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O malefício diário de estereótipos de masculinidade

por Sofia Guimarães
estagiária de psicologia do Laboratório de Inclusão

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Recentemente, em um grupo universitário de estudos, foi pedido que criássemos uma pessoa fictícia no quadro, desenhando-a e pontuando suas características pessoais (nome, idade, estado civil, se estuda e/ou trabalha, história familiar, aspectos da personalidade, hobbies, orientação sexual etc). Formados os dois grupos, cada um escolheria duas identidades de gênero diferentes. Pois bem, tal convite faço agora a você, para que imagine duas pessoas, um do gênero masculino e a outra do feminino: Como elas são fisicamente? O que gostam de fazer? Com quem se relacionam? Onde moram? – depois, nomeie cada um, como desejar. Pronto? Agora, peço que troque as identidades de cada: o gênero que você colocou para a primeira será o da segunda pessoa. E então, o que você diria sobre os atuais? Seria possível essas novas pessoas continuarem existindo com as características inseridas anteriormente? – É válida a reflexão, pois, de fato, ser homem e ser mulher carrega tamanha padronização social, quando, na verdade, não se trata de um olhar para o sexo biológico de nascença, mas como, enquanto pessoa, ela subjetivamente se identifica. Realmente, falar de estereótipos masculinos remete, também, aos padrões sociais impostos às mulheres, como normas que ditam o que é ser feminina e o que compete, ou não, a cada gênero fazer e ser.

A partir da leitura da matéria “Como estereótipos de masculinidade afetam a vida e a saúde dos homens”, da Revista Galileu, sob autoria de Nathan Fernandes e publicada em agosto deste ano, tem-se uma recente pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) que alerta: “na média mundial, os homens têm menor expectativa de vida, e sob uma análise de 41 países europeus, esse problema é mais grave em locais cujos indicadores socioeconômicos são menos equilibrados entre homens e mulheres, pois eles são mais propensos ao tabagismo, alcoolismo, dieta não saudável e violência.” Diferente de morar em um país com igualdade de gênero, em que os benefícios à saúde e bem-estar do homem são: “menores taxas de mortalidade, metade do risco de depressão, maior chance de fazer sexo com proteção, menores taxas de suicídio e 40% a menos de risco de morrer de forma violenta”, destacam os pesquisadores. Além de que, no Brasil, a maioria dos usuários dos serviços de saúde são as mulheres, enquanto os únicos serviços em que os homens prevalecem em número são os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), voltados à saúde mental e ao abuso de álcool e outras drogas.

Como um dos entrevistados afirma: “aceitar a sensibilidade masculina é uma provocação nova, e é bacana a gente reconsiderar valores. O rosa é uma cor bonita, usar saia é confortável, chorar é um alívio… São coisas naturais, mas que, por conta de conceitos engessados, a gente não se permite sentir, e isso faz mal para nós mesmos. Por uma construção colonial, a gente foi condicionado ao serviço braçal, à virilidade. A gente tem que ser forte, tem que ser insensível, mesmo que isso nos afete” (SIC). Além disso, os meios de socialização masculinos são muito mais pobres em relação aos das mulheres, em que são comuns conversas sobre frustrações e angústias, como explica um psicólogo convidado: “o ato de falar é um ato de elaboração; quando você fala a coisa passa a existir. Mas a maioria dos homens não falam de sentimentos, eles não elaboram. Aí quando vão discutir com as mulheres, elas os deixam no chinelo, porque provavelmente já conversaram sobre o assunto. A violência, que não é só física, passa a ser um último recurso, e os homens usam a agressividade como forma de proteção” (SIC). E isso é bem grave.

Portanto, com essa síntese espero que este texto possa ser o pontapé inicial para a reflexão e abertura a debates construtivos, pois precisamos falar do quão adoecedor é enquadrar o sujeito em um padrão subjetivo que não o pertence espontaneamente, que o sufoca, o desconfigura e o distingue da sua real essência, seja ele de qual identidade de gênero for. É como contém na matéria: “socialmente, o patriarcado e o machismo facilitam a vida do homem, mas geram uma série de angústias e um sentimento de confusão”. Por uma sociedade com equidade, sem códigos de barras nem taxas nominativas de enquadramento supérfluo: somos pessoas, não reféns de rótulos.