo, eu contei só com ele para muita coisa. Acontece que ele me apresentava para os amigos dele e, logo, todo mundo me conhecia. O legal é que muita gente aprendeu com ele a empurrar minha cadeira de rodas, por exemplo. E foi passando a outras pessoas. Hoje, depois de cinco anos, ainda tenho amigos que se orgulham em dizer que observaram como os outros conseguem ultrapassar os obstáculos para também poderem me ajudar.

É sempre bom lembrar que ajudar é uma coisa e considerar a pessoa com deficiência incapaz é outra. Não gosto que me superprotejam, isso me sufoca. Ajudar um amigo espontaneamente não é nenhuma caridade. E, se você quiser fazer caridade, procure lugares com pessoas que realmente precisam disso. Só quero perto de mim quem acha natural ajudar uma amiga cadeirante. Quem sabe brincar, tem senso de humor e sabia conversar. Gente que não se acha superior a ninguém e aceita a diversidade de cada um.

Descobri que ter amizades assim é o maior bem que posso ter. Agradeço meus amigos que sempre me aceitaram como eu sou e foram companheiros quando mais precisei. E, sim, podem zoar comigo, desde que você tenha intimidade para isso. Brincadeira entre amigos não tem nada de errado. Errado é quando a pessoa não gosta da brincadeira e você continua. Para essas situações o melhor é ter sensibilidade para perceber que errou e pedir desculpas. Ter amigos é bem melhor do que ter dinheiro. Espero que você tenha amigos de verdade. Até a próxima!

Inclusão na prática

por Danielle Cardoso
estagiária de Letras do Laboratório de Inclusão

inclusão

Inclusão. Palavra simples, mas bem difícil de pôr em prática. Em toda minha vida, mesmo não percebendo, lutei por inclusão e acessibilidade em todos os aspectos. Depois que entrei na faculdade, vi que não estava sozinha nessa luta e que existem movimentos sociais em prol da causa. O único problema é que existem pessoas que acreditam que só falar em inclusão basta e não é assim. Inclusão deve ser praticada em todos os lugares e a toda hora. Não é tarefa fácil, mas não podemos correr o risco de deixar essa palavra apenas no discurso.

É certo que o discurso também é ação e sensibilizar as pessoas da importância de se incluir é maravilhoso, mas já não é o suficiente. Ainda é preciso informar que existem leis que resguardam os direitos das pessoas com deficiência, porém é urgente colocar em prática essas leis. Sei que você deve estar se perguntando: “Mas a inclusão já não é praticada?”, e eu te respondo: sim, estamos tentando praticar essa inclusão, principalmente, no âmbito escolar. O problema é que ainda falta muito e pessoas que falam, falam e, no fundo, não dizem nada, atrapalham o avanço dessa questão.

Não adianta algumas faculdades e universidades terem projetos de inclusão e acessibilidade se estes não proporcionarem ações efetivas de inclusão. De nada serve ser coordenador(a) de um desses projetos se você não conhece as pessoas que precisam deles. Conhecer as demandas do público que você quer atender é fundamental para qualquer líder de qualquer projeto tenha sucesso. Isso serve para qualquer lugar: empresas e sociedade em geral.

No começo do meu curso superior, várias pessoas vieram com um discurso muito bonito de que eu tinha direito de estudar e a UECE deveria se adaptar para me receber. Tiraram fotos comigo e tudo mais, mas tudo isso ficou no plano do discurso. Eu era ingênua, ainda não sabia diferenciar quem realmente queria ajudar de quem só queria se promover. E poucos foram aqueles que me ajudaram de verdade. Falar em inclusão é fácil, difícil é ter responsabilidade e fazer acontecer. Se não fosse minha teimosia em permanecer na universidade, eu teria desistido, com certeza.

Palavra não mudam o mundo, atitudes, sim. As palavras apenas encorajam pessoas a terem atitudes para vivermos em paz e em harmonia. É esse o maior objetivo dos meus textos postados aqui no blog. Procuro trazer toda a minha experiência com inclusão e acessibilidade para que, quem ler, possa mudar de atitude. Quero informar pais, professores, estudantes de que, sim, a prática da inclusão é possível e sou prova viva disso. Sei que muitos leem e em nada mudam. Nesse caso, a responsabilidade não é mais minha.

Hoje, sei que incluir requer tempo e esforço. Que ações inclusivas não são realizadas do dia para noite, por isso desconfio de dois tipos de pessoas: as que reclamam demais da falta de acessibilidade de um lugar, mas não fazem nada para mudar tal situação, e as que se animam muito para fazer uma ação de conscientização, seja onde for, mas desistem antes de começar. Praticar inclusão e acessibilidade não é fácil, por isso vamos ter comprometimento e articulação, para que não fiquemos só na falação. Até a próxima!