O duelo entre perfeição e equilíbrio

Ter síndrome de Down, autismo, retardo mental, tetraplegia, paralisia cerebral, ser cego ou surdo é normal? Ser gay, lésbica, travesti ou transexual é normal? Ter a cor da pele escura ou o cabelo crespo é normal? Nascer no Nordeste ou ser índio é normal? As debilidades do comportamento humano rotulam perfeição e normalidade e multiplicam os preconceitos. A diversidade humana é tão real e significante que dispensa, essencialmente, a questão da normalidade quando substituída pelo equilíbrio.

Como as exigências de normalidade e perfeição se transformam em preconceitos? Quando as diferenças de alguém são avaliadas e anexadas a sua personalidade ou forma de ser e fogem de um padrão estabelecido; quando as diferenças simbolizam inferioridade, imperfeição, fragilidade, fobia, exclusão ou indiferença. Por exemplo: “tem gente que não gosta de mim porque tenho uma deficiência”, “porque sou negro”, “porque sou gay”, “porque sou gordo”, “porque sou feio”, porque somos diferentes. Estas constatações fazem parte da vida de quem é rotulado de imperfeito.

Assim nascem culturas de ódio e exclusão como racismo, homofobia, xenofobia e discriminação a pessoas com deficiência. A facilidade que essas pessoas têm de ser tratadas com grosseria, indelicadeza e indiferença é um efeito expressivo de repugnância, incentivada pelo modelo padrão exigido de perfeição humana, muitas vezes encoberto por preconceitos velados. Preconceitos estes convictos de que aquela pessoa excluída e discriminada tem algo diferente da normalidade socialmente imposta, que não deve ser mostrado nem aceito porque incomoda.

A maior barreira em vencer os preconceitos é conservar e dogmatizar a ideia de que essas pessoas carregam algum tipo de inferioridade diante dos conceitos preestabelecidos de normalidade e perfeição. Esse modelo de sociedade deturpado foi inventado pelo homem, modificado e multiplicado, violentando pessoas, destruindo vidas e destinos, como simbologias de desigualdade e exclusão. Renegando que o sentido de sobrevivência solidária está no equilíbrio provocado pelo convívio harmonioso entre as diferenças.

A inferioridade imposta pelos preconceitos apenas reforça a ideia de que perfeição e normalidade são incapazes de promover a evolução da humanidade. Sobrevivem ainda as consequências das ideologias dogmáticas que provocaram ditadura, guerra, fome, desigualdade social, concentração de renda, violência urbana e desemprego. Onde estão os efeitos de perfeição e normalidade? Temos que repensar em um novo conceito de mundo, onde o equilíbrio seja mais importante do que a busca da perfeição. Seríamos normais e perfeitos demais para admitirmos isto?

A procura da perfeição tem anulado a busca pelo equilíbrio. Nenhuma sociedade sobrevive dignamente com violência e preconceito nas palavras e ações. Já a paz sobrevive a partir do equilíbrio e respeito à diversidade humana. O respeito é superior à perfeição quando demonstra a incapacidade de gerar conflitos. Os rótulos que sustentam os preconceitos buscam uma perfeição incoerente, negam a realidade e necessidade do equilíbrio como indispensável para a harmonia humana.

Algumas pessoas com deficiência ou doença mental preferem ficar em casa a se expor em espaços públicos por medo do assédio dos preconceitos. Travestis são muitas vezes obrigados a se prostituir porque o mercado de trabalho está fechado para as suas diferenças. Uma estudante é violentada por jovens neonazistas por ser uma mulher negra. Pessoas são perseguidas, combatidas e criticadas porque lutam pela inclusão de um público socialmente excluído.

Tudo isso são exemplos da ausência de equilíbrio por exigir uma sociedade normativa. Um absurdo? Não. Uma realidade diária de quem tem uma diferença rotulada pela imposição de uma perfeição. Os preconceitos cresceram e se fortificaram tanto culturalmente que hoje fica mais difícil desconstruí-los. Que mundo melhor é esse que imaginamos? Será que existe alguma esperança de melhores pessoas e melhores dias? Estamos caminhando ao fim ou ao surgimento de uma nova humanidade? Que essas reflexões provoquem a esperança que temos de sobreviver em benefício da vida e não da perfeição.

João Monteiro Vasconcelos
Coordenador do Laboratório de Inclusão

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