Arquivo da categoria: Direitos Humanos

O malefício diário de estereótipos de masculinidade

por Sofia Guimarães
estagiária de psicologia do Laboratório de Inclusão

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Recentemente, em um grupo universitário de estudos, foi pedido que criássemos uma pessoa fictícia no quadro, desenhando-a e pontuando suas características pessoais (nome, idade, estado civil, se estuda e/ou trabalha, história familiar, aspectos da personalidade, hobbies, orientação sexual etc). Formados os dois grupos, cada um escolheria duas identidades de gênero diferentes. Pois bem, tal convite faço agora a você, para que imagine duas pessoas, um do gênero masculino e a outra do feminino: Como elas são fisicamente? O que gostam de fazer? Com quem se relacionam? Onde moram? – depois, nomeie cada um, como desejar. Pronto? Agora, peço que troque as identidades de cada: o gênero que você colocou para a primeira será o da segunda pessoa. E então, o que você diria sobre os atuais? Seria possível essas novas pessoas continuarem existindo com as características inseridas anteriormente? – É válida a reflexão, pois, de fato, ser homem e ser mulher carrega tamanha padronização social, quando, na verdade, não se trata de um olhar para o sexo biológico de nascença, mas como, enquanto pessoa, ela subjetivamente se identifica. Realmente, falar de estereótipos masculinos remete, também, aos padrões sociais impostos às mulheres, como normas que ditam o que é ser feminina e o que compete, ou não, a cada gênero fazer e ser.

A partir da leitura da matéria “Como estereótipos de masculinidade afetam a vida e a saúde dos homens”, da Revista Galileu, sob autoria de Nathan Fernandes e publicada em agosto deste ano, tem-se uma recente pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) que alerta: “na média mundial, os homens têm menor expectativa de vida, e sob uma análise de 41 países europeus, esse problema é mais grave em locais cujos indicadores socioeconômicos são menos equilibrados entre homens e mulheres, pois eles são mais propensos ao tabagismo, alcoolismo, dieta não saudável e violência.” Diferente de morar em um país com igualdade de gênero, em que os benefícios à saúde e bem-estar do homem são: “menores taxas de mortalidade, metade do risco de depressão, maior chance de fazer sexo com proteção, menores taxas de suicídio e 40% a menos de risco de morrer de forma violenta”, destacam os pesquisadores. Além de que, no Brasil, a maioria dos usuários dos serviços de saúde são as mulheres, enquanto os únicos serviços em que os homens prevalecem em número são os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), voltados à saúde mental e ao abuso de álcool e outras drogas.

Como um dos entrevistados afirma: “aceitar a sensibilidade masculina é uma provocação nova, e é bacana a gente reconsiderar valores. O rosa é uma cor bonita, usar saia é confortável, chorar é um alívio… São coisas naturais, mas que, por conta de conceitos engessados, a gente não se permite sentir, e isso faz mal para nós mesmos. Por uma construção colonial, a gente foi condicionado ao serviço braçal, à virilidade. A gente tem que ser forte, tem que ser insensível, mesmo que isso nos afete” (SIC). Além disso, os meios de socialização masculinos são muito mais pobres em relação aos das mulheres, em que são comuns conversas sobre frustrações e angústias, como explica um psicólogo convidado: “o ato de falar é um ato de elaboração; quando você fala a coisa passa a existir. Mas a maioria dos homens não falam de sentimentos, eles não elaboram. Aí quando vão discutir com as mulheres, elas os deixam no chinelo, porque provavelmente já conversaram sobre o assunto. A violência, que não é só física, passa a ser um último recurso, e os homens usam a agressividade como forma de proteção” (SIC). E isso é bem grave.

Portanto, com essa síntese espero que este texto possa ser o pontapé inicial para a reflexão e abertura a debates construtivos, pois precisamos falar do quão adoecedor é enquadrar o sujeito em um padrão subjetivo que não o pertence espontaneamente, que o sufoca, o desconfigura e o distingue da sua real essência, seja ele de qual identidade de gênero for. É como contém na matéria: “socialmente, o patriarcado e o machismo facilitam a vida do homem, mas geram uma série de angústias e um sentimento de confusão”. Por uma sociedade com equidade, sem códigos de barras nem taxas nominativas de enquadramento supérfluo: somos pessoas, não reféns de rótulos.

A nudez dos preconceitos: O que aprendemos e evoluímos entre STDS e SPS?

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Diante de tantos redesenhos, mudanças de gestões e governos, o Laboratório de Inclusão sobrevive e resiste, nesses 28 anos, enfrentando o seu maior vilão: o preconceito. Este texto foi escrito e publicado em 2011, com o título original, “A nudez dos preconceitos. ‘O João está lá, com um bando de cegos e aleijados’”. Agora republicamos, como outra reflexão, de memórias e conquistas, em um momento de crise política e ideológica no Brasil.

Os estudos referentes às origens e consequências dos preconceitos humanos reforçam a ideia de uma sociedade doente, incoerente, desigual, violenta e preconceituosa. Pensando na diversidade dos preconceitos, desde o deficientismo, racismo, xenofobia, homofobia… Observa-se que as expressões humanas vêm dos próprios sentimentos, das sensações, das atitudes, das escolhas, dos modelos criados e propagados ao longo da nossa História.

O preconceito se estabelece como forma de sentimento ou prática rotineira. Pessoas preconceituosas têm a convicção de que as pessoas com deficiência são espécie inferiorizada. Entre ser inferiorizada e ser inferior existe uma diferença de interpretação e significado, mas consequências das desigualdades sociais. Pelo preconceito, as pessoas com deficiência devem ser tratadas como inferiores e inferiorizadas. Este tratamento, promovido pelo sentimento do preconceito, retrata uma condição de comportamento de não aceitar as diferenças como características humanas, ou a aceitação dos modelos pré-estabelecidos de ser humano perfeito. As teorias de perfeição já causaram grandes estragos na humanidade. O modelo de ser humano perfeito envolve um corpo perfeito, beleza facial, que podem também serem anexados a outras exigências como as condições financeiras ou status social.

A vulgarização da dita perfeição humana, como apoio de sustentação dos preconceitos, torna possível a teoria de que a sociedade precisa de mais equilíbrio do que de perfeição. Promovemos a inclusão de uma pessoa com deficiência pelo equilíbrio, pelo combate às desigualdades sociais, às deturpações de valores. É o equilíbrio que pode promover a aceitação das diferenças humanas como essenciais evolução e não a perfeição.

Com a formação do Grupo de estudos e Apoio à Acessibilidade Humana, em 2004, não foi difícil detectar os focos de preconceitos dentro e fora da ex-Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social – STDS (atual Secretaria de Proteção Social, Justiça, Mulheres e Direitos Humanos – SPS). Ficou claro também, nas avaliações das pesquisas, que nenhuma pessoa observada e entrevistada admitiu ter preconceito, mas nas atitudes do dia a dia não tiveram dificuldades de expressar essa ação.

As expressões humanas envolvem também a dualidade de atitudes. Quando deparamos com atitudes de preconceito, essa dualidade é claramente visível. Em 28 anos estudando e combatendo preconceitos, muitos exemplos de atitudes preconceituosas foram colhidas pelo Laboratório e serviram de material de estudos. Um dos casos mais famosos aconteceu em 2007. Em uma das reuniões do Grupo de Acessibilidade foram convidados alguns gestores para participarem de uma discussão sobre empregabilidade de pessoas com deficiência. Marcamos a reunião com um mês de antecedência, com horário de início para às 13h. Esperamos até 14:30h e nenhum dos convidados apareceu. Resolvemos ligar para saber o motivo das ausências, quando uma das secretárias comunicou que os gestores estavam em um evento muito importante. Reclamei que deveriam ter avisado e que muita gente estava esperando aquela reunião, pessoas com todas as deficiências e tiveram dificuldades de se deslocar até a Secretaria. Foi quando a secretária, que displicentemente não tampou a entrada de voz do telefone, proferiu a seguinte frase: “O João está lá, com um bando de cegos e aleijados”. Aproveitamos o momento da reunião e a ausência dos gestores e colocamos a referida frase como objeto de estudos do Grupo de Acessibilidade.

Passaram-se sete anos desde o lançamento do Projeto de Acessibilidade em 2004, que antecedeu a criação do Laboratório de Inclusão da STDS (atual SPS). Todas as deficiências foram incluídas, em todas as funções, como previa o Projeto de Inclusão Qualitativa. Assistimos a uma apresentação de balé de cadeiras de rodas. Foi emocionante ver aquelas meninas em suas cadeiras de rodas em cenas fortes de dedicação, arte e superação. No trabalho de inclusão de pessoas com deficiência é essencial conservar e evoluir o nível de emoções dos sentimentos de simplicidade e generosidade. Naquele momento, novamente, escutamos a voz dos preconceitos: “Onde tu vê dança e arte nestas meninas aleijadas?” vindas de uma das pessoas estudadas e observadas pelo Laboratório de Inclusão, desde 2004. Mesmo com tantos momentos ricos de vivências, cursos de conscientização, apresentações, seminários e o convívio com trabalhadores com suas diferenças, não foi possível mudar aquela pessoa e tantas outras que continuam expressando em suas palavras e ações a violência dos preconceitos. Surge então a pergunta: Preconceito tem cura?

Em destaque, para reflexão, a relação de algumas frases pronunciadas no período de implantação do projeto de Inclusão Qualitativa, que serviram para diagnosticar focos de resistência à inclusão de pessoas com deficiência: “Você está louco em colocar uma estudante de serviço social cega para estagiar! Como ela vai fazer estudo de caso ou visita domiciliar?”; “Além de cego, é aleijado!”; “Como colocar um lesado para trabalhar na cozinha?”; “Como você vai conseguir trabalhar com velhos, mijados, cagados e fedorentos?”; “Ainda bem que aquela cadeirante é bonitinha.”; “Minha filha não é deficiente, é inteligente.”; “Estes deficientes só chegaram para atrapalhar.”; “Mande apenas pessoas com deficiência leve. Não pode ser cadeirante, cego, surdo… Temos que cumprir a cota”.

Quando eu chegava com o Grupo de Acessibilidade, das apresentações externas, alguém comentava: “Lá vem o aleijado com os aleijados dele”. Todos os autores destas frases foram identificados para serem estudados pelo Laboratório de Inclusão.

Lembro das palavras da ex-deputada e Juíza Denise Frossard, em 2006, ao rejeitar o projeto de lei que considera crime discriminar deficientes físicos: “A deformidade física fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana.”

O enfrentamento e o convívio com o preconceito, por parte das pessoas com deficiência, envolve um nível de aceitação e consciência de acordo com as memórias de cada um. Como somos diferentes, temos formas de expressões e reações diferentes. Alguns pontos se tornam essenciais ao enfrentamento dos preconceitos humanos: 1. Assumir a própria deficiência sem medo e vergonha. 2. Entender que a deficiência do preconceito é bem maior e pior que a sua. 3. A deficiência ou diferença é uma característica humana. 4. A aceitação de si mesmo deve ser mais forte do que o preconceito. 5. Não permita que as pessoas com preconceito impeçam você de viver. A vida é sua e você deve vivê-la com dignidade e liberdade.

Por uma pessoa ter uma deficiência não significa não ser preconceituosa. A característica de ser preconceituosa está ligada à condição do próprio comportamento, do que aprendeu como valores sociais, dentro de sua trajetória de vida. Uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, pode ser racista mesmo sem poder enxergar a cor da pele de uma outra pessoa, basta saber que aquela pessoa é negra para expressar sua condição de racista. Qualquer tipo de deficiência ou diferença pode se incorporar à uma condição de ser preconceituoso.

No processo de inclusão das pessoas com deficiência identificamos dois pontos que podem ajudar e organizar as estratégias de combate aos preconceitos, na sustentabilidade de projetos, seus parceiros e seus adversários. 1. O preconceito cresce ou se expande quando deixamos ele se expressar sem contestação. 2. Quando identificamos oficialmente o foco ou as pessoas com preconceito, ele se retrai ou se torna vulnerável.

Em um dos encontros do Grupo de Acessibilidade, foi feito uma pergunta aos participantes, todos com um tipo de deficiência: “Você é capaz de identificar nominalmente as pessoas que lhe tratam com preconceito, dentro da família, entre os amigos, na escola ou faculdade e no ambiente de trabalho?” A resposta um unânime “sim”. Tudo fica mais compreensível quando sentimos na própria pele.

A neutralização dos focos de preconceito não identifica a sua eliminação, por que é temporário, como um silêncio aparente. Muitas pessoas estudadas e pesquisadas pelo Laboratório de Inclusão tiveram vergonha de admitir serem preconceituosas, mas tiveram facilidades em expressar o preconceito, através de atitudes de indiferença e exclusão. Acham “bonitinhas” as pessoas com Síndrome Down, ou sentem pena. Outro dia incluímos um trabalhador com Síndrome de Down como auxiliar de lanchonete. Ele fazia entregas nas salas. Uma funcionária comentou com a equipe do Laboratório: “Achei lindo aquele menino com Síndrome de Down fazendo entregas nas salas”. Perguntei se ela aceitaria um adolescente com a mesma síndrome como estagiário em seu setor. Foi quando ela respondeu com rapidez: “Vixe, lá na nossa sala? É complicado, não temos tempo de acompanhar, acho melhor você procurar outro setor…”

Passei três anos me comunicando profissionalmente com uma gestora de outra secretaria por telefone. Ela sempre me tratava bem, tirando dúvidas, facilitando os trabalhos. Mas, um dia, participamos de uma mesma reunião e ela me viu andando com as sequelas de poliomielite. A partir daquele momento ela passou a me tratar com indiferença, às vezes com grosserias ou irritabilidade.

É preciso entender o que se passa na mente, no sentimento da pessoa que pratica o preconceito. As pessoas observadas pelo Laboratório, com verbalizações a atitudes de preconceito, foram relacionadas e são acompanhadas e avaliadas como objetos de estudos na elaboração de estratégias de combate aos preconceitos. Constatamos que elas não mantêm um bom relacionamento interpessoal, nem no ambiente profissional nem no familiar. Relatamos que elas expressam arrogância e autossuficiência, agressividade nas palavras e, dependendo das características e nível dos sentimentos, podem ser agressivas fisicamente, o que é mais comum na homofobia.

O Laboratório de Inclusão é rotulado pelas interpretações externas, com uma carga forte de preconceitos, por representar os níveis inversos do padrão exigido de “perfeição” humana. Estas interpretações atingem, muitas vezes, alguns projetos que poderiam ter um tempo de resultados bem mais curto. O preconceito velado, que se esconde por trás do artificialismo do comportamento, carrega uma disfuncionalidade capaz de retardar a evolução de muitos projetos, danificando, irreversivelmente, destinos humanos.

Nos estudos do Laboratório verificamos a diversidade dos preconceitos. Uma pessoa é submetida a várias avaliações: O formato de seu corpo, a maneira de andar, o tom da voz, a textura da pele, o tipo de cabelo, a fisionomia do rosto, a maneira de se vestir, a maneira com que fala, se perdeu algum sentido (visão, audição, mobilidade, cognitivo)… são as existências do padrão do ser humano perfeito. A valorização da aparência ou mobilidade de um corpo humano reflete as simbologias criadas como modelos de perfeição.

Ter preconceito é também uma característica humana neste modelo de sociedade que vivemos, como também ter uma deficiência. Como são opostos, ter uma deficiência não impede nem o homem nem o mundo de evoluírem, mas o preconceito retarda a evolução da vida, como elemento destruidor e desnecessário. Assim, dentro da ideia do surgimento e desenvolvimento de um novo modelo de sociedade, poderiam considerar “deficiências humanas” apenas de comportamentos preconceituosos e violentos.

Na inclusão de pessoas com deficiência avaliamos as pessoas com preconceito em três categorias: Aqueles que assumem abertamente ser preconceituosos; Aqueles que não assumem ser preconceituosas, mas expressam com facilidades ter preconceito; Aqueles que têm pena de quem tem deficiência, mas mantém a convicção de que eles são inferiores.

Ser preconceituoso pode até não ter cura, em alguns casos, mesmo com a ajuda da ciência, mas temos que pensar em outro tipo de ser humano, de sociedade, começando por nós mesmos, multiplicando a ideia de um mundo onde a diversidade humana possa conviver em harmonia. Isto vai ser possível um dia? É bom começar não tendo medo de enfrentar os vilões que mantêm as invisibilidades humanas…

XV Inclusão sem Censura “Aborto legal: Um debate acerca da (des)criminalização”

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Promovido pelo Laboratório de Inclusão, da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS) do Governo do Estado do Ceará, o XV Inclusão sem Censura traz, nesta edição, a temática “Aborto legal: O direito de quem? Um debate acerca da (des)criminalização”. O evento acontecerá no dia 14 de novembro, a partir das 13h30, no Auditório Professor Valnir Chagas (FACED – UFC).
 
Realizado semestralmente pelo Grupo de Informação e Consciência Humana do Laboratório de Inclusão, o Inclusão sem Censura é um evento organizado e promovido por estudantes universitários e estagiários da STDS de diversos cursos, tendo como proposta gerar debates acerca de temas sociais e políticos de interesse público.
 
A escolha do tema surge a partir da recente conjuntura sociopolítica em nosso país, a exemplo do Projeto de Lei nº 882/2015, do deputado federal Jean Wyllys e ainda pendente de deliberação, que estabelece as políticas públicas no âmbito da saúde sexual e dos direitos reprodutivos. Além do Brasil, os árduos debates e manifestações contrárias e a favor da legalização do aborto vêm ocorrendo a nível internacional, como na Argentina e Polônia.
 
Tendo em vista haver um número considerável de países onde o procedimento é permitido, em contraste a muitos outros, em que se observa proibição completa ou parcial, a legalização do aborto traz diferentes concepções sobre o conceito de vida; de ser ou não uma questão de saúde pública; do papel do Estado; a força do movimento feminista; as influências religiosas; as divergências culturais; os valores morais; os fatores socioeconômicos; a eficácia dos métodos contraceptivos; a prática clandestina do aborto; a objeção de consciência médica; a educação sexual e reprodutiva, dentre outros aspectos relevantes para o debate sobre a legalização do aborto.
Para compor a mesa e debater o tema “Aborto Legal: O direito de quem? Um debate acerca da (des)criminalização”, convidamos:
Kylianne Monteiro, mediadora do XV Inclusão sem Censura. É graduanda em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará; Integrante do Grupo de Informação e Consciência Humana e estagiária do Laboratório de Inclusão;
Ana Maria D’Ávila Lopes, bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, Mestre  e Doutora em Direito Constitucional pela Universidade Federal de Minas Gerais. Pós-doutora sobre os direitos humanos das minorias e das pessoas em situação de vulnerabilidade. É professora titular do Programa de Pós-graduação em Direito Constitucional (Mestrado/Doutorado) da Universidade de Fortaleza – UNIFOR.; e
Liduina de Albuquerque Rocha, Médica obstetra formada pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, com experiência em residência na Maternidade Escola Assis Chateaubriand e mestranda em Saúde da Mulher pela Universidade Federal do Ceará; Presidenta da Sociedade Cearense de Ginecologia e Obstetrícia e também Presidenta do Comitê Estadual de Prevenção à Morte Materna, Fetal e Infantil do Estado do Ceará.
 
Ressaltamos que, para a construção de um espaço democrático, é necessário desenvolvermos um diálogo pautado no respeito à diversidade de ideias. Este entendimento à opinião do outro favorece um modelo de sociedade mais gentil e harmonioso, pois a democracia sobrevive a partir da convivência entre às diferenças.
 
As inscrições são gratuitas, online e presencialmente, no início do evento. Será emitido certificado de participação do evento, com carga de três horas.
 
 
Programação
13h30 – Inscrições e credenciamentos
14h00 – Abertura e apresentação
Mesa Redonda: “Aborto legal: O direito de quem? Um debate acerca da (des)criminalização?”
Mediador: Kylianne Monteiro, graduanda em serviço social e estagiária do Laboratório de Inclusão.
Palestrantes: Ana Maria D’Ávila, professora universitária, doutora em Direito Constitucional e pós-doutora em Direitos Humanos; e Liduina de Albuquerque Rocha, médica ginecologista-obstetra e presidenta do Comitê Estadual de Prevenção à Morte Materna, Fetal e Infantil do Estado do Ceará.
15h45 – Debate com as perguntas do público
16h30 – Encerramento
 
 
SERVIÇO
XV Inclusão sem Censura: Aborto legal: O direito de quem? Um debate acerca da (des)criminalização
Quando: 14 de novembro de 2018, quarta-feira, às 13h30
Onde: Auditório Professor Valnir Chagas (FACED – UFC, Benfica, Rua Marechal Deodoro, em frente ao CLEC)
Mais informações: (85) 3101-4583 ou 3101-2123 ou labdeinclusao@gmail.com
Evento gratuito com emissão de certificado (carga horária: 3h).
Inscrições online e presencialmente, no início do evento.
 
Obs.: As inscrições presenciais estarão sujeitas à disponibilidade das inscrições online e da capacidade do auditório.

#MariellePresente: Mais uma

por Artur Mendonza
assistente técnico do Laboratório de Inclusão

MARIELLE LAB

Mulher, negra, 38 anos, mãe, cria da Maré: morta! Executada com quatro tiros na cabeça. Mais uma… Mais uma vítima da barbárie, do ódio, da ignorância, da ganância. Uma pena precisar ser uma parlamentar para ser pauta do Jornal Nacional. Diariamente, moradores da favela são executados. Há neste País um extermínio da população negra e favelada. É histórico o assassinato em massa do brasileiro pobre, principalmente as Marielles da vida, os quem luta pela justiça, pela paz e pela garantia de direitos dos que mais precisam.

Marielle foi mais uma diante nas estatísticas. Aqui, no Ceará, só no mês de fevereiro, foram 363 homicídios. 363 vidas foram ceifadas em menos de 30 dias num só estado brasileiro. Estamos diante do caos, senhoras e senhores. Estamos prestes à perca total da dignidade humana, do respeito à vida, do respeito ao outro e, até mesmo, estamos prestes à perca da mínima compreensão de civilização. Marielle morreu em vida para nascer em História, luta e símbolo de todo um povo subjugado, explorado e humilhado por aqueles que marcaram no tempo o ser miserável que o humano pode ser.

“Morreu quem defendia o bandido!”, bradam os fascistas, ignorantes de sua existência. O ódio os cega. Não, meu caro. Não morreu quem defendia bandido. Você é quem não entendeu nada de Direitos Humanos. Lutar pelos Direitos Humanos não significa defender bandido, mas, sim, significa lutar para que o Estado não crie um bandido. Lutar pelos Direitos Humanos é lutar pela dignidade, é lutar pelo direito de ir e vir sem medo, de ter casa, comida, de ter a possibilidade de criar um filho numa sociedade mais justa, inclusiva, sem discriminação e preconceito. Lutar pelos Direitos Humanos é, acima de tudo, lutar pela vida. E toda vida importa.

Se hoje o nosso País está tomado pela violência, saibam, isso é fruto da moral deturpada, do egoísmo, da falta de empatia. Os verdadeiros bandidos não estão na favela. Os grandes criminosos usam paletó e gravata, se reúnem em assembleias e discutem, de forma falseada, o bem da nação. Cocaína em fazendas de senadores, deputados associados com o tráfico de armas… Mais: se chega na mão do criminoso uma arma de uso exclusivo de forças armadas, fica óbvio de onde veio esta arma, não?! O verdadeiro crime no Brasil é muito maior: é ético. É a corrupção nos setores mais altos de nossa política que sustenta as mortes das camadas mais pobres. Quem atirou em Marielle não foi só o bandido. Quem atirou em Marielle foi todo o Estado. Quem puxou o gatilho da arma que atingiu a cabeça da vereadora foi todo um País corrupto. Sujaram nossa nação com o sangue de uma mulher negra. Transformaram o verde e amarelo em vermelho.

Façamos do luto, luta. Não deixemos a morte de Marielle nos porões do esquecimento, da apatia, do “é isso mesmo”. Vamos transformar a dor numa mudança constante e cotidiana de nossas ações. Vamos ser firmes. Que nossas lágrimas reguem nossos corações, para que cresçam resistentes, firmes. Resistir! Re-existir! Resistir para existir. A resistência é tudo o que nos sobrou, e a luta é a nossa única ferramenta para mudança do nosso País. Mudemos a nós mesmos. Que possamos acordar todos os dias com o pensamento “Como eu posso, hoje, ser o meu melhor para mim e para o outro?”. Que os tiros que calaram a voz de uma mulher não cale a voz de toda uma nação.

Marielle, presente, hoje e sempre: Eu estou presente também.