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A visão de um cadeirante no Estádio Presidente Vargas – Fortaleza (CE)

Existe o Decreto nº 12.916, de 1999, do estado do Ceará, que dispõe sobre as normas de adaptação de prédios de uso público, a fim de assegurar o acesso adequado às pessoas com deficiência. O Estádio Presidente Vargas, em Fortaleza (CE), de responsabilidade da Prefeitura Municipal de Fortaleza, deveria estar dentro das normas estabelecidas por este Decreto, mas o vídeo, feito por um membro do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social, demonstra a falta de acessibilidade para o público com deficiência. Precisamos cobrar o cumprimento da Lei para dar continuidade às políticas públicas de inclusão de pessoas com deficiência, e os órgãos públicos devem dar o bom exemplo.

É preciso ampliarmos nossos conceitos acerca da inclusão. Ter acessibilidade não é simplesmente ter uma rampa ou um local reservado para pessoas com mobilidade reduzida. A acessibilidade também passa por questões práticas, funcionais e cotidianas. Um estádio ter um local reservado para cadeirantes, mas sem que esse local tenha uma visão adequada do campo ou um espaço apropriado para a locomoção com a cadeira de rodas, isso não é ser acessível. Os órgãos públicos, acima de todas as instituições, devem ser os precursores de um espaço de fato público, efetivamente acessível para todos, validando, assim, nosso espírito democrático e social.

“Lá vem o aleijado com os aleijados dele”.

por João Monteiro
jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão

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Esta frase do título deste texto foi dita por uma funcionária da STDS, quando eu ia chegando de uma apresentação externa, com o Grupo de Acessibilidade, na sede da Secretaria. Uma frase forte, mas não foi suficiente para impedir que os projetos de inclusão de pessoas com deficiência e vulnerabilidade social fossem desenvolvidos com sucesso. O preconceito pode ser forte, mas, para combatê-lo, é preciso ser mais forte do que ele.

A inclusão de pessoas com deficiência, na STDS, teve início oficialmente em 2004, com a criação do Grupo de Acessibilidade. Um projeto que preenchia as cotas de pessoas com deficiência, nas vagas de colaboradores terceirizados. Um momento de muitos estudos, principalmente na observação do público interno, para saber os níveis de preconceitos e como seriam efetuadas as inclusões.

Na época, foi formado um grupo de estudos, interdisciplinar, com a participação de técnicos da STDS, estagiários universitários e algumas universidades conveniadas. Foi um ano de muitos estudos e pesquisas. Uma preparação do ambiente interno para a inclusão de 50 trabalhadores, com todas as deficiências e em todas as funções da STDS.

Identificamos, nos estudos e observações, 50 pessoas na STDS com níveis de preconceitos elevados, suas lotações e funções. Eram funcionários e alguns gestores. Conhecer e entender o ambiente físico e humano da STDS foi fundamental para o sucesso do preenchimento das vagas. Chegamos a incluir 107 pessoas com deficiências na STDS, entre estudantes universitários, estagiários do Projeto Primeiro Passo e colaboradores. Foi um processo seletivo rigoroso, mas, com o conhecimento interno, as lotações foram realizadas com muito planejamento.

O preconceito foi, e ainda é, a maior barreira na inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Na época de 2004, concluímos que seria demorado e complexo tentar mudar a cabeça das pessoas identificadas resistentes às inclusões dentro da STDS. Então, resolvemos planejar neutralizá-las. Como foi possível?! A estratégia foi a criação de um Laboratório de Inclusão, dentro da STDS, que desenvolvesse projetos fortes e consistentes de inclusão de pessoas com deficiência e vulnerabilidade social. As pessoas identificadas como preconceituosas seriam neutralizadas com as práticas constantes de combate aos preconceitos, através de grupos de estudos, oficinas e conscientização da importância do convívio harmonioso com a diversidade humana e aumento dos níveis de relacionamentos interpessoais.

Quando neutralizamos o preconceito, ele não deixa de existir, apenas fica velado, escondido, aparentemente silencioso, principalmente dentro do ambiente de trabalho. Ninguém vai ter a coragem de oficializar ser racista, homofóbico ou ter preconceito contra pessoas com deficiência no ambiente de trabalho. Preconceito velado é difícil de combater e identificar, porque, quem tem, diz que não tem. Mas como a neutralização provoca medo em quem tem preconceito, ele se torna fraco o suficiente para que as inclusões sociais possam se realizar sem interferências relevantes.

Hoje, depois de 14 anos, uma parte destas 50 pessoas já se aposentou, mas o preconceito não acabou, nem diminuiu. Não é um problema exclusivo da STDS, mas de todo o Brasil. É visível as expressões de racismo, homofobia e sexismo nas redes sociais. O preconceito contra pessoas com deficiência carrega pena, nojo, fragilidade e inferioridade; uma cultura nociva à evolução humana. Lembro do parecer e definição preconceituosa e violenta, nas palavras da ex-deputada e juíza Denise Frossad, sobre pessoas com deficiência: “A deformidade física fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana”. Palavras fortes que definem a estrutura regressiva, forte e cruel de um preconceito.

O Laboratório de Inclusão sobrevive, dentro de uma secretaria pública, que, como tantas outras, são reflexo de um país onde as práticas de preconceitos não dão trégua. É uma luta que parece não ter fim. Sabemos que foram muitas conquistas, muitos destinos evoluídos, mas o que preocupa, é que, mesmo com tantos avanços, projetos implantados, e tantas pessoas incluídas, as práticas de preconceitos não diminuíram, como uma praga que passa de geração a geração.

Com o aumento dos preconceitos, aumentam também as dificuldades de inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, afetando diretamente, todas as práticas de políticas públicas direcionadas a inclusão social. A crise política é também uma crise de caráter, de cultura e de educação. Difícil tentar mudar uma STDS, se o país também não muda, as pessoas não melhoram, a vida não melhora. É como passar horas construindo um castelo de areia, e alguém passa e chuta destruindo, então você tem que começar tudo de novo.

Estudar a personalidade de uma pessoa que tem ódio às outras, por terem uma deficiência ou serem diferentes, é um trabalho longo e, muitas vezes, desgastante. Mas precisamos continuar fortes, sem medo e tentado não desistir. Desistir é como morrer ou matar um sonho, uma luta ou muitas vidas…

Prepotência e ego não combinam com educação

por Danielle Cardoso
estagiária de Letras do Laboratório de Inclusão

prepotência

Se tem uma coisa que aprendi na minha vida acadêmica é que você nunca saberá de tudo, nunca será detentor pleno do conhecimento. Quando você aprende algo, percebe que tem um mundo de outras coisas que você não sabe. Por mais mestrados, doutorados e pós-doutorados que você tenha, sempre haverá um mundo de conhecimentos ao qual você será ignorante. A vida é um eterno aprendizado e acredito que, para os professores, em especial, essa deve ser a lição número um de sua profissão.

É muito egoísta e prepotente você pensar que não tem mais nada a aprender, que seu aluno não é capaz de te ensinar algo novo. Sua didática pode ser perfeita na teoria, mas, na prática, é outra coisa. Sempre será preciso fazer adaptações, pois plano de aula que dá certo é aquele que sai do planejado. Professores trabalham com a formação de seres humanos, que são diferentes em tempo, compreensão, gostos, pensamentos, ações. Não é matemático, você não vai conseguir a fórmula para ser um bom professor, o segredo é ter humildade e aprender a como ser melhor a cada dia.

Neste contexto, uma “professora” universitária faz algo inaceitável: falou, em meio a toda sua turma, que não vai mudar sua didática por causa de um único aluno que tem deficiência visual. – Para quê, não é, professora? Para quê mudar sua didática por causa de um cego, que, na sua cabeça, não vai chegar a lugar nenhum? Realmente, esse papo de inclusão é muito bonito, desde que não te afete, não é?! Porque não vejo sentido mesmo em mudar sua didática, que, provavelmente, há muitos anos você a usa e nunca pensou em reformulá-la. Se não acompanha, não é seu problema, você não é culpada por ele ser cego. Absurdo mudar sua aula por ele!

Para quem não entendeu, usei de ironia no parágrafo anterior. É assim que imagino que pensa uma pessoa que faz isso, que, por ego e prepotência, quer tirar o direito de um aluno com deficiência de estudar. Professora, você pode ser processada por isso, porque discriminação é crime. Não estou expressando o que acho, a Lei Brasileira de Inclusão é que garante: DISCRIMINAÇÃO É CRIME! E não tem nada de mau evitar escrever na lousa ou descrever para o seu aluno o que você escreveu lá. Não é coisa do outro mundo disponibilizar os textos da disciplina em PDF para que seu aluno possa ter acesso igual aos outros. Na verdade, professora, isso faz parte da sua profissão.

Já passei por algo parecido no começo da minha graduação, o professor fingia não me ver, negava-se a dar aulas na sala de baixo e eu, que sou cadeirante, que me virasse para assistir a suas aulas e disse que eu não precisava fazer trabalhos, pois, no fim do semestre, ele me daria uma nota qualquer. Não denunciei esse professor, não sabia ainda quais eram meus direitos. Todavia, o que mais me chamava atenção era que, fazendo tudo isso comigo e humilhando os outros, ele reafirmava seu enorme ego e fazia valer a figura do professor todo poderoso, que todos temem. Se ele se permitisse a aprender comigo, todo o mundo de ilusão que ele criou e ao qual tanto se agarra, cairia, e ele voltaria a ser um professor normal, era isso que o amedrontava.

A vida não é, nem precisa ser, uma competição. Não deixe seu ego tomar conta de você, só porque você tem uma condição social mais elevada que os outros. Não banque o sabe-tudo, só porque você tem um título de doutor. Não seja prepotente com seus alunos, isso só mostra o quão inseguro (a) você é. Pelo contrário, aprenda com eles, seja humilde, inclua. Você será uma pessoa bem melhor assim, te garanto. Não perca tempo alimentando seu ego, é na simplicidade que a gente é feliz. Até a próxima!

A importância de amigos no meu processo de inclusão

por Danielle Cardoso
estagiária de Letras do Laboratório de Inclusão

acessibilidade

Eu já passei por todos os estágios de escolarização e o que pude observar é que, em todos, meus amigos foram muito importantes para a minha inclusão. Não sou de ter muitos amigos, mas os que tenho, valem a pena. Logo, na maioria das vezes, uma única pessoa se aproxima de mim (sim, se não se aproximar, eu não me aproximo) e começa a me ajudar. O que acontece é que os amigos dessa pessoa aprendem com ela a se relacionarem comigo. Assim, em pouco tempo, tenho uma rede de amigos com os quais eu posso contar em qualquer situação.

Apesar de muitas pessoas se afastarem de mim por causa dos meus movimentos e dificuldades de falar, eu sempre fiz parte de grupinhos nas escolas que estudei. A curiosidade dos meus amigos de me conhecerem melhor quebrava muitos preconceitos. Eu gosto de brincar e quem me conhece sabe que sou bem extrovertida e espontânea, embora, à primeira vista, não pareça. O que é engraçado lembrar é que sempre fui muito “mandona”, então, eu acabava sendo a líder do grupinho que fazia parte.

Dessa forma, eu conquistava (e conquisto) meu lugar no mundo. Muitas vezes, meus amigos me defendiam até de professores que não ficavam muito satisfeitos em lidar comigo. E, olha, eu não era fácil, aprontava cada uma. Já briguei para me defender e tive o apoio dos meus amigos. Enfim, sou na minha, mas não pisa no meu calo. Acho que essa honestidade que assumi de ser eu mesma me ajudou bastante, pois, quando meus amigos percebem que trato minha deficiência como um mero detalhe, tudo fica mais simples e mais “normal”.

Na faculdade não foi diferente. Quando minha mãe deixou de me acompanhar, um cara se aproximou de mim e logo virou meu amigo. Durante algum tempo, eu contei só com ele para muita coisa. Acontece que ele me apresentava para os amigos dele e, logo, todo mundo me conhecia. O legal é que muita gente aprendeu com ele a empurrar minha cadeira de rodas, por exemplo. E foi passando a outras pessoas. Hoje, depois de cinco anos, ainda tenho amigos que se orgulham em dizer que observaram como os outros conseguem ultrapassar os obstáculos para também poderem me ajudar.

É sempre bom lembrar que ajudar é uma coisa e considerar a pessoa com deficiência incapaz é outra. Não gosto que me superprotejam, isso me sufoca. Ajudar um amigo espontaneamente não é nenhuma caridade. E, se você quiser fazer caridade, procure lugares com pessoas que realmente precisam disso. Só quero perto de mim quem acha natural ajudar uma amiga cadeirante. Quem sabe brincar, tem senso de humor e sabia conversar. Gente que não se acha superior a ninguém e aceita a diversidade de cada um.

Descobri que ter amizades assim é o maior bem que posso ter. Agradeço meus amigos que sempre me aceitaram como eu sou e foram companheiros quando mais precisei. E, sim, podem zoar comigo, desde que você tenha intimidade para isso. Brincadeira entre amigos não tem nada de errado. Errado é quando a pessoa não gosta da brincadeira e você continua. Para essas situações o melhor é ter sensibilidade para perceber que errou e pedir desculpas. Ter amigos é bem melhor do que ter dinheiro. Espero que você tenha amigos de verdade. Até a próxima!

Inclusão na prática

por Danielle Cardoso
estagiária de Letras do Laboratório de Inclusão

inclusão

Inclusão. Palavra simples, mas bem difícil de pôr em prática. Em toda minha vida, mesmo não percebendo, lutei por inclusão e acessibilidade em todos os aspectos. Depois que entrei na faculdade, vi que não estava sozinha nessa luta e que existem movimentos sociais em prol da causa. O único problema é que existem pessoas que acreditam que só falar em inclusão basta e não é assim. Inclusão deve ser praticada em todos os lugares e a toda hora. Não é tarefa fácil, mas não podemos correr o risco de deixar essa palavra apenas no discurso.

É certo que o discurso também é ação e sensibilizar as pessoas da importância de se incluir é maravilhoso, mas já não é o suficiente. Ainda é preciso informar que existem leis que resguardam os direitos das pessoas com deficiência, porém é urgente colocar em prática essas leis. Sei que você deve estar se perguntando: “Mas a inclusão já não é praticada?”, e eu te respondo: sim, estamos tentando praticar essa inclusão, principalmente, no âmbito escolar. O problema é que ainda falta muito e pessoas que falam, falam e, no fundo, não dizem nada, atrapalham o avanço dessa questão.

Não adianta algumas faculdades e universidades terem projetos de inclusão e acessibilidade se estes não proporcionarem ações efetivas de inclusão. De nada serve ser coordenador(a) de um desses projetos se você não conhece as pessoas que precisam deles. Conhecer as demandas do público que você quer atender é fundamental para qualquer líder de qualquer projeto tenha sucesso. Isso serve para qualquer lugar: empresas e sociedade em geral.

No começo do meu curso superior, várias pessoas vieram com um discurso muito bonito de que eu tinha direito de estudar e a UECE deveria se adaptar para me receber. Tiraram fotos comigo e tudo mais, mas tudo isso ficou no plano do discurso. Eu era ingênua, ainda não sabia diferenciar quem realmente queria ajudar de quem só queria se promover. E poucos foram aqueles que me ajudaram de verdade. Falar em inclusão é fácil, difícil é ter responsabilidade e fazer acontecer. Se não fosse minha teimosia em permanecer na universidade, eu teria desistido, com certeza.

Palavra não mudam o mundo, atitudes, sim. As palavras apenas encorajam pessoas a terem atitudes para vivermos em paz e em harmonia. É esse o maior objetivo dos meus textos postados aqui no blog. Procuro trazer toda a minha experiência com inclusão e acessibilidade para que, quem ler, possa mudar de atitude. Quero informar pais, professores, estudantes de que, sim, a prática da inclusão é possível e sou prova viva disso. Sei que muitos leem e em nada mudam. Nesse caso, a responsabilidade não é mais minha.

Hoje, sei que incluir requer tempo e esforço. Que ações inclusivas não são realizadas do dia para noite, por isso desconfio de dois tipos de pessoas: as que reclamam demais da falta de acessibilidade de um lugar, mas não fazem nada para mudar tal situação, e as que se animam muito para fazer uma ação de conscientização, seja onde for, mas desistem antes de começar. Praticar inclusão e acessibilidade não é fácil, por isso vamos ter comprometimento e articulação, para que não fiquemos só na falação. Até a próxima!