A incompetência e extinção do Assédio Moral

Lembro que na antiga Fundação Estadual do Bem Estar do menor do Ceará, tinha uma diretora que pronunciava sempre a mesma frase antes de qualquer reunião: “Eu não estou aqui para agradar, estou aqui para trabalhar”. As consequências desta frase extrapolavam os limites daquelas reuniões, entravam no dia a dia dos funcionários, na liberação e multiplicação do assédio moral, na diminuição dos níveis de interesse e motivação, na deficiência dos relacionamentos interpessoais, na desorganização funcional… Outro caso marcante e trágico aconteceu com um trabalhador que acompanhamos, pelos momentos de depressão, devido ao assédio moral da chefe. Uma vez ele entrou em nossa sala chorando e dizendo que não aguentava mais a chefe, pelas grosserias e humilhações. “Minha vida está um inferno, tenho vontade de sumir”… Em um domingo à noite, recebi uma ligação da assistente social que trabalhava comigo. “João, estou ligando para dar uma notícia muito ruim”. Era para comunicar o suicídio do trabalhador, justamente na véspera de voltar de férias. Ficamos todos muito tristes e revoltados com o que aconteceu e foi previsto.

Naquele tempo existia uma ilusão de que o dito “chefe” tinha que ser durão, inflexível, arrogante e autossuficiente para conseguir manter o controle administrativo, abusando do poder, humilhando servidores, verbalizando a fúria nas palavras: “quem manda aqui sou eu!”… Os resultados de todas estas ações imaturas, percussoras também de ditaduras e regimes militares, invadiram o tempo e o espaço, ainda insistem em sobreviver neste início de século XXI, como pragas administrativas, tanto do serviço público, como no serviço privado, inutilizando projetos, políticas públicas, falindo empresas, interferindo e prejudicando pessoas, famílias, destruindo vidas, retardando a evolução e o desenvolvimento humano.

Um mau chefe ou líder provoca sempre grandes conflitos, desequilíbrio nos relacionamentos, instabilidade funcional. Esconde, na intimidade, a personalidade de um “psicopata do trabalho”, projetando e calculando a perseguição, abusando do poder, pelo excesso de vaidade e arrogância, pela incapacidade de ser generoso, um facilitador da própria vida.

Hoje, diante da globalização da economia, da revisão da cultura de competição entre empresas e funcionários, do entendimento do projeto mundial de “sustentabilidade ampla”, dos avanços tecnológicos, da evolução científica da administração, começa a se definir um novo perfil de gestores e servidores, seguindo as exigências atuais de mercado e transformações sociais.

A valorização do funcionário ou colaborador, os investimentos em capacitação, a preocupação com sua qualidade de vida, implantação de projetos de ergonomia, são fatores essenciais no desenvolvimento de qualquer empresa.

Uma nova cultura de gestão de facilitadores está se desenhando em todo o mundo, transformando os antigos “chefes” em espécies em extinção, dando espaço para a esperança do surgimento de uma outra sociedade, capaz de promover o homem, o trabalhador, além de assegurar sua sobrevivência e de sua família. Manter um nível de relacionamento interpessoal onde o respeito às diferenças, a ética e a solidariedade possam fazer parte também dos projetos de qualquer empresa, coincidindo com a evolução do comportamento humano, com uma evolução social que precisamos defender e multiplicar. Quem sabe, um dia, os exemplos dos maus chefes e líderes façam parte apenas de uma memória triste da humanidade.

João Monteiro Vasconcelos

Coordenador do Laboratório de Inclusão da SPS

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