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A nudez dos preconceitos: O que aprendemos e evoluímos entre STDS e SPS?

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Diante de tantos redesenhos, mudanças de gestões e governos, o Laboratório de Inclusão sobrevive e resiste, nesses 28 anos, enfrentando o seu maior vilão: o preconceito. Este texto foi escrito e publicado em 2011, com o título original, “A nudez dos preconceitos. ‘O João está lá, com um bando de cegos e aleijados’”. Agora republicamos, como outra reflexão, de memórias e conquistas, em um momento de crise política e ideológica no Brasil.

Os estudos referentes às origens e consequências dos preconceitos humanos reforçam a ideia de uma sociedade doente, incoerente, desigual, violenta e preconceituosa. Pensando na diversidade dos preconceitos, desde o deficientismo, racismo, xenofobia, homofobia… Observa-se que as expressões humanas vêm dos próprios sentimentos, das sensações, das atitudes, das escolhas, dos modelos criados e propagados ao longo da nossa História.

O preconceito se estabelece como forma de sentimento ou prática rotineira. Pessoas preconceituosas têm a convicção de que as pessoas com deficiência são espécie inferiorizada. Entre ser inferiorizada e ser inferior existe uma diferença de interpretação e significado, mas consequências das desigualdades sociais. Pelo preconceito, as pessoas com deficiência devem ser tratadas como inferiores e inferiorizadas. Este tratamento, promovido pelo sentimento do preconceito, retrata uma condição de comportamento de não aceitar as diferenças como características humanas, ou a aceitação dos modelos pré-estabelecidos de ser humano perfeito. As teorias de perfeição já causaram grandes estragos na humanidade. O modelo de ser humano perfeito envolve um corpo perfeito, beleza facial, que podem também serem anexados a outras exigências como as condições financeiras ou status social.

A vulgarização da dita perfeição humana, como apoio de sustentação dos preconceitos, torna possível a teoria de que a sociedade precisa de mais equilíbrio do que de perfeição. Promovemos a inclusão de uma pessoa com deficiência pelo equilíbrio, pelo combate às desigualdades sociais, às deturpações de valores. É o equilíbrio que pode promover a aceitação das diferenças humanas como essenciais evolução e não a perfeição.

Com a formação do Grupo de estudos e Apoio à Acessibilidade Humana, em 2004, não foi difícil detectar os focos de preconceitos dentro e fora da ex-Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social – STDS (atual Secretaria de Proteção Social, Justiça, Mulheres e Direitos Humanos – SPS). Ficou claro também, nas avaliações das pesquisas, que nenhuma pessoa observada e entrevistada admitiu ter preconceito, mas nas atitudes do dia a dia não tiveram dificuldades de expressar essa ação.

As expressões humanas envolvem também a dualidade de atitudes. Quando deparamos com atitudes de preconceito, essa dualidade é claramente visível. Em 28 anos estudando e combatendo preconceitos, muitos exemplos de atitudes preconceituosas foram colhidas pelo Laboratório e serviram de material de estudos. Um dos casos mais famosos aconteceu em 2007. Em uma das reuniões do Grupo de Acessibilidade foram convidados alguns gestores para participarem de uma discussão sobre empregabilidade de pessoas com deficiência. Marcamos a reunião com um mês de antecedência, com horário de início para às 13h. Esperamos até 14:30h e nenhum dos convidados apareceu. Resolvemos ligar para saber o motivo das ausências, quando uma das secretárias comunicou que os gestores estavam em um evento muito importante. Reclamei que deveriam ter avisado e que muita gente estava esperando aquela reunião, pessoas com todas as deficiências e tiveram dificuldades de se deslocar até a Secretaria. Foi quando a secretária, que displicentemente não tampou a entrada de voz do telefone, proferiu a seguinte frase: “O João está lá, com um bando de cegos e aleijados”. Aproveitamos o momento da reunião e a ausência dos gestores e colocamos a referida frase como objeto de estudos do Grupo de Acessibilidade.

Passaram-se sete anos desde o lançamento do Projeto de Acessibilidade em 2004, que antecedeu a criação do Laboratório de Inclusão da STDS (atual SPS). Todas as deficiências foram incluídas, em todas as funções, como previa o Projeto de Inclusão Qualitativa. Assistimos a uma apresentação de balé de cadeiras de rodas. Foi emocionante ver aquelas meninas em suas cadeiras de rodas em cenas fortes de dedicação, arte e superação. No trabalho de inclusão de pessoas com deficiência é essencial conservar e evoluir o nível de emoções dos sentimentos de simplicidade e generosidade. Naquele momento, novamente, escutamos a voz dos preconceitos: “Onde tu vê dança e arte nestas meninas aleijadas?” vindas de uma das pessoas estudadas e observadas pelo Laboratório de Inclusão, desde 2004. Mesmo com tantos momentos ricos de vivências, cursos de conscientização, apresentações, seminários e o convívio com trabalhadores com suas diferenças, não foi possível mudar aquela pessoa e tantas outras que continuam expressando em suas palavras e ações a violência dos preconceitos. Surge então a pergunta: Preconceito tem cura?

Em destaque, para reflexão, a relação de algumas frases pronunciadas no período de implantação do projeto de Inclusão Qualitativa, que serviram para diagnosticar focos de resistência à inclusão de pessoas com deficiência: “Você está louco em colocar uma estudante de serviço social cega para estagiar! Como ela vai fazer estudo de caso ou visita domiciliar?”; “Além de cego, é aleijado!”; “Como colocar um lesado para trabalhar na cozinha?”; “Como você vai conseguir trabalhar com velhos, mijados, cagados e fedorentos?”; “Ainda bem que aquela cadeirante é bonitinha.”; “Minha filha não é deficiente, é inteligente.”; “Estes deficientes só chegaram para atrapalhar.”; “Mande apenas pessoas com deficiência leve. Não pode ser cadeirante, cego, surdo… Temos que cumprir a cota”.

Quando eu chegava com o Grupo de Acessibilidade, das apresentações externas, alguém comentava: “Lá vem o aleijado com os aleijados dele”. Todos os autores destas frases foram identificados para serem estudados pelo Laboratório de Inclusão.

Lembro das palavras da ex-deputada e Juíza Denise Frossard, em 2006, ao rejeitar o projeto de lei que considera crime discriminar deficientes físicos: “A deformidade física fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana.”

O enfrentamento e o convívio com o preconceito, por parte das pessoas com deficiência, envolve um nível de aceitação e consciência de acordo com as memórias de cada um. Como somos diferentes, temos formas de expressões e reações diferentes. Alguns pontos se tornam essenciais ao enfrentamento dos preconceitos humanos: 1. Assumir a própria deficiência sem medo e vergonha. 2. Entender que a deficiência do preconceito é bem maior e pior que a sua. 3. A deficiência ou diferença é uma característica humana. 4. A aceitação de si mesmo deve ser mais forte do que o preconceito. 5. Não permita que as pessoas com preconceito impeçam você de viver. A vida é sua e você deve vivê-la com dignidade e liberdade.

Por uma pessoa ter uma deficiência não significa não ser preconceituosa. A característica de ser preconceituosa está ligada à condição do próprio comportamento, do que aprendeu como valores sociais, dentro de sua trajetória de vida. Uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, pode ser racista mesmo sem poder enxergar a cor da pele de uma outra pessoa, basta saber que aquela pessoa é negra para expressar sua condição de racista. Qualquer tipo de deficiência ou diferença pode se incorporar à uma condição de ser preconceituoso.

No processo de inclusão das pessoas com deficiência identificamos dois pontos que podem ajudar e organizar as estratégias de combate aos preconceitos, na sustentabilidade de projetos, seus parceiros e seus adversários. 1. O preconceito cresce ou se expande quando deixamos ele se expressar sem contestação. 2. Quando identificamos oficialmente o foco ou as pessoas com preconceito, ele se retrai ou se torna vulnerável.

Em um dos encontros do Grupo de Acessibilidade, foi feito uma pergunta aos participantes, todos com um tipo de deficiência: “Você é capaz de identificar nominalmente as pessoas que lhe tratam com preconceito, dentro da família, entre os amigos, na escola ou faculdade e no ambiente de trabalho?” A resposta um unânime “sim”. Tudo fica mais compreensível quando sentimos na própria pele.

A neutralização dos focos de preconceito não identifica a sua eliminação, por que é temporário, como um silêncio aparente. Muitas pessoas estudadas e pesquisadas pelo Laboratório de Inclusão tiveram vergonha de admitir serem preconceituosas, mas tiveram facilidades em expressar o preconceito, através de atitudes de indiferença e exclusão. Acham “bonitinhas” as pessoas com Síndrome Down, ou sentem pena. Outro dia incluímos um trabalhador com Síndrome de Down como auxiliar de lanchonete. Ele fazia entregas nas salas. Uma funcionária comentou com a equipe do Laboratório: “Achei lindo aquele menino com Síndrome de Down fazendo entregas nas salas”. Perguntei se ela aceitaria um adolescente com a mesma síndrome como estagiário em seu setor. Foi quando ela respondeu com rapidez: “Vixe, lá na nossa sala? É complicado, não temos tempo de acompanhar, acho melhor você procurar outro setor…”

Passei três anos me comunicando profissionalmente com uma gestora de outra secretaria por telefone. Ela sempre me tratava bem, tirando dúvidas, facilitando os trabalhos. Mas, um dia, participamos de uma mesma reunião e ela me viu andando com as sequelas de poliomielite. A partir daquele momento ela passou a me tratar com indiferença, às vezes com grosserias ou irritabilidade.

É preciso entender o que se passa na mente, no sentimento da pessoa que pratica o preconceito. As pessoas observadas pelo Laboratório, com verbalizações a atitudes de preconceito, foram relacionadas e são acompanhadas e avaliadas como objetos de estudos na elaboração de estratégias de combate aos preconceitos. Constatamos que elas não mantêm um bom relacionamento interpessoal, nem no ambiente profissional nem no familiar. Relatamos que elas expressam arrogância e autossuficiência, agressividade nas palavras e, dependendo das características e nível dos sentimentos, podem ser agressivas fisicamente, o que é mais comum na homofobia.

O Laboratório de Inclusão é rotulado pelas interpretações externas, com uma carga forte de preconceitos, por representar os níveis inversos do padrão exigido de “perfeição” humana. Estas interpretações atingem, muitas vezes, alguns projetos que poderiam ter um tempo de resultados bem mais curto. O preconceito velado, que se esconde por trás do artificialismo do comportamento, carrega uma disfuncionalidade capaz de retardar a evolução de muitos projetos, danificando, irreversivelmente, destinos humanos.

Nos estudos do Laboratório verificamos a diversidade dos preconceitos. Uma pessoa é submetida a várias avaliações: O formato de seu corpo, a maneira de andar, o tom da voz, a textura da pele, o tipo de cabelo, a fisionomia do rosto, a maneira de se vestir, a maneira com que fala, se perdeu algum sentido (visão, audição, mobilidade, cognitivo)… são as existências do padrão do ser humano perfeito. A valorização da aparência ou mobilidade de um corpo humano reflete as simbologias criadas como modelos de perfeição.

Ter preconceito é também uma característica humana neste modelo de sociedade que vivemos, como também ter uma deficiência. Como são opostos, ter uma deficiência não impede nem o homem nem o mundo de evoluírem, mas o preconceito retarda a evolução da vida, como elemento destruidor e desnecessário. Assim, dentro da ideia do surgimento e desenvolvimento de um novo modelo de sociedade, poderiam considerar “deficiências humanas” apenas de comportamentos preconceituosos e violentos.

Na inclusão de pessoas com deficiência avaliamos as pessoas com preconceito em três categorias: Aqueles que assumem abertamente ser preconceituosos; Aqueles que não assumem ser preconceituosas, mas expressam com facilidades ter preconceito; Aqueles que têm pena de quem tem deficiência, mas mantém a convicção de que eles são inferiores.

Ser preconceituoso pode até não ter cura, em alguns casos, mesmo com a ajuda da ciência, mas temos que pensar em outro tipo de ser humano, de sociedade, começando por nós mesmos, multiplicando a ideia de um mundo onde a diversidade humana possa conviver em harmonia. Isto vai ser possível um dia? É bom começar não tendo medo de enfrentar os vilões que mantêm as invisibilidades humanas…

“Voltem para a Alemanha e façam com que isso não aconteça de novo!”

por Yanelvis Duret
intercambista alemã da UFC e estagiária do Laboratório de Inclusão

campo concentração

O fascismo está tomando conta de largas camadas da população brasileira. Ao escutar pessoas defender posições racistas, homofóbicas, sexistas e expressar um sentimento de superioridade, sinto uma grande indignação.

Depois de visitar três campos de concentração na Polônia, na França e na Alemanha e ter me jurado que o terceiro seria o último, considero mais importante do que nunca relembrar e relatar minhas experiências nessas “viagens” que mudaram minha percepção do papel que eu quero desenvolver na sociedade e me ajudaram na construção da minha identidade.

No ano de 2007 fiz uma viagem de estudos com o grupo da igreja da minha comunidade, onde eu era voluntária, para a cidade Auschwitz, na Polônia, onde se encontra o campo de concentração nazista mais conhecido. Nesse campo de concentração morreram mais de um milhão de pessoas, 90% deles judeus.

Eu tinha feito 17 anos e conhecia o passado da Alemanha, pelo menos sabia o que tinha aprendido nas aulas de História, porém, nunca antes tinha parado para pensar e refletir sobre o fato de que o fascismo tinha matado milhões de pessoas sistematicamente.

A viagem começou com uma visita no campo de concentração de Auschwitz, onde nós tivemos a possibilidade de ver os alojamentos e as câmeras de gás. Assim que entrei nesse lugar, eu senti a morte e a dor no ar. Segundo o guia explicava os métodos de extermínio, como as pessoas eram asfixiada, crianças utilizadas para experimentos médicos cruéis e macabros, resultava quase impossível para eu conter as lágrimas. Perto daquele campo de concentração, se encontrava Birkenau, também conhecido como Auschwitz II. Quando os judeus chegavam na Polônia, trazidos de todas partes da Europa, Birkenau era a primeira estação. Andando pelo campo, chegamos num lago. A terra estava molhada e mole, cheia de minúsculas pedras brancas. Nesse momento, o guia explicou que naquele ano tinha chovido tanto que a terra havia se movido. Aquelas partículas brancas eram resquícios das cinzas dos corpos cremados que os nazistas jogavam no lago. Esse chão, de repente, ganhou uma outra simbologia; eu senti que andava sobre cadáveres, senti vergonha. Pela primeira vez senti raiva e vergonha da humanidade.

Durante aqueles 7 dias me invadiu uma tristeza inexplicável. Eu não conseguia entender como o ódio, o preconceito e a supremacia podiam chegar ao extremo de realmente “acabar com uma ‘raça‘”.

O clímax da viagem foi o encontro com uma das pessoas que marcaram a minha vida: Kasimiersz Smoleń, aquele, então, um dos últimos sobreviventes do Holocausto, falecido em 2012. Kasimiersz Smoleń havia sido prisioneiro político de Auschwitz por formar parte da resistência polonesa. Numa roda de conversa, tivemos a oportunidade de escutar seu ponto de vista e lhe fazer perguntas. Ele afirmou que não sentia nem ódio nem rancor e à pergunta sobre a nossa responsabilidade como jovens alemães e o que nós poderíamos fazer, ele respondeu que a nossa responsabilidade era não repetir a história. “Voltem para a Alemanha e façam com que isso não aconteça de novo“, ele disse. Eu recebi essas palavras como as palavras de um profeta. Eu, que até então tinha me sentido cubana, membro importante da sociedade alemã sim, mas sempre cubana, pela primeira vez me senti alemã. Imediatamente, eu absorvi a culpa do passado e assumi a responsabilidade do presente, de fazer parte de uma geração de alemães que lutam para não permitir que a história se repita de jeito nenhum.

Já na Alemanha, dediquei grande parte do meu tempo como estudante ao trabalho contra o racismo e a discriminação, trabalhando com a comunidade judia e reforçando a memória do passado alemão.

Além de Auschwitz, visitei mais dois campos de concentração: Natzweiler, na França e Buchenwald, no leste da Alemanha.

Depois de ver montanhas de cabelos humanos, usados para fazer tapetes, as câmeras onde as pessoas eram asfixiadas, os fornos onde seus corpos eram cremados. Depois de ver as cinzas de homens, mulheres e crianças que foram mortos por causa da sua religião, sua identidade racial ou cultural, por causa de uma deficiência o sua orientação sexual e política e passar literalmente os restos dessas pessoas, entendi finalmente os trechos do poema Fuga da morte de Paul Celan: “Cavamos um túmulo nos ares, lá não se jaz apertado”.

Eu entendi que fascismo mata, extermina. E me comprometi como cubana, alemã e cidadã do mundo que sou, a denunciar e combater os atos e ideais que violentam a dignidade humana, não só na Alemanha, mas em qualquer lugar que for necessário.

Homossexualidade e caráter

por Danielle Cardoso
estagiária de Letras do Laboratório de Inclusão

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Em pleno 2018, algumas pessoas ainda seguem acreditando que a sexualidade de alguém tem relação com seu caráter. Cria-se um mundo dualista onde, se a pessoa é hétero, tá tudo bem, mas, se a pessoa for homoafetiva, o apocalipse tá feito. Não tem meio termo e não há misturas. Na cabeça de muita gente, pessoas são postas em caixinhas e, se estou na caixinha A, não posso estar na caixinha B. O que essas pessoas não querem enxergar é que o mundo é muito mais dinâmico do que elas imaginam.

Entender que as coisas não são apenas pretas ou brancas é difícil mesmo, mas faz parte da evolução humana. Eis o mundo e ele é feito com todas as cores, cheiros, sabores. Pessoas têm essências diferentes e o que as fazem humanas são os sentimentos. Estes não se pode explicar. Amamos, odiamos, rimos, choramos, sentimos saudades, ignoramos, somos simpáticos, mas também tão apáticos. Sentimento não se controla, não se reprime. Sendo assim, quem é você para dizer que amar alguém do mesmo sexo é errado?

Errado é pensar que chamar alguém de gay ou lésbica é ofensa. Obviamente, quando essas e outras palavras são usadas de forma depreciativa, ofende. No entanto, certas situações não dá para entender. Exemplo disso foi uma pessoa bem próxima a mim, ao me ver defendo o direito das pessoas de amarem quem quiserem, soltou a seguinte pérola: “Se eu não te conhecesse, diria que você era lésbica.”. Pensei em me ofender, mas, imediatamente, me veio a pergunta: “E se eu fosse?”. Mudaria meu caráter e meus ideais? Não! Faria de mim uma pessoa má? Muito menos! Tá, então, por que vou me ofender mesmo? Comecei a rir, pois já não valia a pena responder.

Sério mesmo que a sexualidade de uma pessoa te afeta? Se sim, reveja sua vida, porque tem algo errado sim, mas é com você. Homens héteros têm sua masculinidade tão frágil que basta chamá-los de gay que eles já partem para a briga. Queridos, por quê? Se você não é, não entendo a agressividade, não é assim que você vai provar o contrário. O homem que tem segurança da sua sexualidade não dá a mínima quando é chamado de gay, pois não fere sua virilidade e não pensam que gays são menos homens. Simples!

O objetivo deste texto é mostrar que respeitar não dói, aceitar não mata. O que importa realmente em alguém é o caráter e não faz diferença se esse alguém gosta de homem ou mulher. Você pode até ser contra, achar que isso tudo é pecado, mas não cabe a você julgar. Se ninguém perguntou tua opinião, fica com ela só para você e respeita os outros. Se pediram, manifeste-se sem desrespeitar ninguém. É simples também!

A comunidade LGBT merece todo o respeito, pois dá a cara à tapa e ser o que se é não é fácil. Aceitar e respeitar pessoas homoafetivas não me faz menos mulher, não me torna lésbica e outras coisas do tipo. Aceitar e respeitar me faz ser uma pessoa melhor, mais humana e evoluída. Afinal, amor é amor em qualquer circunstância, logo, se não faz mal a ninguém, não tem por que julgar, discriminar. O amor move o mundo, não importando quem se ama. Mais amor, por favor. Até a próxima!

Como conviver, entender e aceitar pessoas homossexuais

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Vencer os preconceitos é priorizar a necessidade da evolução humana. A criação de sociedades inclusivas pode acender a esperança de que, no futuro, teremos mais equilíbrio do que preconceitos.

O preconceito humano é diversificado, mas separar homofobia de outros tipos de preconceitos é uma grande ilusão. A diversidade faz parte da natureza humana e a melhor maneira de conviver em harmonia com pessoas homoafetivas é entender que esta diversidade é essencialmente natural, é vencer os próprios preconceitos. Ninguém escolhe ser homoafetivo para ser discriminado e odiado gratuitamente uma vida inteira. Mas ter preconceito é uma escolha que pode ser superada e desconstruída.

A desinformação e as interpretações precipitadas colaboram com a multiplicação dos preconceitos. Quando os preconceitos são permitidos nas atitudes e na construção da própria personalidade, então a lei tem que compensar e ser cumprida para amenizar os efeitos nocivos dos preconceitos. A impunidade de quem pratica preconceito colabora na manutenção e crescimento de uma sociedade conflitante. A lei não foi feita somente para punir, mas educar também na intenção de que aquela pessoa que praticou homofobia tenha a oportunidade de aprender a conviver com a diversidade humana. Nenhuma sociedade evolui cultivando e propagando preconceitos. Então a homoafetividade precisa ser entendida e aceita por uma questão de evolução social.

A homofobia sobrevive também pelo ódio e pela violência. No Brasil, a cada hora é registrado um caso de violência contra homossexuais. Os jovens são as principais vítimas, sendo agredidos ou assassinados quando identificados pela aparência. O combate à homofobia é complexo porque envolve mudanças no comportamento humano e nas culturas de exclusão. Os homossexuais ainda são uma população invisível e vulnerável à violência. Lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais fazem parte de uma diversidade humana. Quando são excluídos e discriminados, provocam um rompimento com o equilíbrio e harmonia social. Sociedades excludentes tendem a provocar desequilíbrio social quando rotulam pessoas e retardam a evolução humana.

A tentativa da “cura gay” é um fracasso, pois vai de encontro com a característica humana de ser diferente. Além de ser mais uma tentativa desesperada de oficializar a homofobia. A diversidade não pode ser considerada uma doença. Quando dogmas religiosos e ideologias fascistas se misturam com baixos níveis de consciência, demonstram, claramente, que esta sociedade é que está gravemente doente. É mais cômodo e, aparentemente, mais fácil conservar e criar dogmas regressivos do que promover e combater preconceitos e progredir humanamente.

Evoluímos pouquíssimo ao longo da nossa história, mesmo depois de tantas guerras e tragédias que destruíram inúmeras vidas. É claro que, este modelo de sociedade preconceituosa, excludente e violenta que se multiplicou, não tem provocado paz nem equilíbrio. Por quê? Porque comportamento e relacionamento humano em equilíbrio costumam ser deixados em segundo plano, não sendo prioridades na formação das ideologias e sociedades. Preocuparam-se mais com poderes, vaidades e egoísmos presentes nas interpretações. Quantas ideologias já foram escritas e implantadas? Várias. Mas nenhuma contemplou o essencial do convívio harmonioso que é o respeito à diversidade humana e a inclusão de suas diferenças.

A existência de homossexuais incomoda mais do que a violência? Infelizmente, sim. Quando uma cena de um casal homoafetivo se beijando choca a opinião pública de um país mais que fome, pedofilia, corrupção, estupro, racismo e assassinatos bárbaros, é um forte sinal de que este país está se preocupando mais em ter e preservar seus preconceitos e dogmas do que combatê-los. Ainda estamos muito longe da formação de uma sociedade evoluída, em equilíbrio e sem preconceitos.

Manifestações de preconceito na internet

por Danielle Cardoso
estagiária de Letras do Laboratório de Inclusão

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Depois do caso do ataque racista contra a filha de Bruno Gagliasso cometido pela mesma mulher que destilou preconceito contra a filha do Roberto Justus e foi homofóbica com o filho da Ana Hickmann de apenas três anos, ficou ainda mais óbvio, para mim, que a internet facilita manifestações preconceituosas. Isso por que a pessoa está “protegida” por uma conta em alguma rede social e acha que, naquele espaço, tudo pode ser feito e dito, sem nenhuma punição. No entanto, vale ressaltar que internet não é terra de ninguém, há leis que procuram evitar diversos crimes que podem acontecer por expressões dos usuários, como calúnia, difamação e injúria racial.

Com a exposição quase que instantânea da vida pessoal de muitas pessoas, cresce o espaço para dar opiniões acerca daquilo que se vê. Nem todo mundo usa esse espaço para ser preconceituoso, mas muitas pessoas encontram a oportunidade perfeita para colocar para fora o que pensa, coisa que, geralmente, não têm coragem de fazer na vida real. Isso acaba revelando o preconceito como ele realmente é e aquela pessoa que você considerava “do bem” demonstra o quão preconceituosa pode ser.

Em outro texto, disse que, quando sua opinião passa a desrespeitar os outros, ela se transforma em discriminação. Na velocidade em que as informações são postadas na Web, parece-me que não resta tempo para ponderar o que merece ser comentado ou não. As pessoas não se preocupam nem em ler e entender um post inteiro, o que, muitas vezes, leva a desentendimentos. É a velha filosofia de que o julgamento vem mais rápido do que a empatia, o colocar-se no lugar do outro, o tentar entender os motivos.

Há, também, a busca desesperada por likes e visualizações, levando muita gente a causar verdadeiros espetáculos, muitas vezes premeditados, envolvendo manifestações preconceituosas horrendas só para se promover, para virar assunto nas redes sociais. Isso só mostra a decadência do ser humano e o quanto a pessoa é vazia, frustrada, que não consegue se reinventar e fazer sucesso com seu próprio trabalho. Infelizmente, esse tipo de pessoa representa uma massa que se encontra na mesma situação: vazia por dentro e frustrada com pessoas que realmente se esforçam para pregar o bem e o amor.

E eu não estou falando apenas de pessoas famosas, alguém pode me atacar por ser deficiente e escrever textos para este blog. Críticas construtivas, eu vou analisar e tentar melhorar, pois é assim que evoluímos, mas críticas destrutivas, como o nome sugere, podem acabar com minha autoestima e me machucar muito. Se as pessoas tivessem ideia de como o preconceito dói, elas tomariam mais cuidado ao julgar, ao criticar e ao dar sua opinião sobre algo ou alguém.

Esse é um assunto preocupante e que deve ser debatido, pois chegamos a um nível deplorável de preconceito na internet e essa cultura do julgar sem conhecer ou comentar algo que vai machucar deve acabar. Por fim, eu peço que você use a internet, uma ferramenta tão poderosa e essencial nos dias de hoje, para o bem, para propagar o amor, a paz. Mesmo que você não concorde com alguém, não julgue, compreenda. Lembre-se que, se você não gosta, você não precisa atacar, guarde sua opinião ou tenha muito cuidado ao expô-la. As palavras também matam, não queira ser assassino de sonhos e de autoestimas. Pense nisso e até a próxima!